Sábado, 17 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº974

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Quando o navegador sabe mais que você

Por Duncan Robinson em 31/12/2012 na edição 727
Reproduzido do Valor Econômico, 28/12/2012; intertítulos do OI

Tim Dempsey descobriu que sua mulher poderia estar grávida de uma fonte peculiar: um anúncio on-line. “Eu via anúncios de testes de gravidez cada vez que ligava meu laptop”, diz o executivo de 28 anos. “Eu virei para a minha esposa e disse: ‘Há algo que você queira me dizer?’”. Ela usou o laptop do marido para pesquisar testes de gravidez.

É um tipo de experiência que pode se tornar cada vez mais comum. Quase tudo que uma pessoa faz on-line é monitorado por uma combinação de “cookies”, “beacons” e outros dispositivos de rastreamento. Eles são parte inseparável da vida on-line, e seu trabalho vai desde cronometrar quanto tempo uma pessoa passa em um site até lembrar o que ela coloca em seus carrinhos de compras. Assim, o navegador sabe tanto da sua vida quanto você – às vezes, como Dempsey descobriu, sabe até mais.

O crescimento desses dispositivos de rastreamento foi rápido. Em 1997, apenas um quarto dos cem sites mais populares do mundo tinham cookies instalados. Em 2011, todos tinham.

Não surpreende, portanto, que os softwares usados para esconder os rastros das pessoas on-line sejam cada vez mais populares. Durante anos, as ferramentas que bloqueiam “cookies” e escondem endereços IP eram o segredo dos nerds – agora, milhões as usam.

“Essa situação é similar ao que vimos em 2002 e 2003, quando os programas antivírus foram adotados em massa”, diz Bill Kerrigan, executivo-chefe da empresa americana Abine, que faz o DoNotTrackMe, um software que bloqueia cookies e outras ferramentas de monitoramento. “Foi esse fenômeno de conscientização que impulsionou a adoção”. DoNotTrackMe foi baixado 3 milhões de vezes desde o seu lançamento, em fevereiro.

Opção padrão

É uma tendência observada em outras empresas de antirrastreadores. O Ghostery, por exemplo, um produto que informa quais programas o site usa para monitorar seus visitantes – e os bloqueia a pedido –, tem 40 milhões de usuários ativos ao redor do mundo.

“Nossa base de usuários mudou significativamente, com muito mais usuários comuns”, diz Andy Kahl, diretor de produtos da americana Evidon, dona do Ghostery. “Nosso maior grupo de usuários agora não são mais os experts em internet – são pessoas que fazem compras on-line, têm redes sociais, mas não trabalham em TI.”

O número de dispositivos de rastreamento usados por sites quase dobrou em três anos, segundo o WebPrivacy Census, publicado pelo Centro de Direito e Tecnologia de Berkeley da Universidade da Califórnia. As ferramentas para monitorar as atividades dos usuários também estão cada vez mais sofisticadas. Em 2009, os cem sites mais populares – desde Google até CNN.com – usaram um total de mais de 3,5 mil “cookies” para rastrear seus visitantes. Hoje esse número é de pouco menos de 7 mil. Um quinto desses sites usam pelo menos cem “cookies” cada.

Os varejistas estão entre os maiores entusiastas da tecnologia. Assim como redes de varejo analisam como os clientes se comportam em uma loja, os varejistas on-line monitoraram quanto tempo os clientes ficam, de onde vêm e o que eles pensam em comprar.

No Reino Unido, diz análise recente do Ghostery, a Play.com, que vende música e jogos de vídeo, tinha 76 etiquetas de rastreamento, mais do que qualquer outra grande varejista do Reino Unido. A Amazon no Reino Unido, enquanto isso, usou 43 rastreadores – menos do que os sites de Tesco, Debenhams ou Marks and Spencer.

