Quarta-feira, 17 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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As redes sociais, o eleitorado e o comportamento do internauta

Por Graziela Angelo em 18/12/2012 na edição 725

As eleições municipais de 2012 tiveram um ingrediente novo que veio para ficar: a campanha nas mídias sociais, mais precisamente no Facebook. A rede social mais popular do Brasil tem cerca de 48 milhões de usuários. Com um número tão expressivo de pessoas navegando nesse ambiente praticamente todos os dias, a utilização desse espaço para atrair eleitores era óbvio e inevitável. Novos profissionais e colaboradores foram mobilizados na estrutura dos comitês para cuidarem exclusivamente das mídias online (site oficial, blog, Twitter, YouTube, Face…). Pessoas que fizeram um esforço diário, traduzido em horas intermináveis de vigília, navegando na net para abastecer as páginas de informação, responder questionamentos e monitorar o conteúdo de adversários.

Tudo muito lindo, mas… o que se fala nas redes sociais tem impacto real nas eleições? Quer dizer, o Facebook pode ajudar a eleger ou contribuir para a derrota de um candidato? Vemos na prática que não é fácil atrair para o debate eleitoral, no Face e Twitter, pessoas que já não estejam ligadas intimamente à campanha. Na cidade onde moro (90 mil habitantes), as pessoas mais ativas no Facebook, tratando de assuntos relativos à disputa para prefeito, eram sempre as mesmas, todas envolvidas diretamente nas campanhas dos candidatos. Então, se os grupos que debatem os temas são formados por pessoas que já estão engajadas, o que a rede social pode acrescentar, em termos de voto (que é o que interessa aos candidatos)?

Concluir que a resposta é “nada” seria simplificar demais a questão. Vamos lembrar que muitas pessoas veem os posts e até os acompanham regularmente sem fazerem um comentário sequer – o que pode sugerir que o alcance deve ser maior do que parece. Por outro lado, o conteúdo postado é disperso, tornando-se muito difícil atingir um nicho específico, um determinado público com quem o candidato precise falar num determinado momento.

Veste a camisa e vai pra “guerra”

Seja como for, a partir de agora nenhum candidato com uma estrutura de campanha minimamente planejada vai se ausentar das redes sociais. Parece incoerente, mas se estar nelas pode não garantir o número de votos compatível com o esforço empregado nessa comunicação, estar fora delas é inadmissível. Todo mundo “precisa” ter uma “identidade virtual” hoje em dia.

Encontrar a forma ideal de utilização da internet é tão importante quanto mensurar o impacto que ela tem. Várias ferramentas de monitoramento auxiliam os profissionais de comunicação nesse processo. Brandviewer e Graphmonitor são algumas delas. Tudo o que há na internet sobre o seu candidato e adversários é traduzido em gráficos e tabelas. Com essa informação nas mãos, você observa os conteúdos mais comentados, o número de citações positivas e negativas, os horários e dias da semana de mais “audiência”, enfim, entende melhor o hábito do internauta. O monitoramento permanente desses dados contribui para a definição do conteúdo e traduz em números o que parece intangível, a comunicação online.

Todos esses dados, porém, servem para os profissionais. Para o público em geral esses recursos não têm utilidade. As pessoas querem é falar, falar qualquer coisa, falar o que pensam, o que sentem. E se estamos em época de eleições, as discussões, obviamente, se acirram, chegando em alguns casos ao extremo de ataques pessoais. Cada qual veste a camisa do seu partido, se “arma” e vai pra “guerra”, blindado pelo computador – máquina que te dá coragem para falar coisas que dificilmente falaria olhando nos olhos do outro.

Marco para uma nova comunicação política

Cidades de pequeno e médio porte (como a minha) merecem uma análise diferenciada desse tipo de comportamento. Do ponto de vista da estratégia de campanha, é sabido que conteúdos positivos, especialmente os de humor, têm repercussão muito maior que mensagens negativas. Mesmo aquelas que tentam desconstruir a imagem do candidato adversário, baseadas em fatos comprovados, não têm o alcance de uma boa piada. No que se refere às relações pessoais, é um fenômeno preocupante. Uma coisa é você agredir alguém (via net) em Niterói, Ribeirão Preto, Juiz de Fora, São Paulo… Outra é fazer isso em cidades como Ubatuba (SP), Seropédica (RJ), Valença (BA), Caratinga (MG). Nesses lugares, quando não se é parente, é vizinho! Passado todo o turbilhão, prefeito e vereadores eleitos e derrotados seguem com suas vidas no ritmo da conveniência do jogo político. Já você, mero mortal, tem que retomar sua rotina e encontrar com aquelas mesmas pessoas com quem debateu por aí. O clima entre você e o colega de “pelada”, de academia, de clube de serviço, de escola, seu cliente e seu amigo (!) já não é mais o mesmo.

O uso da internet para fins políticos é recente como ela própria, por isso é até compreensível essa aparente desorientação. Mas é bom que profissionais de comunicação e usuários tirem lições disso. A Internet não precisa ser o “esgoto” da campanha. Melhor fazer da rede social uma ferramenta de relacionamento permanente entre governantes, políticos e a população, além do período eleitoral. Quem sabe ela até possa contribuir para um voto mais consciente? Também seria bom revermos nossa conduta virtual em favor do bom convívio social.

Acredito que no futuro, como preveem especialistas americanos, veremos uma campanha predominantemente online que servirá de marco para uma nova comunicação política – como ocorreu em 1960, no debate televisionado entre Kennedy e Nixon, na corrida presidencial dos Estados Unidos. Até agora, esse momento não aconteceu, nem aqui, nem na América do Norte, onde o processo está mais avançado. Por enquanto – e especialmente em cidades menores – muros pintados, carros adesivados e o programa de TV ainda têm mais impacto no eleitorado que muitos posts no Face.

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[Graziela Angelo é jornalista, Caratinga, MG]

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