Sábado, 19 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

E-NOTíCIAS > IMPRESSORAS 3D

Fazer, em vez de só consumir

Por Tarso Araújo em 06/08/2013 na edição 758
Reproduzido do suplemento “Eu & Fim de Semana” do Valor Econômico, 2/8/2013; intertítulos do OI

Sua caneca de escritório quebrou e você não tem um copo descartável para o café. Por que não imprimir uma nova? Basta escolher um modelo na internet, baixar o arquivo com o desenho em três dimensões e clicar em print. E não precisa mexer o açúcar sacudindo a caneca. Imprimir uma colherzinha é ainda mais rápido e barato. Pode parecer coisa da família Jetsons, mas já faz alguns anos que criar objetos com uma impressora em casa não tem nada de ficção científica. Na verdade, a tecnologia não apenas já existe como é bastante acessível, a ponto de muita gente estar fazendo isso por pura diversão. Mas a brincadeira é coisa séria: essas impressoras têm sido consideradas o início de uma nova revolução industrial, capaz de mudar para sempre o modo como se criam e se consomem manufaturas. Antes disso, porém, podemos esperar que sejam protagonistas de grandes disputas na Justiça.

Provavelmente, você se lembra de uma outra revolução, que começou com a popularização da música e dos vídeos digitais e do compartilhamento desse conteúdo em sites. O conteúdo se tornou mais acessível para o público, que aproveitou a onda, apesar da ilegalidade. Produzir e distribuir esse tipo de conteúdo também se tornou mais fácil, dando força a artistas independentes. Para a indústria, tudo isso era uma ameaça. Tanto a pirataria quanto os artistas que corriam por fora do mainstream eram uma ameaça a um velho modelo de negócio, baseado na produção e distribuição de conteúdo em bens físicos – na época, os CDs. A indústria apelou para a Justiça, mas logo viu que a única saída era rever seus conceitos. O setor agora se recupera após uma boa dose de inovação – com salas de cinema 3D e Imax, lojas virtuais e serviços de música e vídeo em streaming, sob demanda. É exatamente esse ciclo de crise e reforma que as impressoras 3D podem representar para a indústria de manufaturas – um colosso que fatura trilhões de dólares por ano. A brincadeira é séria mesmo.

Órgãos e vasos sanguíneos

“No modelo fordista, produzimos um milhão de objetos a partir de um molde. Com a impressão 3D podemos produzir objetos sob medida, como óculos para seu próprio rosto ou sapatos para a forma exata de seus pés”, diz Tomás Díez, diretor do Fab Lab de Barcelona, centro de inovação dedicado à pesquisa e ao livre compartilhamento de informações para explorar a nova tecnologia em todos os seus limites. Ou seja, mais do que fazer uma caneca em casa, essa tecnologia permite fazer peças personalizadas, no tamanho ou formato que você precisar, com seu nome ou mesmo seu próprio rosto impresso em relevo. “Estamos mudando da época da produção em série e padronizada para a produção personalizada, para aplicações específicas.” Enquanto a linha de produção concluiu o conjunto de invenções que viabilizou a chamada Segunda Revolução Industrial, a chegada dessas impressoras tem sido considerada o pontapé inicial de uma terceira, em que o valor está mais na singularidade e personalização de cada manufatura do que no ganho de escala.

Apesar de seu enorme potencial de inovação, as impressoras 3D são adaptações de uma velha conhecida: a de jato de tinta. Uma diferença é que o bico de “tinta” se movimenta em três direções em relação ao impresso (na verdade, é o suporte que se move na maioria dos modelos). Além de andar de um lado para o outro, ele sobe, para aplicar sucessivas camadas de tinta, uma sobre a outra. É o que se chama de “manufatura aditiva”, em oposição à técnica tradicional, que consiste em retirar partes de um material bruto até esculpir a forma desejada.

