Segunda-feira, 25 de Março de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1029
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Google quer construir o computador de Star Trek

Por Sergio da Motta e Albuquerque em 16/04/2013 na edição 742

Na primeira vez que usei a pesquisa por voz no Android, a lembrança de uma cena em Star Trek 4 envolvendo computadores e a fala humana foi irresistível. Naquele filme da famosa franquia cinematográfica, a tripulação volta à Terra no final do século 20 (1986) e entra em contato com nossos primitivos computadores. O antigo engenheiro-chefe da nave original, Montgomery Scott, tenta usar um deles, leva o mouse à boca e tenta falar com a máquina.

A única diferença entre mim e o sr. Scott foi que obtive uma resposta e o antigo engenheiro-chefe da fictícia nave, não. Pois o Google agora está aperfeiçoando a pesquisa por voz e a busca visual para desenvolver um computador análogo ao da famosa supernave da série de ficção. Isso mesmo: Farhad Manjoo (11/4), da Slate, revelou que a atual obsessão do Google é replicar o computador falante da série Star Trek. Em conversa com Scott Huffman, um dos engenheiros diretores do Time de Buscas do Google, Manjoo perguntou sobre a evolução da pesquisa por voz. Foi quando ele ouviu o técnico invocar o nome do computador da nave da famosa série:

“Você poderia perguntar, ‘Ei, Google, onde devo almoçar hoje?’”, disse o engenheiro. “E ele poderia dizer, ‘Bem, como você parece gostar de restaurantes italianos, que tal este aqui?’” O diretor de produto da empresa Tamar Yehoshua também confirmou que o Google está a trabalhar numa versão (deles) do computador da série Star Trek: “Você pode falar com ele – ele o entende e pode ter uma conversa consigo”, disse Tamar.

Como uma máquina lida com o imprevisível?

Farhad não ficou convencido. Afinal, o Google, segundo o autor, é a mais nerd das grandes da web e referência à série televisiva pareceu-lhe óbvia. O repórter desconfiou de uma estratégia de marketing. Mas Amit Singhal, chefe do setor de classificação e buscas, garantiu que “o computador de Star Trek não é só uma metáfora que usamos para explicar aos outros o que estamos construindo. É o ideal que pretendemos construir – a versão ideal feita realisticamente”, garantiu o chefe Amit.

A transformação já começou: o Google de hoje já é capaz de entender, pelo menos, certos conceitos. Foi criado para ele o “Knowledge Graph”, um banco de dados gigantesco “com centenas de milhares de objetos do mundo real”. O Google americano já incorpora alguns desses avanços. Mas através do nosso já podemos antever o que virá, quando o motor de buscas faz sugestões, ou principalmente quando apresenta informações e imagens detalhadas ao lado dos resultados das buscas por nomes de lugares, países ou pessoas que eventualmente pesquisamos. O progresso ainda é lento e sujeito a tropeços, como aquelas sugestões totalmente equivocadas que às vezes o Google oferece. São rudimentos bem toscos de aprendizado sendo ensaiados ali, bem debaixo de nossas vistas. Ou melhor, das nossas buscas.

Ainda falta bastante para a completa transformação que o Google deseja: o computador que fala e entende o que falamos. O Google vai ter que aprender aspectos nebulosos de nossas vidas, como ambiguidades, mudanças súbitas de significados de palavras (que variam com o contexto) e a lidar com perguntas que ele para os quais ele não foi preparado. O Google tem que aprender a aprender. E ele sabe muito pouco, atualmente. A coisa não é fácil. Como ensinar uma máquina a lidar com o imprevisível? Podemos ensinar um computador a improvisar e criar diante de uma situação inédita?

“Forja de Vulcano”

A proposta desafiadora do Google trouxe para debate duas questões contemporâneas sobre tecnologia: a automação humanizada e a ficção científica como incubadora de novas invenções. Por trás de toda aparente empolgação juvenil do Google está a necessidade ancestral da construção do autômato, uma criatura mecânica que seja capaz de replicar atos e atitudes humanas, sem, contudo ser uma delas. Tal necessidade existe entre humanos há muito tempo. A ficção científica e a imaginação ousada e livre, neste sentido, vêm agindo como impulsionadoras de novos desenvolvimentos para a humanidade ao longo do tempo.

