Terça-feira, 19 de Fevereiro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1024
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Valentões S/A

Por Márion Strecker em 05/03/2013 na edição 736

Algumas pessoas entenderam pelo meu último artigo que não acredito em psiquiatria. Quero desfazer essa impressão.

Psiquiatria não é questão de fé. Penso que se as pessoas tomam remédio para colesterol alto ou pressão alta, por que não haveriam de tomar para “depressão alta”?

Eu falava que a depressão é um dos motivos que levam as pessoas a mergulhar de cabeça nas redes sociais. O deprimido se isola, e páginas como o Facebook podem ser um bom passatempo. Quer dizer, bom ou mau. Depende.

A depressão é uma doença que afeta algo em torno de 20% da população mundial ao menos uma vez na vida. Vamos olhar para os lados. A doença caracteriza-se pelo isolamento, pela autocomiseração, pela desesperança, pelo autoflagelo.

Depressão não é sinônimo de tristeza. Encarar depressão como um estado de humor e achar que a pessoa pode se curar sozinha é privá-la de ajuda médica. Isso é sério. Suicídio é a pior consequência da omissão de socorro.

Depressão é uma doença biológica ou comportamental. Ou ambas.

Vida real

Nem toda depressão traz tristeza. Depressão pode trazer irritação e ansiedade, por exemplo.

As doenças psiquiátricas mais populares podem ser subdivididas de acordo com os sintomas em dois grandes grupos: neuroses ou psicoses. Depressão, ansiedade ou pânico estão no grupo das neuroses, enquanto alucinação, delírio ou paranoia estão no grupo das psicoses.

Parece simples? Não é. Não há distinção clara entre casos comuns e problemas mentais severos. E sintomas de neurose e psicose podem surgir simultaneamente.

Se você quer ajudar alguém ou ser ajudado, procure um médico.

Isso posto, posso voltar a falar sobre o comportamento dos usuários de redes sociais.

Minha impressão é que as redes sociais exacerbam certos comportamentos, inclusive psicoses. Sim, estou falando de perda de contato com a realidade.

Todo o mundo pode ser valentão do outro lado da tela do computador. É muito mais comum encontrar um valentão no Twitter do que nas ruas da cidade.

Fiquei boba com a reação à visita ao Brasil da dissidente e blogueira cubana Yoani Sánchez no mês passado. Na vida real, seu primeiro compromisso em solo nacional, que era a projeção de um documentário em Feira de Santana (BA), teve de ser cancelado devido a protestos. Como assim? Impede-se a projeção de um documentário por discordância ideológica? Onde estamos? Brasil? Século 21?

Processo longo

Na internet, o mínimo que ouvi em redes sociais foi um grito retumbante: “Fora, Yoani”.

Pessoalmente, sei apreciar os avanços da sociedade cubana e sua importância para o mundo. Mas não compactuo com a falta de liberdade de expressão e com o cerco ao direito de ir e vir. Simples assim.

Não podemos conviver com opiniões discordantes? Por que os gritos de “Fora,Yoani”?

Quando perguntei isso no Twitter, os covardes se calaram.

Então penso que o embate nas redes sociais está educando os cidadãos aos poucos. É um processo longuíssimo e doloroso. Mas, no embate cotidiano, alguma coisa melhor há de surgir. Ah, sim, há de surgir.

***

[Marion Strecker é jornalista, colunista da Folha de S.Paulo]

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