A outra diferença dessas impressoras para as de jato de tinta está na “tinta”, é claro. Em vez de preto, amarelo, ciano e magenta, as impressoras 3D usam uma infinidade de materiais. Os mais populares são tipos de plástico. O ABS, polímero de petróleo, ainda é o mais comum, mas rapidamente perde terreno para o PLA. Feito de milho, matéria-prima renovável, é biodegradável e mais barato, além de não ter cheiro de queimado quando aquecido. Nos dois casos, o “cartucho” da impressora é um carretel de fio de plástico, de aproximadamente 2 mm de diâmetro, que a máquina derrete para injetar conforme a “receita” do arquivo 3D. Ao ser aplicado, ele esfria e se solidifica de volta. As impressoras mais sofisticadas são capazes de usar uma infinidade de outros materiais, incluindo vidro, metal e até tecidos biológicos. Mudando a “tinta”, abre-se um mundo de possibilidades. Hoje, as impressoras 3D são usadas experimentalmente para replicar até órgãos e vasos sanguíneos, usando células vivas como matéria-prima.

Instalação semelhante

Na indústria, essas impressoras já passaram da fase experimental. São usadas em cada vez mais fábricas, na produção de protótipos, de modo muito mais rápido e barato. “A prototipagem era muito cara, feita em institutos especiais de tecnologia. Com essa tecnologia, as empresas podem fazer isso in loco, nas suas próprias dependências”, explica Ana Arroio, gerente de inovação da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan). Muitas vezes, o custo de produção de uma única peça com as tecnologias tradicionais é maior do que o de uma impressora 3D, que pode fazer centenas ou milhares de peças. Para o produto final, a qualidade e o custo da nova técnica geralmente não se aplicam. Para testes, no entanto, a impressão 3D é perfeita. “Por aqui, o uso ainda é incipiente, mas os brasileiros são rápidos na adesão a novas tecnologias”, diz Ana. Ela conta que as indústrias automobilística e aeroespacial foram as primeiras a adotar a novidade no país, mas que em breve a tecnologia vai pegar em outros setores, a exemplo do que já acontece lá fora. No caso de próteses ortopédicas e odontológicas, já se imprime até mesmo o produto final.

O lado mais surpreendente dessa nova revolução industrial, no entanto, deve ser o que acontece longe das fábricas, dentro da casa de gente comum que decide fabricar muito mais do que canecas e colherzinhas. As primeiras impressoras desse tipo, criadas ainda nos anos 1980, eram caras e sua operação exigia muito conhecimento técnico. Na década passada, isso mudou. O preço despencou e os modelos mais baratos já saem por R$ 1.100 nos Estados Unidos e R$ 5.000 no Brasil. E uma variedade de softwares permite que leigos criem e manipulem objetos tridimensionais. O resultado foi um boom no mercado de impressoras 3D para uso pessoal, abrindo portas para uma onda de manufaturas caseiras.

“Qualquer pessoa capaz de operar um PC consegue começar a imprimir logo depois de tirá-la da caixa e instalar os drivers. A operação é basicamente a mesma de uma impressora normal, a não ser pelo fato de haver mais opções de configuração de impressão, como a resolução e o preenchimento do objeto, que pode ser oco ou sólido”, diz Sam Cervantes, CEO da americana Solidoodle, que vendeu 5 mil impressoras 3D de baixo custo no ano passado.

Modelos caseiros

Esses novos manufatureiros compartilham suas criações online em sites como o Thingiverse, espécie de Napster (programa de compartilhamento de arquivos de músicas pela internet) dos arquivos 3D. A maioria dos conteúdos não tem restrições de direitos autorais, o que permite que qualquer um baixe o tal arquivo da caneca, para personalizá-lo (ou não) como quiser e imprimir. O site já tem mais de 90 mil arquivos disponíveis, com a média de 1 milhão de downloads por mês.

“Assim como o surgimento de outras ferramentas no passado permitiu que qualquer um fizesse música e vídeos, hoje qualquer um pode criar objetos em casa”, diz o advogado americano Michael Weinberg, especialista em inovação tecnológica na Public Knowledge, empresa especializada em direito autoral digital. Alexandre Lopes, brasileiro de São Bernardo (SP), é um exemplo. Com uma impressora Solidoodle, imprimiu um conjunto de suporte e braçadeira para fixar seu celular ao guidão da bicicleta nos passeios de fim de semana. Dono de uma pequena empresa de comércio exterior, Lopes não tem nenhum conhecimento de design. “Foi bem fácil. Imprimi também um suporte para minha câmera, miniaturas de Kombi e canecas. A caneca, eu alterei para ficar mais fina e ela acabou vazando.” Acidentes acontecem.

