Terça-feira, 17 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

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Uma Microsoft decadente

Por Pedro Doria em 03/09/2013 na edição 762
Reproduzido de O Globo, 27/8/2013; intertítulo do OI

A saída de Steve Ballmer da presidência da Microsoft significa o fim de uma era. Não é só na empresa. Ballmer é o último da geração de homens que criaram a indústria dos microcomputadores, na década de 1970, ainda em posição de liderança. Quando o CEO da Microsoft se aposentar, daqui a doze meses, só restará no comando das principais empresas de tecnologia a trupe que veio com a internet. E é justamente porque não conseguiu deixar o mundo do PC em direção ao tempo da nuvem que Ballmer deixará o cargo.

Ballmer era colega de Bill Gates em Harvard. Moraram juntos no mesmo andar no dormitório estudantil. Seguiu para uma carreira de executivo, matriculando-se num mestrado em Stanford, quando Gates largou a faculdade para fundar sua empresa. Foi contratado por Bill em 1980. O empregado de número 30 da Microsoft, primeiríssimo que não escrevia código. Era gerente. O primeiro executivo. E, nessa condição, assistiu ao primeiro ato da épica briga entre Gates e Steve Jobs, da Apple.

Naqueles primeiros anos, Jobs apostava que a máquina perfeita abriria o caminho para a popularização dos computadores pessoais. Gates acreditava que o computador, a máquina, era um detalhe. Que o software seria o elo de ligação neste universo. Quando, atrasada e vendo o sucesso inicial da jovem indústria, a poderosa IBM lançou seu PC, a Microsoft embarcou junto com o sistema operacional MS-DOS. Para ganhar mercado para seu padrão, a IBM permitiu que inúmeros fabricantes copiassem seu micro enquanto o Apple II permanecia fechado. O que todos menos a Apple tinham em comum era o sistema de Bill Gates. A máquina virou commodity, o DOS fez fortuna. Com o Windows 95 e o surgimento da internet, a Microsoft se tornou sinônimo de tecnologia.

Computadores cada vez menos relevantes

Hoje, a empresa é um detalhe de pouca relevância na indústria. Rica, por certo. Inovação não vem dali. Steve Ballmer se tornou número dois em 1998 e, com a aposentadoria de Gates em 2001, CEO. A Microsoft que assumiu ainda era símbolo de sofisticação. Muito mudou desde então. Mudou por causa de Apple, Google e Facebook. Nesta ordem. No segundo ato da disputa entre Gates e Jobs, a máquina se tornou importante. O iPod, depois o iPhone, então o iPad. Contaram a qualidade do acabamento, a relação fina e bem acabada entre software e hardware e, principalmente, a fuga do ambiente do computador.

Se a Apple mostrou como aparelhos móveis podem se comunicar com a internet, o Google provou que o computador de mesa não precisa armazenar nada. Tanto o trabalho que fazemos, quanto as mensagens que trocamos e até mesmo a informação que buscamos pode estar na nuvem. Repentinamente, não é mais tão necessário ter um computador em casa. O smartphone e o tablet resolvem para a maioria das pessoas. Com as redes sociais, a ligação de todos nós ao mundo vivo e interativo da rede só se consolidou. A internet ficou definitivamente descolada do PC.

Quando Steve Ballmer assumiu a Microsoft, a empresa vivia principalmente da venda de Windows e Office. Doze anos depois, Windows e Office permanecem os produtos mais lucrativos. Só que, num mundo em que computadores são cada vez menos necessários e as pessoas se habituam a editar arquivos em grupo e compartilhá-los, são produtos cada vez menos relevantes.

Após lançar o padrão do PC mas perder o domínio da indústria, a IBM se reinventou. Demorou muito. Mas se transformou numa empresa capaz de oferecer soluções sofisticadas para problemas complexos de que poucos precisam, mas que custam muito, muito dinheiro. Faz tecnologia de ponta, embora não para o consumidor comum. Este não é necessariamente o caminho para a Microsoft. Mas uma reinvenção é possível.

O sucessor de Ballmer precisará apontar a empresa numa direção nova na qual ela tenha condições de se reinventar como entidade inovadora. Para isso, precisará perder o apego que tem ao grande sucesso do passado, o Windows. De trivial, não tem nada. É o dilema do inovador.

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Pedro Doria é colunista do Globo

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