Quarta-feira, 20 de Março de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1029
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A nova mídia e a desgraça do ciclista

Por Sergio da Motta e Albuquerque em 06/11/2012 na edição 719

A imprensa tradicional foi omissa e não seguiu as pistas que poderiam levar à derrocada final do ciclista campeão Lance Armstrong. De fato, como informou o site GigaOM (29/10), “não foi nenhum repórter investigativo de um periódico esportivo ou jornalista de alto perfil da grande da grande mídia que derrubou o super-herói”. De acordo com David Carr, do New York Times (29/10), foram “jornalistas cidadãos a usar o Twitter e blogs pouco conhecidos como plataformas os responsáveis para trazer a história à luz”.

Houve raras exceções, mas o jornalismo esportivo pouco produziu sobre as suspeitas que se acumularam ao longo dos anos sobre o uso de doping por parte de Armstrong e sua equipe. O Observatório da Imprensa, na edição nº 347, de 2005, publicou a acusação de Claude Droussent, então diretor de redação do periódico L’Equipe, que publicou um artigo onde acusava a União Internacional de Ciclismo “e seu presidente Hein Verbruggen” de desviarem a atenção da questão principal: Armstrong não só trapaceou, como mentiu. A Volta da França (Tour de France) foi criada por Henri Desgrange em 1903, que também fundou o periódico L’Auto, que deu origem ao diário esportivo francês L’Equipe.

Houve pelo menos um justo na história, leitor. Pelo menos um. Mas então, por que a grande mídia se comportou com tanta timidez diante de um caso tão importante, de grande interesse jornalístico e sobre o qual já pairavam suspeitas há muito tempo? Por que a mídia deixou o público tanto tempo a acreditar no super-homem Armstrong, o homem que venceu o câncer e por várias vezes foi vencedor da Volta da França? Por que esta mentira viveu por tanto tempo, com tantos indicativos do uso de doping por parte de Lance?

“Anúncios são a vida da revista”

Desde o início das suspeitas, como as apontadas por Claude Droussent, em 2005, até a publicação do relatório da Agência Americana Antidoping (Usada) em 10 de outubro deste ano, nada de importante sobre Armstrong e as acusações que sobre ele pesavam foi divulgado. O público foi pego de surpresa quando seu super-herói desabou miseravelmente diante de seus incrédulos olhos e ouvidos. O relatório confirmou todas as suspeitas e acabou com a empáfia de Armstrong.

Diz o GigaOM que os “jornalistas ficaram com medo de cobrir a história”. Mas por quê? Uma das razões, segundo o site, foi o fato da história incomum de Armstrong: ele venceu um câncer que já havia se espalhado por seu corpo e ainda fez de si mesmo um campeão. Isso quase o colocou dentro de uma redoma inatacável: sua história de vida desestimulava qualquer voz que se levantasse contra o ciclista. Colocar-se contra ele levaria à perda de contato com o “alto escalão do esporte”, informou o site.

Armstrong havia se tornado um indivíduo de estatura impressionante na mídia. Ele era “o homem”. Ninguém queria perder o acesso a ele. Outro detalhe importante: as consequências financeiras desastrosas originadas pela fuga de anunciantes que, segundo Steve Madden o ex-editor da revista Bicycling, aconteceria graças ao poder de chefe mafioso de Armstrong. Este, “através de patrocinadores e acordos de suporte, poderia fazer um anunciante desaparecer de nossas páginas”, declarou o editor. Que completou: “anúncios são a vida da revista, são eles que pagam meu salário e de todo o meu staff”.

Mídia cidadã não deixou o caso “esfriar”

Em suma, e simplificando: ir atrás das pistas que Armstrong deixava não servia aos interesses financeiros da revista, e nem da imprensa em geral. Note, caro leitor, como a credibilidade da imprensa é seriamente comprometida por sua dependência da receita com anunciantes. Imprensa totalmente livre é um mito, leitor. Eu sei que você sabe disso. Emir Sader, na Carta Maior (28/10/2009), afirmou:

“A chamada imprensa ‘livre’ representa os interesses do mercado, dos setores que anunciam nos veículos produzidos por essas empresas, que são mercadorias, que transformam as noticias e as colunas que publicam em mercadorias, que são compradas e vendidas, como toda mercadoria.”