A fatia do mercado dominada por equipamentos de uso pessoal, que custam até US$ 5 mil, ainda é pequena, se comparada com a dos de uso industrial. Mas é a que mais cresce. O faturamento total das impressoras 3D, no mundo, subiu 29% em 2012. O dos modelos caseiros, voltados para o público amador, deu um salto de 46% no mesmo período, segundo o relatório mais recente da consultoria especializada Wohlers Associates. A MakerBot, líder nesse segmento, faturou no primeiro trimestre deste ano 70% de tudo que vendeu em 2012 em vários países. Desde 2009, suas vendas passaram das 22 mil impressoras – mais de 300 para o Brasil.

Direitos autorais

O hobby da manufatura caseira também deve se popularizar por aqui. A gaúcha Cliever, única empresa brasileira que fabrica e vende impressoras 3D prontas para uso, entregou a primeira há um ano. Com cerca de 100 unidades vendidas, planeja aumentar a produção de 10 para 300 unidades por mês. “A principal demanda vem de pequenas e médias empresas, mas há outros mercados cada vez mais interessados, como escolas e profissionais de arquitetura e engenharia”, diz Rodrigo Krug, que fundou e dirige a empresa, enquanto estuda para concluir a graduação em engenharia.

Em seu relatório do ano passado, a Wohlers Associates publicou a previsão de que, se a venda de impressoras de baixo custo continuar crescendo no ritmo atual, o mercado rapidamente se tornará interessante para investidores neste negócio que já faturou U$ 2,2 bilhões em 2012. Para Díez, do Fab Lab de Barcelona, essa popularização será rápida. “Em menos de três anos, teremos impressoras 3D como tínhamos as de papel no fim dos anos 1990, começo dos 2000.” Para que essa revolução atinja todo seu potencial, no entanto, empresas tradicionais de manufaturas e novos fabricantes caseiros vão precisar se entender sobre uma questão que já rendeu brigas épicas à indústria de entretenimento: a dos direitos autorais.

Em dezembro, o designer americano Fernando Sosa dedicou horas e horas de seu tempo livre bolando um suporte para seu iPhone 5. Não era um suporte qualquer, mas um no formato do trono da série Guerra dos Tronos. Ele o expôs em seu blog e o produto fez sucesso imediatamente, com dezenas de comentários positivos de internautas. Sosa então colocou sua criação à venda num site. Quem quisesse, poderia pagar para receber um impresso em 3D para entrega pelo correio – a manufatura caseira em ação. Três meses depois, a rede HBO, detentora dos direitos autorais da série, mandou uma cartinha para o designer. Avisava que o trono tinha dono e solicitava, gentilmente, que o autor desistisse de vendê-lo e retirasse todas as imagens e arquivos relacionados ao produto da internet. O rapaz devolveu o dinheiro a quem já tinha feito sua encomenda. E fim da história.

Lei restritiva

Em outro caso, do ano passado, o designer britânico Thomas Valenty criou novos personagens para o “Warhammer Fantasy”, um roler player game (em que os jogadores assumem papéis de personagens num ambiente ficcional). Ele os imprimiu em sua MakerBot e colocou os arquivos de graça no Thingiverse. A Games Workshop, fabricante do brinquedo, pediu que os arquivos fossem tirados do ar. O autor do design poderia contestar o pedido na Justiça, mas preferiu acatar o pedido. Neste caso, a infração de direitos autorais era um pouco menos objetiva, porque o jogo é inspirado em elfos e duendes do folclore e da mitologia medieval europeia. “É um caso mais complicado, porque o criador dos novos personagens poderia alegar que sua inspiração veio de elementos universais da cultura, diretamente”, diz Weinberg.

É comum empresas da música e do cinema recorrerem aos tribunais para resolver esse tipo de disputa. E os primeiros exemplos mostram que essa deve ser a mesma atitude da poderosa indústria manufatureira, que não deve poupar esforços para proteger o que é seu. “Inicialmente, deve haver repressão, com a mesma estratégia de intimidação usada pela indústria de entretenimento”, acredita Matthew Simon, da Pace School of Law, autor do artigo “When Copyright Can Kill”. Empresas não fazem isso por capricho, mas porque têm o direito de fazê-lo.

