Segunda-feira, 18 de Março de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1028
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Mercado tech sofre com a falta de inovação

Por André Machado e Sérgio Matsuura em 30/07/2013 na edição 757

Houve um momento nos anos 90 em que a indústria da informática se tornou pouco inovadora – os computadores, embora ficassem mais turbinados, não apresentavam mudança essencial em sua arquitetura, e os softwares apenas faziam atualizações de suas versões. Vinte anos depois, smartphones e tablets se parecem, com funções similares, e, da mesma forma, os fabricantes exibem atualizações, sem que haja uma novidade real a cada lançamento. Não por acaso, embora tenha vendido 31 milhões de smartphones só no segundo trimestre do ano, a Apple viu seu lucro encolher 22% na semana passada, já que as vendas foram turbinadas pela queda nos preços do iPhone 4, lançado em 2010. E a Microsoft perdeu US$ 36 bilhões no mesmo período, o que foi considerado seu pior resultado até agora no século, com o fiasco do seu Surface.

Para Roberto Nogueira, professor e um dos coordenadores do Centro de Estudos em Estratégia e Inovação da Coppead/UFRJ, de fato, o hardware parece estar “commoditizado” – em outras palavras, já não excita a imaginação como outrora.

– Mas isso não significa que não haja outros caminhos para a inovação – avalia Nogueira. – Vejo, por exemplo, o potencial de novas interfaces, como a do Google Glass, e também surgirão novidades a partir da inteligência artificial e da capacidade dos sistemas de identificar padrões – por exemplo, em aplicações de realidade aumentada nos smartphones e tablets.

O especialista vê nos desenvolvedores de conteúdo a direção das futuras inovações, que possibilitarão novas formas de usar a tecnologia. Não por acaso, hoje, no mundo, se somados só os aplicativos presentes na App Store do iOS e na Google Play do Android, encontramos 1,9 milhão de diferentes programas – e o mercado de apps deve movimentar mais de US$ 27 bilhões, segundo a consultoria ABI Research.

O fato de o hardware estar parado no tempo, com pouca evolução, seria também uma consequência das guerras de patentes tão comuns entre os gigantes da tecnologia – especialmente Apple e Samsung, que se digladiam pelo mercado mundial de smartphones. Segundo Carlos Affonso Pereira de Souza, professor da Fundação Getúlio Vargas, especialistas debatem se o conceito de patente, em vez de proteger inovações, na verdade não engessaria seu aperfeiçoamento posterior.

– A patente dá por 20 anos o monopólio de uma ideia a uma empresa, que, então, pode licenciá-la a terceiros – diz Souza. – Mas analistas creem que ela pode atrapalhar novas iniciativas, e gera corridas em direção a uma mesma invenção. No fim, quem detém a patente entra em litígio com outras empresas: no caso do mercado de smartphones, botões e funcionalidades viram alvo da análise de tribunais em diferentes países. E existem empresas que se especializam na compra de patentes justamente para faturar com seu uso por outras.

Uma saída para essa encruzilhada na inovação, diz Souza, seria olhar com mais atenção para como os mercados emergentes lidam com os celulares, como os aparelhos mais simples na China e Índia, mas que (especialmente entre os indianos) vêm com elementos como caixa de som ou projetor embutido, painel solar e até piano touch.

Por outro lado, nem todos os analistas veem uma crise de inovação. O diretor de pesquisas para Dispositivos Móveis e Serviços de Nuvem da Gartner, Van Baker, explica que cada produto tem o seu período de maturação e são próprios da indústria de tecnologia ciclos de lançamentos. O iPod, por exemplo, chegou ao mercado em 2001. Apenas seis anos depois o iPhone foi apresentado. O iPad surgiu em 2010, três anos após o smartphone da Apple.

– A indústria de tecnologia passa por ciclos. Quando o iPhone foi lançado, ele foi revolucionário. Logo apareceram produtos concorrentes e, ao longo dos anos, ele foi melhorando – diz.

O diretor técnico da ConexTI Soluções, Jackson Laskoski, compartilha da mesma opinião. Pouco se viu de inovador nos últimos anos, apenas melhorias de hardware ou funções adicionais, como a câmera de 41 megapixels do Nokia 1020. Esse movimento, diz, é próprio do mercado, das estratégias das empresas líderes, que ainda não precisam de um novo gadget para ganhar (muito) dinheiro. Apesar da queda nos lucros, a Apple faturou US$ 35 bilhões em três meses. A Samsung, por sua vez, teve receita de US$ 51 bilhões.

– Sempre que você inova, você arrisca. As empresas investem em novos produtos quando precisam enfrentar a concorrência ou abocanhar novos mercados, mas tanto a Apple como a Samsung estão ganhando muito dinheiro com o que oferecem hoje – avalia.

O Surface, da Microsoft, é um exemplo de erro de estratégia. Lançado no ano passado para concorrer com o iPad, o desempenho do tablet foi decepcionante e causou perdas de US$ 900 milhões em “ajustes de estoque”.

O ‘wow factor’ do Mac Pro

O último produto com o chamado wow factor lançado pela Apple foi o Mac Pro. Durante a apresentação, em junho, o vice-presidente de Marketing da empresa, Phil Schiller, bradou: “o cacete que não podemos mais inovar”. Contudo, Baker considera pouco. Na opinião do analista, a empresa precisa de mais que atualizações de smartphones, tablets e computadores. O mercado, e os consumidores, esperam por uma nova categoria de produtos.

– É preciso algo a mais que melhorias no iPhone ou no iPad. Se a Apple não entregar uma nova categoria de produtos este ano, as pessoas vão começar a questionar se ela perdeu a habilidade de inovar – afirma.

A Google partiu na frente, com o Google Glass. Segundo rumores provenientes da cadeia produtiva, o próximo gadget da Apple pode ser o iWatch, que deve ser apresentado ainda este ano ou em 2014. A sul-coreana Samsung, diz o analista da Gartner, precisa compreender que a indústria de tecnologia espera mais que melhorias de hardware. Já a Microsoft precisa voltar para a prancheta e repensar estratégias para o Windows 8 e o Surface.

– A Microsoft está sofrendo, ela perdeu o rumo. Agora, terá que repensar seus produtos e tentar capturar a criatividade e inovação que perdeu.

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André Machado e Sérgio Matsuura, do Globo

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