Sexta-feira, 20 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

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Reflexões sobre um negócio bilionário

Por Gustavo Gindre em 10/09/2013 na edição 763
Reproduzido do blog do autor, 4/9/2013; título original: “Reflexões sobre a compra da Nokia pela Microsoft”

A gigante Microsoft anunciou a compra da divisão de telefonia celular da Nokia por € 3,79 bilhões e mais € 1,65 bilhão pelo licenciamento de patentes que pertencem à empresa finlandesa. O acordo envolve, também, a compra da marca Asha e o licenciamento da marca Nokia para uso em celulares e smartphones.

Se alguém tinha alguma dúvida, agora ficou evidente que a grande disputa no mercado de mobilidade (onde a voz tenderá a ser cada vez mais apenas um dos serviços possíveis) ocorrerá entre os sistemas operacionais e suas respectivas lojas de aplicativos.

Desde o surgimento dos smartphones (ou seja, da chegada da internet aos aparelhos portáteis), a Apple é um atores centrais desse mercado, vendendo um conjunto fechado de hardware e software, que só estão disponíveis em seus próprios aparelhos. A empresa agora se prepara para viver seu maior desafio ao lançar um smartphone mais barato, que tentará ganhar espaço nos países mais pobres, ao mesmo tempo em que não pretende deixar de ser um objeto de desejo entre os mais ricos.

Se reina absoluta entre os tablets, a Apple vem perdendo mercado nos smartphones. No segundo trimestre de 2013, 80% dos aparelhos vendidos no planeta possuíam o sistema operacional Android, enquanto a Apple ficava em um distante segundo lugar, com 13,2% do market share. O Google, aliás, é a empresa que tenta o jogo mais arriscado. Ao mesmo tempo em que comprou a divisão de celulares da Motorola (antecipando o lance da rival, Microsoft), o Google tenta manter seu sistema operacional sendo usado por todas as demais fabricantes de celulares. Assim, o Google é parceiro e também concorrente de marcas como Samsung, LG, Sony e Huawei.

Microsoft

Para a Samsung a situação é simultaneamente prazerosa e incômoda. A empresa sul-coreana jamais conseguiu fazer deslanchar seu próprio sistema operacional, o Bada. E foi graças ao sistema operacional do Google (Android) que a Samsung se tornou a maior vendedora mundial de smartphones. Parceira prioritária e ao mesmo tempo dependente do Google, não deve ser fácil saber que a empresa norte-americana é dona de sua rival, Motorola.

A Microsoft é totalmente dependente do seu sistema operacional Windows e da suíte de escritório Office. A empresa demorou a entrar no mercado de celulares e patina com somente 3,7% dos smartphones vendidos no segundo trimestre deste ano. A única solução possível era mesmo comprar um grande fabricante e entrar no jogo de verdade. A Microsoft sabe que o mercado de computadores pessoais é declinante e que o futuro pertence à mobilidade. Se ficar de fora do mercado de tablets e celulares a empresa corre o risco de em pouco tempo deixar de ser uma das referências desse mercado.

Mas, a compra da divisão de celulares da Nokia deixa algumas dúvidas no ar. A Microsft licenciava seu sistema operacional para outras empresas, como a HTC. A partir de agora ela seguirá o caminho do Google, mantendo a Nokia, mas continuando a licenciar seu software para outras empresas, ou o caminho da Apple, fazendo da Nokia a única a rodar o Windows Phone? A Microsoft licenciou a marca Nokia. A tendência é os aparelhos continuarem saindo com a marca finlandesa ou a partir de agora teremos celulares Microsoft no mercado? E a marca Asha, para aparelhos mais baratos que visam países mais pobres, será mantida?

Geopolítica

Stephen Elop era o responsável pelo Office, na Microsoft, quando foi contratado para ser o presidente da Nokia, em setembro de 2010. Sua primeira decisão foi eliminar o sistema operacional Symbian, desenvolvido pela empresa finlandesa, e atrelá-la ao Windows Phone. O argumento era que a gigante finlandesa não poderia ser simplesmente mais uma a usar o Android e que ela precisaria de um diferencial. Mas, o Windows Phone não foi o sucesso esperado e a Nokia perdeu ainda mais valor de mercado. Exatamente três anos depois, Elop pilotou a venda da Nokia para a Microsoft por uma quantia pequena para esse mercado e passou a ser o principal candidato a presidente da própria Microsoft, quando Steve Balmer se aposentar em 2014. Estranho…

O mercado de smartphones tende a se concentrar cada vez mais. Mas, essa concentração revela, também, uma nova geopolítica da Internet móvel. A Finlândia acaba de perder sua grande aposta nesse mercado. Anteriormente, a sueca Ericsson também desistiu de apostar em smartphones e tablets. A pioneira canadense Blackberry a cada dia que passa vê suas opções diminuírem e até seus diretores já comentam a hipótese dela se tornar apenas uma fornecedora de softwares, como o seu famoso sistema de envio de e-mails seguros. Com isso, o mercado de mobilidade caminha para ser dominado por empresas norte-americanas (Google-Motorola e Microsoft-Nokia) e sul-coreanas (Samsung e LG) e chinesas (Huawei, Lenovo e ZTE). Correndo por fora estão o Japão (onde a Sony é uma das poucas a ter presença significativa fora de seu mercado doméstico) e Taiwan (com as declinantes HTC, Asus e Acer).