Se você pegar um bonequinho do Mickey que comprou na Disney, colocá-lo em um scanner 3D e imprimir alguns clones, já está violando a lei, mesmo que não venda o bonequinho nem distribua o arquivo online. “Você está violando pelo menos três direitos autorais. O da Disney, o da empresa que licenciou o design do boneco para fabricá-lo e vendê-lo, além do direito de marca do Mickey, que é uma marca registrada”, diz Ronaldo Lemos, fundador do Centro de Tecnologia e Sociedade da Escola de Direito da FGV-Rio e especialista em propriedade intelectual. Na verdade, é preciso autorização até para gerar o arquivo 3D. “Especialmente no Brasil, que tem uma das leis de direito autoral mais restritivas do mundo, sem exceção para qualquer tipo de uso não comercial.”

O retrovisor atropelado

Fãs puderam remixar músicas de seus ídolos e até hoje pipocam no YouTube versões com letras e melodias modificadas, quase sempre sem autorização. A cultura do remix também se aplica à cultura da impressão 3D. Mas, então, e se você pegar aquele Mickey Mouse clássico e mudar seus sapatos, o tamanho característico de suas orelhas, vesti-lo com outra roupa e mudar a cor? “Também é uma violação de direito autoral, neste caso de produto derivado”, explica Lemos.

Não é só. Enquanto os direitos autorais protegem objetos originais do ponto de vista artístico, geralmente por até 70 anos após a morte de seu criador, as leis de patentes costumam proteger produtos industriais por até 20 anos após sua criação. Se um engenheiro desenvolve uma máquina, peça ou processo inovador que demonstre alguma utilidade, ele pode requerer uma patente e exigir o pagamento de royalties de quem deseja aproveitar sua invenção.

Isso protege outra gama de produtos que poderiam ser impressos em casa. Imagine que o retrovisor de seu carro é atropelado por um motoqueiro. Você o recupera e vê que apenas uma pequena peça do mecanismo de encaixe se quebrou. Ligando para a loja autorizada da montadora, fica sabendo que ela só vende o retrovisor inteiro, ao preço de algumas centenas de reais. Então, você vai à internet e descobre que outro motorista passou pela mesma situação. Só que, sendo designer, ele tratou de refazer a tal peça e a tornou disponível para download. Por algumas dezenas de centavos, você a imprime em casa ou na loja de cópias da esquina e conserta seu retrovisor.

Indústria mais madura

Se no mercado existem retrovisores “genéricos”, que se encaixam no seu carro, provavelmente a peça não está protegida por uma patente. A mesma coisa que permite a um fabricante chinês fabricar milhões delas e distribui-las pelo mundo permite que você faça a sua em casa, customizada ou não. “Mas, às vezes, uma rosca ou parafuso faz o negócio prender melhor no carro. Pode ser que uma rebimboca dessas seja protegida por patente”, explica Lemos. Se for o caso, a montadora que é dona da patente pode processar todo mundo: quem criou o arquivo 3D, as pessoas que o baixaram e até o site que permitiu o compartilhamento. Exatamente como a indústria de entretenimento fez – e ainda faz – para inibir piratas e consumidores de pirataria.

Quando Lemos aponta cada restrição legal ao uso da impressão 3D, não está querendo estragar a festa. Ao contrário, ele se mostra preocupado com o perigo que o excesso de proteções pode representar para a própria indústria. “A tecnologia de impressão 3D coloca na mão do usuário a oportunidade de aperfeiçoar produtos, o que representa uma força de inovação gigantesca. Se não temos um sistema legal que permita aos usuários experimentar obras e designs alternativos, perde-se uma grande oportunidade”, explica. “Às vezes, o engenheiro não sacou alguma coisa na fábrica, mas o usuário, na prática do dia a dia, percebe que pode fazer algo para melhorar, implementa isso e pode beneficiar toda a sociedade. Então, é preciso criar um sistema de exceções, que permita o uso de objetos 3D legítimos, autorizados por lei.”

