Sábado, 23 de Fevereiro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1025
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Twittereuforia e a ‘nova bolha’

Por Vinicius Torres Freire em 19/11/2013 na edição 773

“O Twitter parece estar prestes a se tornar tanto um símbolo como um catalisador de uma nova mania de investimento em [empresas] de tecnologia”, escrevia-se na sexta-feira passada (8/11) no jornal britânico Financial Times. “Manias de investimento” não raro se transformam em pânicos e crashes, quedas espetaculares de preços. Sabe-se lá se é o caso, ou se “desta vez é diferente”. No entanto, o sucesso do Twitter tem sido acompanhado de menções cada vez mais frequentes à palavra “bolha”.

A empresa lançou suas ações na Bolsa na semana passada, com sucesso espetacular ou espetaculoso, a depender da circunspecção e do gosto do freguês. A Twitereuforia parece ter apagado as más lembranças da abertura do capital do Facebook, em maio do ano passado. Empresas “de tecnologia” populares entre o público que gosta de publicar suas fofocas e fotos, mas que não têm receita decente ou receita alguma, preparam-se para abrir o capital ainda neste ano. As empresas que abrem seu capital, fazem uma oferta inicial de ações na Bolsa, não levantavam tanto dinheiro nos Estados Unidos desde o ano 2000, na véspera do estouro da bolha “pontocom”.

O fim dessa bolha, além da revelação de grandes bandalheiras contábeis de grandes empresas americanas, acabou por provocar desastres financeiros e uma recessão. Para piorar a situação, houve o pânico causado pelo 11 de setembro de 2001. As taxas de juros caíram, ficaram baixas por um bom tempo e, já em 2002, começava um zum-zum intenso sobre o risco de uma nova bolha, a imobiliária, ainda mais inflada pelo dinheiro barato. Sim, já em 2002.

Quando fazem pop

No que diz respeito à farra do lançamento de ações, 2013 ainda está longe de 2000. De resto, a Twittereuforia é apenas parte do rumor a respeito de bolhas. Mas gente graúda começa a falar do assunto. O presidente e diretor do maior administrador de fundos dos EUA, Laurence Fink, do BlackRock, tem mencionado a palavra maldita. Recentemente, disse que o Fed, o banco central dos EUA, não pode continuar a despejar dinheiro na economia, pois criaria uma bolha.

Hum. Pode ser. Mas o Fed despeja dinheiro faz cinco anos, uns US$ 4 trilhões, comprando títulos de dívida privada e pública (o que eleva seus preços e, pois, baixa os juros). Já não teria criado uma bolha? Os preços de ações e dos títulos da dívida pública americana não estariam altos demais faz algum tempo? Quando o Fed apertar a torneira de dinheiro, os preços vão cair comportadamente? Na falta de liquidez, na maré baixa, a gente vai ver gente nadando nua?

Essa seria a grande bolha, não os piados do Twitter, uma piada. Falar de bolha é fácil. Mas nem toda inflação de preços de ativos, financeiros ou quaisquer outros, é uma bolha. É necessário muito conhecimento teórico de economia e finanças, muito discernimento e informação prática a respeito de minúcias de mercados imensos e complicados, além de longa mastigação e ruminação de toneladas de dados, para que se possa dizer algo a respeito de bolhas, um algo que nem sempre é conclusivo. Bolhas apenas ousam dizer seu nome completo quando fazem pop, começam a explodir. O programa só acaba quando termina. Mas termina.

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Vinicius Torres Freire é colunista da Folha de S.Paulo

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