Sábado, 21 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

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Cara normal

Por Márion Strecker em 17/09/2013 na edição 764
Reproduzido da Folha de S.Paulo, 16/9/2013; intertítulo do OI

O lado B do povo antenado é gostar de humilhar os normais, que não “evoluíram” a ponto de criar tais antenas na cabeça. Estou ironizando porque fico irritada. Em defesa das pessoas normais, digo que, se um aparelho eletrônico não é tão fácil de usar quanto uma geladeira, o problema está no aparelho.

Quem nunca se sentiu por baixo porque teve dificuldade de lidar com um equipamento? Quem nunca se sentiu refém ao pedir ajuda para consertar uma configuração? Vão dizer que os mais jovens têm menos dificuldades. Claro! Inclusive porque os mais jovens têm menos medo de errar, já que não são eles que normalmente pagam por aparelhos quebrados. Um bebê pode esmurrar um eletrônico até fazê-lo funcionar.

Já estou preparada para a reação dos espertinhos. Convivo com eles há tempo suficiente para saber como mistificam pequenos saberes. Posam de modernos, avançados, mas agem como tiranetes. O lado B da indústria da tecnologia é forçar o público a perder tempo, engolir custos e servir interesses alheios.

Imersa nesse pensamento, recebo mensagem pelo Facebook: “Ouça com as mãos, veja com o celular. Som na caixa: Novo clipe interativo do Arcade Fire. ARRASADOR!!!!”

Gosto deles, então cliquei. Fui levada a uma página que pediu um código que eu não tinha. Li com atenção. A página informava aos sem-código como obter um: acessar o endereço pelo computador.

Então iPad não é computador? OK. Tudo pelo Arcade Fire. Fui ao escritório e liguei o micro. Então a página carregou diferente e veio a mensagem fatal, em inglês: “Esta experiência não é apoiada pelo seu navegador. Por favor, tente de novo usando o Google Chrome”.

Preço que se paga

Pronto. Conheço esses truques há quase 20 anos. Chrome é o software que o Google desenvolveu para concorrer com navegadores de outras empresas. Já usei razoavelmente o Chrome. Acho até que ele serviu para que os demais fabricantes melhorassem seus produtos. Mas daí a querer baixar mais um software e entupir meus equipamentos. Hello, Google. Não poderia ter feito propaganda sem obrigar as pessoas a baixar o Chrome? Vocês acham que de graça (videoclipe) vale até ônibus errado (software que não quero)?

Estamos num mundo em que a propaganda não pode ser claramente propaganda. Tem de vir disfarçada de “conteúdo”. Quanto mais disfarçada, melhor. Como aqueles três caracteres (#ad) que algumas pessoas estão usando no Twitter. Eles não se importam que boa parte do público não saiba que “ad” é abreviatura de anúncio publicitário, só que em inglês. Que a propaganda venha disfarçada de “conteúdo” é melhor para quem, mesmo? Para quem ganha com ela, claro.

Muitos profissionais de informática, internet e marketing vão se irritar com estes comentários e me chamar de ingênua, se não partirem para reações mais agressivas. Paciência. Estamos quites. Também estou irritada com os comentários deles, de que “não custa nada” baixar um monte de coisas, que o Chrome é muito melhor que os concorrentes, que o preço da evolução é “esse mesmo”, que o Google nos proporciona música “de graça”.

O problema é que o mundo da tecnologia fica cada vez mais complicado porque muita, muita gente mesmo ganha com essa complicação dos infernos.

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Marion Strecker é colunista da Folha de S.Paulo

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