No século 19 (1836), Edgar Allan Poe escreveu sobre um autômato que jogava xadrez. em Mazael’s Chess Player (“O Jogador de Xadrez de Mazael”), geringonça inventada por Wolfgang von Kempelen em 1770 para impressionar a nobreza que não passava de uma elaborada farsa. “O Turco”, como ficou conhecido o suposto autômato, era uma coleção de objetos construídos juntos, como se fossem uma só peça. No topo, o jogador (representado pela figura de um turco) e uma mesa de xadrez.

O “esquema” foi desmascarado quando descobriram que o objeto era oco e um pequeno homem operava o jogador. A História registra outros exemplos marcantes de automação criados ao longo do tempo. A imprensa da Universidade John Hopkins publicou um artigo muito importante do professor Silvio Bedini sobre o assunto: “O papel do autômato na História da Tecnologia“ (Technology and Culture, vol. 5, nº 1, 1964, J. Hopkins Press). Em seu artigo, ele nos conta o caso, ocorrido no século 18, de um teatro automático instalado na “forja de Vulcano” e que combinava 256 figuras, “das quais 119 eram animadas através de uma única turbina d’água com um eixo horizontal a operar uma série de engrenagens de redução”.

Grandes homens de negócios

Antes disso, no século 16, o imperador Carlos V, ao visitar Pavia, expressou desejo de ver o planetário de Giovanni de Dondi restaurado. O governador de Milão, duque Ferdinando Gonzaga, recomendou Gianello Torriano di Cremona (Ca. 1515-1585), pioneiro na construção de androides para a empreitada. Quando o imperador do Santo Império Romano-Germânico Carlos V abdicou, Gianello foi com o aristocrata para o convento de São Justo:

“O relojoeiro devotou seu tempo e habilidade a construção de um autômato que despertasse seu senhor de seu luto. Frequentemente Gianello surpreendia o imperador com novidades de sua criação. Depois do jantar, por exemplo, ele produziu um quadro na mesa de jantar que consistia numa variedade de pequenas figuras de soldados armados que marchavam, cavalgavam, tocavam tambores, trompetes e engajavam-se em batalhas.”

A História do homem moderno está permeada por sucessivas tentativas de construção de autômatos. Replicar a vida é um antigo sonho da razão humana e conecta-se diretamente à informática e à computação. É o professor Bedini quem diz:

“Um estudo da História da automação claramente revela que muitas dessas invenções básicas produzidas por essas tentativas de imitar a vida por meios mecânicos levaram a significantes desenvolvimentos que culminaram na moderna automação e na cibernética.”

A imaginação tem o poder de levar a realizações concretas. É bom que o Google proponha a si mesmo esta tarefa: produzir um computador capaz de falar e entender conceitos. A imaginação os levou à ação, que nos trouxe o Google – uma das ferramentas mais úteis da web, se não for a mais útil. Da concretude do motor de buscas e suas capacidades, eles retornam à imaginação para se abastecerem de novas ideias para o futuro.

Se Sergey Brin e Larry Page são nerds, pouco importa. O Google demonstrou a importância de ter uma meta quase inatingível em nossos tempos pode servir como orientação para quem precisa e vive da constante inovação. Aqueles rapazes de Mountain View, com seu projeto inspirado em ficção científica e suas ideias pouco usuais, não passam de grandes homens de negócios que se expressam através de grandes projetos tecnológicos. Eles podem não conseguir algo parecido com o computador de sofisticada compreensão humanística da série. Mas vão abrir caminho numa área onde antes apenas uns poucos tiveram a coragem e a habilidade de trilhar.

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Sergio da Motta e Albuquerque é mestre em Planejamento urbano, consultor e tradutor

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