Os primeiros movimentos de empresas que se sentem prejudicadas indicam que vai se repetir a estratégia de intimidação adotada pelo setor de entretenimento. Mas Ana Arroio, da Firjan, prefere acreditar que a indústria está mais madura, e aprendeu com o passado recente. “Hoje, grandes conglomerados têm portais de inovação aberta e creio que haveria mais boa-vontade de receber a pessoa que inventou algo e negociar.” O advogado Michael Weinberg também percebe bons sinais, mesmo neste momento inicial de aplicação das impressoras 3D. “Há um mix de reações. No geral, o que temos visto é o de sempre. No caso do trono, a HBO não disse ‘venda isso e nos dê 15%’”, lembra. “Mas também há casos positivos.”

Consumo e produção

A Nokia, por exemplo, disponibilizou arquivos para impressão da capa traseira de um de seus modelos mais modernos. O dono do telefone pode baixá-los, para imprimir a capa e customizar seu aparelho. Uma fábrica de sintetizadores no Reino Unido colocou todas as peças de plástico de seus produtos disponíveis para download em seu site. Continua fazendo reposição por correio, para quem precisar, mas também dá aos seus clientes a opção de imprimir as peças diretamente. “Eles não ganhavam dinheiro com isso, é claro, mas saía caro administrar os pedidos, embrulhar e postar cada peça”, diz Weinberg.

Como isso se aplica no caso do retrovisor? O que a indústria de autopeças pode fazer para não ser prejudicada pela pirataria? “O que essas empresas podem fazer de melhor é construir uma fantástica loja online, muito fácil de usar. E se você tiver uma impressora 3D, vai pagar para baixar e imprimir o retrovisor deles na sua casa”, sugere o advogado.

Qualquer semelhança com a iTunes Store não é mera coincidência. Depois de passar anos em disputas judiciais – e tendo prejuízos com a pirataria –, a indústria de entretenimento só começou a se recuperar quando passou a investir na criação de novas plataformas para distribuir e vender música, licenciada e protegida por direito autoral. Ou seja, em vez de lutar com os piratas, as empresas toparam o desafio de ser melhor do que eles. Hoje, cada vez menos pessoas usam sites como Pirate Bay e Bit Torrent, porque é possível comprar músicas online com um clique, a preços acessíveis, tendo compatibilidade total com seus equipamentos. Se você prefere consumir vídeos em streaming, faz uma assinatura mensal e tem uma série de serviços à disposição, configura legendas e recebe indicações de filmes afins. “Na verdade, eles seguiram esse caminho porque perceberam que era impossível conter a internet. No caso da impressão em 3D, vai ser a mesma coisa. Companhias muito grandes e lentas terão dificuldade para trilhar novos caminhos, mas no fim as mais rápidas e criativas vão nos oferecer um mundo de novas possibilidades”, prevê Matt Simon.

Nos próximos anos, os modos de produzir vão mudar tanto que as questões de direito autoral serão apenas uma pequena parte da história, acreditam especialistas em direito. Imagine que, no lugar de um retrovisor, você imprima uma peça de bicicleta ou a engrenagem de um velho carro fora de linha. Se ela quebrar e isso causar um acidente grave, quem será responsável? Você, o designer da peça, o fabricante da impressora ou o do material usado na impressão? Ou todos? Hoje, não existe nenhuma legislação, no mundo, preparada para lidar com esse tipo de situação, mas coisas assim já podem acontecer a qualquer momento.

Uma questão ainda mais crítica é a das pistolas que podem ser feitas com impressoras 3D. Em maio, a Defense Distributed, empresa americana que defende a universalização do uso de armas de fogo para defesa pessoal, criou a primeira pistola funcional totalmente impressa. No mesmo mês, foi obrigada pelo Departamento de Defesa a retirar todos os arquivos para impressão da arma da internet. Simultaneamente, um deputado propôs uma lei para proibir a impressão de armas com impressoras 3D. Quando essas medidas foram tomadas, os arquivos da pistola já haviam sido baixados mais de cem mil vezes. Como muitos dos provedores que os abrigam estão fora dos Estados Unidos, os arquivos provavelmente continuarão disponíveis para sempre, em algum lugar da internet.

“Estamos, sem dúvida, numa transição entre a sociedade de consumo para uma de produção. Voltar a ter o poder de produzir coisas vai mudar mentalidades e atitudes”, diz Tomás Díez, do Fab Lab de Barcelona. “E a indústria deverá se renovar, para entrar num novo ecossistema, no qual não é mais o agente principal, e sim uma parte de muitos outros meios de produção.”

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Tarso Araújo, para o Valor Econômico

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