Por isso a grande mídia não quis ir atrás de Armstrong: havia muito dinheiro e muito lucro a ser realizado desde que ninguém chamasse a atenção para as suspeitas existentes sobre ele. Revelar ao mundo a verdade suja do ciclista trapaceiro e desonesto seria péssimo para os negócios. E poderia custar o emprego de muitos jornalistas. Por isso Armstrong enganou tanta gente por tanto tempo.

Mas nós vivemos em novos tempos. A mídia cidadã ensaia seus primeiros passos. E foi ela que não deixou o caso “esfriar”, enquanto a imprensa tradicional covardemente fugia de sua responsabilidade. Gente do Twitter, como @TheRace Radio e @UCI_Overlord, e um blog não muito conhecido chamado NYVelocity (que é publicado por um fotógrafo comercial e ciclista amador), continuaram com o trabalho que a mídia não teve coragem de fazer. Andy Shen, fundador do blog denunciador, nunca teve conexões comprometedoras com o esporte e, sem nada a perder, podia publicar o que quisesse. Os visitantes do site e fãs do esporte encarregavam-se de distribuir os links e comentários que Shen postava sobre o assunto.

Ação combinada de Twitter e blog

David Carr, o repórter do New York Times, comentou, empolgado: “A beleza do NYVelocity é que eles conheciam o esporte, sabiam da realidade e não deviam obrigações a alguns anunciantes e poderes do esporte. Eles não tiveram medo de publicar a verdade.” O blog publicou um cartum, sofisticado e muito bem elaborado, onde toda a trama de Lance e as lideranças e autoridades do esporte são desvendadas e o ciclismo profissional aparece como corrompido. As explicações que Armstrong apresentava como defesa nunca passaram de “uma floresta de mentiras”, acusava o blog. O site denunciava em desafio: “A inconstitucional caça às bruxas continua.”

O blog também publicou a transcrição integral de uma entrevista que o jornalista esportivo irlandês Paul Kimmage fez com o ciclista Floyd Landis para o Times de Londres (30/01/2011), na qual o atleta afirmava que Armstrong “havia orquestrado um programa de doping para seu time enquanto a União Internacional de Ciclismo ignorava as crescentes evidências do que ele havia feito”. Landis perdeu seu título de vencedor da Volta da França em 2006 por uso de doping.

O pessoal do Twitter (@TheRace Radio e @UCI_Overlord) , por sua vez atuou combatendo cada negativa de Armstrong e da liderança esportiva sobre as suspeitas de amplo uso de doping. A ação combinada dos dois – o blog e os twiteiros – trouxe de volta as investigações e as suspeitas aos olhos de todos, assim como a força das autoridades e agências estatais de regulação esportiva.

Sem compromissos com mercado e anunciantes

Om Malik, escritor-sênior e fundador do GigaOM, acredita que esta é a maior vantagem do que ele chama de “democratização do conteúdo”: “O fato de qualquer um poder publicar informação e distribuí-la permite que fontes que nunca estariam disponíveis antes alcancem uma razoavelmente ampla audiência-seja alguém ao vivo – twitando sobre o ataque ao complexo de Osama bin Laden ou manifestantes na Praça Tahir no Egito. E, como o professor da Universidade de Nova York, Jay Rosen tem argumentado, enquanto alguns destes comentários e publicações pareçam ser apenas ruídos, que o jornalismo como um todo tende a melhorar quanto mais pessoas se engajam nele.”

Malik destaca o valor das fontes que estão fora do ambiente da mídia tradicional em momentos que a imprensa tradicional encontra-se impedida de exercer sua função. Por impedimento concreto ou negligência mercantil. Ele não tece loas e louvações ao jornalismo cidadão ou ao poder dos blogs independentes. Om Malik não acredita que o jornalismo cidadão ou qualquer tipo de plataforma independente possa substituir a mídia tradicional ou o jornalismo investigativo. Tudo o que ele quer dizer é que as mídias independentes, de qualquer espécie, funcionam como complementos necessários à imprensa tradicional na paisagem da mídia contemporânea.

Os conteúdos democraticamente distribuídos são uma força que contrabalança o poder do mercado e dos anunciantes em interferir nas pautas das redações do jornalismo convencional. Essa foi a maior lição que ficou do caso da derrubada final de um homem corrupto e cínico e que provavelmente até hoje seria lembrado como um exemplo de vida se não fosse o poder e a coragem de gente que faz parte da nova mídia. Que não tem compromissos com as forças de mercado, nem contas a prestar com os anunciantes que suportam a mídia tradicional.

***

[Sergio da Motta e Albuquerque é mestre em Planejamento urbano, consultor e tradutor]

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