Quando feito abertamente, o rastreamento é semelhante a uma loja amigável, diz Kahl. “Se você vai a um açougue toda semana, não está preocupado se o dono sabe seu pedido. Mas a coisa muda de figura se você atravessa a cidade para comprar carne num lugar diferente e o açougueiro diz: ‘Oi, aqui estão seu filé e suas linguiças’.”

A coleta de dados deve ser uma “transação transparente”, argumenta Lee Baker, até recentemente o presidente da Association of Online Publishers, uma entidade de classe do Reino Unido. “Eu tenho o meu conteúdo de graça, e você quer alguns dados? Ótimo. Vamos fazer essa troca”. Ele acrescenta que está aumentando o entendimento do público de como a informação é utilizada. “No final, o consumidor vai se tornar mais consciente do valor dos seus dados.”

Não é só de varejistas excessivamente familiares que o consumidor quer se esconder, porém.

“Centenas de milhares usaram nosso produto devido à primavera árabe”, diz Vernon Irvin, presidente da Virtual World Computing, que produz um software antirrastreamento chamado Cocoon, que ele diz ter cerca de 500 mil usuários até o momento. Durante revoltas antigoverno no ano passado, ativistas usaram produtos como Cocoon para tentar ultrapassar “firewalls” e sistemas de monitoramento do governo, e acessar redes sociais, sem detecção.

Na Europa, as autoridades vem olhando mais de perto como os sites monitoraram os usuários, o que ajuda a aumentar a consciência sobre o rastreamento. Neste ano, a união Europeia aprovou regras que forçam os sites a pedir consentimento ao usuário para usar “cookies”.

Ao mesmo tempo, a Microsoft colocou a opção “não rastrear” como padrão em seu navegador, o Internet Explorer. A tecnologia manda um pedido aos sites para não utilizarem rastreamento, e a decisão surpreendeu e irritou o setor de publicidade, uma vez que cerca de metade dos usuários da internet usam o Internet Explorer. O Chrome, do Google, veio com a sua própria versão de “não rastrear” em novembro.

Segurança e privacidade

Embora essas ferramentas só solicitam que os sites não rastreiem os usuários – e podem, portanto, ser ignoradas – elas são “prova de que a privacidade é um assunto popular”, diz David Gorodyansky, executivo-chefe da americana AnchorFree, um produtor de aplicativos de privacidade. “As pessoas estão extremamente conscientes e preocupadas com a privacidade.”

O aplicativo, que criptografa todas as páginas da web que o usuário visita, foi instalado por mais de 100 milhões de pessoas. É baixado mais de 1 milhão de vezes por semana, e Gorodyansky diz que as receitas do grupo mais do que dobraram ano sobre ano, embora ele se recuse a revelar números.

Empresas de antirrastreamento dizem que o mercado tem potencial para crescer ainda mais. Enquanto os usuários estão mais cautelosos sobre quem pode acessar seus dados e como eles serão usados, há ainda uma grande discrepância entre as precauções que as pessoas tomam on-line comparadas às que tomam ao sair de casa, diz Gorodyansky. No entanto, as consequências de surfar sem proteção são potencialmente piores. “Há mais dados on-line do que nas casas das pessoas”, diz ele.

Enquanto pouco mais de um terço de dados digitais – tais como e-mails privados ou detalhes de contas bancárias – precisam obrigatoriamente ser mantidos em segurança, seja para fins de regulamentação ou de privacidade, apenas um quinto o é, de acordo com o estudo anual “Digital Universe”, da empresa de pesquisa IDC.

Além da segurança, o que a maioria dos usuários quer é algo muito básico: privacidade. A máxima “nada a esconder, nada a temer” não se aplica, diz Irvin. “Não significa que eu faça alguma coisa que não quero que as pessoas vejam. Mas, sabe como é, não quero que as pessoas saibam que eu tenho fungo na unha – e que anúncios sobre fungo de unha comecem a pipocar em todos os lugares”.

***

[Duncan Robinson, do Financial Times em Londres]

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