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Sábado, 18 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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Endereços da web provocam febre especulativa nos EUA

Por Hugo Miller em 04/12/2012 na edição 723
Reproduzido do Valor Econômico, 27/11/2012, tradução de Sabino Ahumada; intertítulos do OI

A internet dá a impressão de ser um espaço em infinita expansão. Mas, na verdade, funciona mais como um mercado imobiliário superpovoado. Os domínios de sites são como endereços de imóveis. Os melhores bairros exibem preços mais altos. Há especuladores, às vezes bastante desonestos, por todos os lados. Daí a grande importância do leilão, em meados de 2013, de 1,4 mil novos sufixos de internet, além do “.com”. É a primeira grande expansão de nomes de domínios de internet desde 2004, o que atrai o interesse de Google e Amazon.com, assim como da Donuts, uma empresa pouco conhecida, de Bellevue, Washington, que pretende comprar o maior número possível de endereços para, depois, lucrar alto licenciando-os.

Esse jogo com os domínios pode trazer lucros surpreendentes. Em 2010, a Clover Holdings, uma empresa com sede nas ilhas caribenhas de São Vicente e Granadinas, pagou US$ 13 milhões pelos direitos do endereço sex.com, segundo Kieren McCarthy, autor de um livro sobre a venda. A criação de sufixos como “.app”, “.law” e “.financial” deverá atrair todo tipo de empresas. A Amazon quer o sufixo “.book”, enquanto o Google solicitou, entre outros, os sufixos “.ads”, “.buy” e “.google”.

Essas solicitações são encaminhadas à Corporação para a Atribuição de Nomes e Números na Internet (Icann, na sigla em inglês), uma organização sem fins lucrativos em Los Angeles que coordena o sistema de endereços na internet desde que o governo dos Estados Unidos privatizou a tarefa há mais de dez anos. A Icann, que se financia com o registro dos domínios, prepara-se para lançar 1,4 mil novos sufixos. O grupo cobra US$ 185 mil de cada solicitação (um bom trabalho, caso se consiga entrar nisso). Depois que a Icann conclui o processo de classificação, caso dois ou mais solicitantes qualificados não cheguem a acordo para usar em conjunto, por exemplo, o sufixo “.school” ou o “.horse”, então, quem fizer o maior lance ganha, segundo o porta-voz da instituição, Brad White.

“Má-fé” ou ciberocupação

Alguns especuladores tentam comprar os direitos de nomes que sejam valiosos para terceiros e, então, licenciá-los por valores maiores. O maior receio é a ciberocupação, a compra de domínios com o intuito de que não caiam em mãos de um concorrente ou de usá-los para criar sites parecidos à concorrência e enganar os consumidores e minar o desempenho dos rivais. Embora a ciberocupação seja ilegal pela lei de marcas registradas dos EUA, os tribunais, com frequência, remetem a questão a cortes internacionais reconhecidas pela Icann, porque muitos casos envolvem partes estrangeiras.

Nesta rodada de expansão de domínios da internet, a Donuts emergiu como a ofertante mais ativa. A empresa gastou mais de US$ 56 milhões em solicitações por 307 novos sufixos, antes do prazo de encerramento em maio, superando o Google, com 99, e a Amazon.com, com 76. O vice-presidente executivo de assuntos empresariais da Donuts, Jonathan Nevett, que também é um dos quatro fundadores da empresa, disse que pretende ampliar a própria base de novos domínios que pode licenciar para empresas e outros consumidores. “Este é o espaço mais limitado que se pode imaginar”, afirmou Nevett, que foi assessor da Icann e disse estar trabalhando no atual leilão desde 2005. A Donuts conta com mais de US$ 100 milhões em investimentos de capital de risco. Entre suas solicitações, fez 140 lances nos quais não teve concorrentes, por domínios como “.mortgate” e “.dentist”.

Jeffrey Stoler, advogado da McCarter & English, alertou a Icann para o fato de que alguns dos clientes da Donuts podem acabar voltando-se à ciberocupação, por ter laços com a Demand Media, de Santa Monica, Califórnia, cujos clientes já fizeram algo desse tipo no passado. Stoler escreveu que o executivo-chefe da Donuts, Paul Stahura, foi presidente e diretor de estratégia da Demand Media, empresa que, junto com suas subsidiárias, recebeu mais de 20 veredictos negativos de casos de arbitragem envolvendo “má-fé” ou ciberocupação. Esse tipo de problema pode levar a Icann a impedir uma empresa de operar domínios, disse White, o porta-voz da Icann.

“Afirmações falsas e informações erradas”

A Donuts tem acordo para vender 107 de seus principais domínios à Demand Media, de acordo com informe à imprensa divulgado pela Demand Media em junho. “A Donuts e seus principais executivos são, pelas diretrizes de elegibilidade estabelecidas pela Icann, inadequados e inelegíveis para participar” do processo de lances, escreveu Stoler, em carta à Icann em julho. Solter não quis comentar se ele representa ofertantes concorrentes pelos domínios de internet. “Não temos dúvida sobre a elegibilidade da Donuts como solicitante”, escreveu Stahura em e-mail. “A carta tenta fazer uma ligação que não existe.”

O vice-presidente executivo da Demand Media, Dave Panos, contestou as reclamações de Stoler em uma carta à Icann enviada em setembro, sustentando que estavam “repletas de afirmações falsas e informações erradas”. A empresa de Panos é distinta da Donuts e as duas não têm relação acionária, segundo Brian Jacobs, fundador da Emergence Capital Partners, uma das investidoras na Donuts. Além dos 107 domínios que pretende comprar da Donuts, a Demand Media também fez solicitação à Icann, sob seu próprio nome, de dezenas de outros domínios.

White não quis comentar o caso da Donuts porque a Icann não faz comentários sobre requerentes específicos, mas afirmou que o grupo vai monitorar de forma rigorosa cada um dos 1.930 solicitantes.

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[Hugo Miller, da Bloomberg Businesweek]

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