Quinta-feira, 25 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1034
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Os vinte anos da web

Por Cora Rónai em 07/05/2013 na edição 745

Um dia, Cristina De Luca, que era subeditora do “Info etc”, chegou de um seminário em Los Angeles com uma novidade: o endereço de um sensacional espaço de egiptologia na internet. Anotei e, à noite, tentei chegar lá. Usei as ferramentas que conhecia, como o gopher ou o telnet, mas não fui a parte alguma. Busquei maiores informações, mas não havia nada em lugar nenhum que me desse a menor pista do que deveria usar para acessá-lo. O endereço, que começava com http://www, continuaria a ser um mistério durante os próximos meses – até que, aos poucos, o mundo da tecnologia começou a falar em browsers e numa forma revolucionária de se usar a rede, chamada World Wide Web (ou W3, nome que se perdeu com o passar dos anos). Ela era invenção de um certo Tim Berners-Lee, que trabalhava no CERN (Conseil Européen pour la Recherche Nucléaire), e nasceu da sua frustração com a Babel que havia se instalado entre os computadores da época.

O CERN recebia pesquisadores de todas as partes do mundo, e cada um vinha com um computador diferente, rodando programas proprietários que produziam documentos ilegíveis por outros sistemas. Era de enlouquecer. Berners-Lee resolveu, pois, fazer alguma coisa a respeito. Conversou com a chefia do CERN, que, embora não tenha compreendido muito bem como ele se propunha a unir todas as máquinas, deu-lhe o tempo necessário para estudar o caso. Isso foi em 1989. Em 1990, ele já tinha todas as ferramentas de que o sistema precisava: servidor, páginas (a descrição do projeto) e um browser chamado WorldWideWeb. Em 30 de abril de 1993, a W3 foi, finalmente, apresentada ao mundo. Ela rodava no computador do próprio Tim Berners-Lee, um Next. O resto, como dizem, é história.

Em 31 de julho de 1993 eu já sabia chegar ao site de egiptologia que a Cristina trouxe; mas nunca fui até lá porque, entre anotá-lo e descobrir o Mosaic, tive tempo suficiente para perdê-lo. Lembro da data porque, por algum motivo, guardei na cabeça o fato de fazer 40 anos e de navegar na rede. Vivíamos num mundo muito diferente. Programas não eram baixados, mas vinham em disquetes; por isso demorei tanto a conseguir um browser.

Mudanças radicais

Naqueles tempos, a web era hábitat de engenheiros e de nerds em geral. Sobrava técnica, mas faltava senso estético. Os sites eram medonhos e usavam fontes pavorosas; os webdesigners ainda estavam por nascer. Às vezes, porém, apareciam coisas bonitas. Capturei muitas telas que me pareciam interessantes. De todos os dados que já perdi na vida, os que mais lamento são essas telas primitivas: seria tão divertido ver, hoje, o que me chamava a atenção há 20 anos!

Aliás, a web é curiosamente mal documentada. O primeiro de todos os sites, o que explicava o projeto de Tim Berners-Lee no CERN, só foi reconstruído agora, por ocasião do vigésimo aniversário, a partir de uma cópia feita em 1992; parece que existem cópias anteriores, mas ninguém sabe onde foram parar. Ele está em http://info.cern.ch/hypertext/WWW/TheProject.html. (Nem preciso dizer que, na época, não existiam abreviadores de URL.)

A rede era tão pequena que era possível catalogá-la toda. Várias pessoas aproveitaram a oportunidade e lançaram guias da web, moda que durou até a coisa sair de controle poucos anos depois.

Acho seguro afirmar que nunca o mundo mudou tanto em tão pouco tempo. A internet, como existia antes da web, era rica e divertida, mas estava longe de ser fácil e, consequentemente, popular. Mas não foi apenas a facilidade de uso do sistema inventado por Tim Berners-Lee que popularizou de tal forma a rede; o fato de ele e o CERN a terem oferecido ao mundo grátis e livre de direitos também ajudou muito.

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Cora Rónai é colunista do Globo

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