Ou seja, aqui também, como em vários outros setores da economia, o jogo parece ser disputado apenas entre norte-americanos e o sudeste asiático. A Europa não possui mais peças nesse tabuleiro e América Latina, África e o restante da Ásia jamais o tiveram. Nesse jogo, resta-nos consumir e exportar dividendos…

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A supertele brasileira é mexicana

Gustavo Gindre # reproduzido do blog do autor, 5/9/2013

Quando o governo de Fernando Henrique Cardoso tomou a decisão de privatizar o Sistema Telebrás, um grupo de representantes dos trabalhadores em telecomunicações enviou ao governo uma proposta de como fazer essa privatização. Em primeiro lugar, seriam extintas as “teles” estaduais (como Telerj, Telesp, etc), que estavam aparelhados por grupos políticos regionais. As tais empresas estaduais seriam reunidas numa única empresa nacional e somente então seu capital seria vendido, com a condição de que seus controladores fossem empresários brasileiros. E a União manteria uma golden share que lhe permitiria intervir na empresa caso houvesse, por exemplo, risco de alienação do controle para grupos estrangeiros. Depois disso, o mercado seria aberto para a entrada de operadoras estrangeiras que, contudo, teriam que se confrontar com um forte “campeão nacional”.

Em linhas gerais, foi esse o percurso adotado pela Europa e o México. Mas, o governo FHC optou por trilhar um caminho radicalmente diferente, fracionando o Sistema Telebrás e vendendo as partes para consórcios em geral liderados por empresas estrangeiras. Com isso, as telecomunicações brasileiras hoje são dominadas por empresas espanhola (Vivo/Telefônica), mexicana (Embratel/Claro/NET), italiana (TIM), francesa (GVT) e norte-americanas (Sky e Nextel).

Oi

A Oi é fruto da compra da Brasil Telecom pela Telemar e opera em 26 estados (exceto São Paulo). Para que a compra pudesse ocorrer, o governo Lula teve que alterar o Plano Geral de Outorgas (PGO) que não permitia o surgimento de uma empresa tão grande. A justificativa implícita era retomar, ao menos em parte, aquela proposta de termos um “campeão nacional” que pudesse enfrentar as empresas estrangeiras citadas acima. Contudo, o resultado parece ter sido bem diferente. BNDES e Previ diminuíram suas participações na Oi, permitindo que a Portugal Telecom (um sócio estrangeiro, portanto) se tornasse a maior acionista da empresa, com cerca de 27% de seu capital.

Tampouco a Oi ousou se internacionalizar, como o governo alegou na época. Ao contrário, a empresa vendeu seu único ativo fora do Brasil: uma rede de cerca de 22 mil km de cabos submarinos que ligam o Brasil aos Estados Unidos. Mas, o pior mesmo é que a empresa se endividou (cerca de R$ 33 bilhões) e seu valor de mercado (R$ 8 bilhões) é uma fração da Vivo/Telefônica (R$ 52 bilhões) e da TIM (R$ 20 bilhões), as outras duas empresas de telecomunicações que também vendem ações em bolsa. Para piorar, a Oi tem uma infra-estrutura extensa e ultrapassada, que requer fortíssimos investimentos.

America Movil

Enquanto o Brasil optou por fracionar e vender para o capital estrangeiro a Telebrás, o México fez o caminho inverso, mantendo unificada e vendendo a Telmex para um empresário mexicano (Carlos Slim Helu). Atualmente a empresa opera telefonia fixa, celular, banda larga e TV paga em todos os países hispânicos da América Latina e Caribe (exceto Venezuela, Bolívia e Cuba) e no Brasil (Embratel/Claro/NET), além de ser dona de uma “operadora virtual” de telefonia celular nos Estados Unidos.

Na prática, a empresa divide o controle das telecomunicações latino-americanas com a Telefonica de España (que atua com as marcas Vivo, no Brasil, e Movistar, nos demais países). Aproveitando-se da crise européia, a América Movil comprou 22% da Austria Telekom e se prepara para assumir 100% da holandesa KPN. Ao final da transação na Holanda, a America Movil deve herdar cerca de 17% da maior operadora de celular da Alemanha, curiosamente controlada por sua rival Telefonica de España.

Fracasso

Depois de oito anos de governos tucanos e mais dez de governos petistas, as telecomunicações brasileiras são um fracasso total. Os serviços são de qualidade duvidosa, caros e não estão disponíveis para todos os brasileiros. Além disso, o setor é controlado por empresas estrangeiras. Em geral, essas empresas são de países que atravessam dificuldades financeiras (Portugal, Espanha e Itália) ou elas próprias precisam vender ativos para reduzir dívidas e/ou terem recursos para investir (casos da GVT e Nextel). Há, portanto, uma enorme pressão para que elas minimizem investimentos e maximizem o envio de dividendos para seus controladores estrangeiros.

Como se não bastasse, o projeto de criar uma “super-tele” brasileira revelou-se um retumbante fracasso. A Oi não consegue investir o que deveria, vende ativos, se endivida e perde valor de mercado. Nesse processo, a “super-tele” brasileira (sic) é mexicana, já que Carlos Slim Helu controla, em terras tupiniquins, a Embratel, a Claro, a NET e a operadora de satélites Star One. E conseguiu explorar não apenas o mercado latino-americano como começa a estender seus tentáculos para o “velho mundo”.

E ninguém, absolutamente ninguém, é responsabilizado por esses 18 anos de fracasso. Sem contar que não parece haver a menor vontade do governo em patrocinar uma correção de rumos.

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Gustavo Gindre é jornalista e integrante do Coletivo Intervozes; foi membro eleito do Comitê Gestor da Internet (CGI.br) por dois mandatos

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