Segunda-feira, 14 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1058
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A coleta de informações e seu paradoxo

Por Somini Sengupta em 03/12/2013 na edição 775

A confiança dos consumidores é uma moeda vital para toda grande empresa na internet, fato que ajuda a explicar por que os gigantes do Vale do Silício se dão ao trabalho de mostrar que estão resistindo bravamente ao monitoramento por parte do governo. As empresas já lançaram comunicados cáusticos sobre o assunto e estão divulgando relatórios que enumeram quantas vezes órgãos policiais pediram dados sobre usuários. Várias delas, como Facebook e Google, moveram ações na Justiça para poder revelar mais sobre ordens governamentais secretas.

Ao mesmo tempo, porém, está ficando mais e mais difícil ocultar uma contradição central. O setor da internet acumulou um tesouro de dados pessoais para agências governamentais garimparem. Nas palavras do economista comportamental Alessandro Acquisti, ela construiu “a estrutura concreta da espionagem eletrônica”. Cinco meses depois de o ex-técnico da Agência de Segurança Nacional (NSA) Edward J. Snowden ter levado a público documentos que detalham a espionagem feita pela agência, o setor da internet apenas aguçou seus esforços para rastrear usuários, algo que vê como essencial para sua rentabilidade. A publicidade seletiva, baseada no comportamento dos internautas, é a principal fonte de renda de uma multidão de empresas online.

O Google anunciou recentemente planos para usar nomes, fotos e posts de usuários para promover produtos em anúncios na web. O Facebook ampliou suas buscas e fez com que fique mais difícil o usuário se esconder de desconhecidos. Redes de publicidade digital estão desenvolvendo maneiras novas e sofisticadas de rastrear consumidores. O Twitter formou uma parceria com uma empresa que monitora se anúncios no microblog afetam o que as pessoas compram off-line.

“Não espionamos americanos”

É claro que existe uma diferença entre monitoramento governamental e rastreamento comercial. Executivos do setor dizem que a distinção fundamental é que as empresas que atuam na web não têm o poder de processar ninguém, como podem fazer os órgãos policiais. Em vez disso, disse o capitalista de investimentos Michael Moritz, o setor está tentando descobrir os gostos e as preferências dos usuários. “Se você for ao cerne dessas companhias, verá pessoas que procuram garantir que seus produtos e serviços tenham a maior utilidade possível para os consumidores”, disse.

Espere aí, retrucam os críticos. A coleta de dados para fins comerciais encerra seus próprios perigos. Posts feitos no Twitter ou no Facebook podem afetar o ingresso em faculdades ou as perspectivas de emprego das pessoas. A própria coleta de dados cria um imenso banco de informações que pode ser garimpado pelos órgãos de inteligência.

Desde que começaram os vazamentos de informações sobre a NSA, várias companhias divulgaram relatórios revelando a frequência com que governos do mundo afora buscam dados sobre usuários. Os próprios números são reveladores: o Facebook recebeu pedidos ligados a mais de 20 mil contas no primeiro semestre de 2013, a Microsoft a mais de 31 mil contas e o Yahoo! a mais de 40 mil contas. Facebook, Google, LinkedIn, Microsoft e Yahoo! moveram ações num tribunal secreto dos EUA pedindo permissão para revelar os pedidos de dados pelas leis de segurança nacional. As empresas querem mostrar que os pedidos afetam uma parcela relativamente pequena de seus usuários.

“A resposta do governo foi: ‘Não se preocupem, não estamos espionando americanos’”, disse Mark Zuckerberg, presidente do Facebook e crítico do programa da NSA. “Maravilha, isso é realmente útil para empresas que querem servir a pessoas em todo o mundo. Isso vai realmente inspirar confiança nas empresas americanas que atuam na internet.”

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Somini Sengupta, doNew York Times

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