Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

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Google busca fim da barreira da língua

Por Thomas Schulz em 17/09/2013 na edição 764
Reproduzido do Estado de S.Paulo, 14/9/2013, tradução de Celso Paciornik

Quando escritores de ficção científica vislumbram o futuro da humanidade, algumas ideias para melhorar o mundo pipocam repetidamente. Elas incluem energia gratuita e ilimitada e espaçonaves que viajam à velocidade da luz. E incluem também a criação de computadores miniaturizados que servem como tradutores universais, eliminando todas as barreiras de língua.

O último destes sonhos, pelo menos, é algo que o Google pretende tornar realidade. A pessoa encarregada do projeto é um cientista da computação de um vilarejo perto de Erlangen, no sudoeste da Alemanha.

Franz Joseph Och, 41 anos, há muito tem se concentrado em um único objetivo: construir um computador de tradução perfeito, uma máquina que seja tão discreta e rápida “que você mal a percebe, exceto como um sussurro em seu ouvido”, um dispositivo capaz de dizer prontamente qualquer texto, o conteúdo de um site ou uma conversa, em qualquer outra língua.

Para Och, o que poderia equivaler a uma viagem sem problemas para turistas e um futuro sinistro para muitos intérpretes é, na verdade, muito mais: um caminho para a inteligência artificial. Quando adolescente, ele sonhava com máquinas capazes de simular atributos exclusivamente humanos.

Och estudou ciência da computação e fez sua tese de doutorado sobre inteligência artificial. A agência de pesquisa do Departamento de Defesa dos EUA (Darpa, na sigla em inglês), o levou para a Califórnia. Em 2004, Och recebeu um telefonema do cofundador do Google, Larry Page, que perguntou: “Quer mudar de escala?” Och ganhou seu próprio departamento na empresa, o Google Translate.

Apesar do departamento ter produzido pouco até agora, provavelmente ninguém tem ambições maiores que Och e sua equipe: eles querem finalmente dar um fim à mistura de línguas babilônicas da humanidade. Eles já fizeram progressos substanciais.

O Google Translate hoje consegue traduzir textos de 71 línguas. Quando um artigo da Der Spiegel é incluído no programa, por exemplo, o usuário pode obter uma tradução para o francês numa fração de segundo. Um cartaz misterioso numa estação ferroviária japonesa só precisa ser fotografado com um smartphone; o aplicativo Translate automaticamente reconhece o texto na imagem e o traduz.

O serviço do Google foi usado cerca de 200 milhões de vezes no ano passado. E, até agora, tem sido gratuito. Mas empresas multinacionais, em particular, agregariam um grande valor a um serviço de tradução automática; o Google poderia quase certamente cobrar uma quantia substancial de dinheiro pela ferramenta no futuro.

Por enquanto, porém, o objetivo da empresa é aperfeiçoar o serviço, e seu caminho passa pelo smartphone. A equipe do Translate desenvolveu um aplicativo que transforma smartphones em máquinas de tradução falantes, com a capacidade de lidar com cerca de duas dúzias de línguas, por enquanto.

O aplicativo funciona muito bem, desde que as frases sejam simples. Por exemplo, um alemão que queira dizer a um motorista de táxi em Pequim que precisa chegar urgentemente em uma farmácia só precisa falar em seu smartphone e o aparelho prontamente repete a frase em chinês, corretamente, mas com voz um tanto fina: “Qing dai wo qu yijia yaodian”.

Och sente que o aplicativo ainda está “um pouco lento e desajeitado, porque é preciso apertar botões”. A qualidade da tradução também é inconsistente. Mas há alguns anos as pessoas diriam que ele era um louco por ter previsto isto que o Translate pode fazer hoje.

Automático

A IBM lançou as bases da tradução automática há décadas, mas o projeto não progrediu e foi abandonado. Por esta razão, os primeiros anos no Google foram “um projeto de pesquisa pura”.

A equipe do Translate, acomodada na sede do campus principal do Google no Vale do Silício, cresceu consideravelmente. Ela inclui vários cientistas da computação alemães, mas nem um único linguista.

Desenvolver dicionários, definir estruturas gramaticais e todas as regras que são normalmente alimentadas em programas de tradução para imitar tradutores humanos não desempenham papel importante para a equipe do Google. Aliás, as regras com frequência acabam sendo inflexíveis e excessivas para o computador lidar.

Em inglês e alemão, por exemplo, os adjetivos precedem os substantivos, enquanto em francês ocorre geralmente o contrário. Por conseguinte, um programa de tradução se transforma rapidamente em “perdido em tradução”.

O Google, por sua vez, enfatiza o que sabe melhor: a pura massa de dados e estatísticas. “De modo que o que o sistema está basicamente fazendo (é) correlacionar traduções existentes e aprender mais ou menos por conta própria como fazer isso com bilhões e bilhões de palavras de texto”, diz Och. “No fim, computamos probabilidades de tradução.” E quanto maior a massa de dados existentes, melhor funciona o sistema.

É por isso que o computador de tradução só se tornou possível com a internet. A rede mundial oferece uma enorme riqueza de traduções existentes.

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Tradução é mecânica, mas acessível

O Google Translate com frequência funciona bem, mas ainda está longe da perfeição. Sintaxe, entonação e ambiguidade continuam sendo problemas importantes para programas de tradução automática. As traduções que eles produzem são, em geral, compreensíveis, mas são um pesadelo para linguistas.

Mas o que exatamente o Google pretende fazer com o serviço Translate? Será que a companhia quer conseguir um monopólio da comunicação humana e a supremacia sobre a interação global?

O cientista da computação responsável pelo projeto, Franz Joseph Och, se mostra vago, dizendo que o lado comercial das coisas não é seu departamento. Mas está disposto a dizer o seguinte: “A tradução mecânica torna muitas informações acessíveis a muitas pessoas, e isso torna muitas coisas possíveis”. O benefício indireto, explica, é o que importa.

O Google adotou abordagem semelhante com seus outros produtos. Seu mecanismo de busca e serviço de e-mail são gratuitos, por enquanto. Mas eles também proporcionam centenas de milhões de usuários e seus dados ao Google.

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Thomas Schulz , do Der Spiegel

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