Sexta-feira, 13 de Dezembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1067
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O novo ovo da serpente

Por José Carlos Aragão em 07/01/2014 na edição 780

Depois de se revelarem o paraíso dos selfies, narcisistas, exibicionistas e voyeurs, as redes sociais estão virando também, às vésperas de mais um ano eleitoral, palanque para todo tipo de crítico ou defensor do partido A ou B. Inicialmente saudadas como plataforma universal e suprassumo da liberdade de opinião, as redes sociais estão se tornando uma preocupante torrente de inverdades, acusações irresponsáveis e inconsequentes e incontáveis baboseiras.

Antes que me acusem de ser contra as redes sociais, é bom que se diga que a vida inteira defendi a plena liberdade de opinião e de expressão e sempre me posicionei contra qualquer tipo de censura ou autoritarismo. Sempre defendi o livre arbítrio, fosse para ir à rua protestar contra o governo, fosse para mudar de canal porque discorda da postura política ou ideológica dos donos de uma emissora de TV. Mas o que está sendo gestado nas redes sociais é, deveras, para se botar as barbas de molho.

Enquanto, em Brasília, alguns parlamentares se mobilizam para tentar aprovar absurdas regulamentações de uso das redes sociais – em que qualquer comentário ou opinião nelas publicada, contrária ou crítica da atuação política de nossos governantes e congressistas, pode ser passível de uma ação judicial contra seu autor – o que fazem os usuários dessas redes? Usam e abusam de acusações levianas contra políticos de partidos A ou B; replicam informações de fontes fantasmas, anônimas, parciais ou notoriamente inconfiáveis; divulgam dados infundados e pesquisas sem o mínimo critério científico que possam sustentar qualquer argumento ou denúncia. Ou seja: agindo assim, de maneira irresponsável, inconsequente e até ingênua, muitos internautas só dão argumentos para esses políticos da banda podre que, por não aceitarem a crítica, sempre preferem calá-la.

Satanização da mídia

O que impressiona sobremaneira é que muitas pessoas esclarecidas e informadas também estão caindo nessa esparrela, sem se darem ao trabalho prévio de comprovar a fonte de uma informação antes de retuitá-la, ou de curti-la e compartilhá-la no Facebook. Estão chocando o ovo da serpente, alimentando a fera que as irá devorar em breve.

Ninguém tem dúvida de que a corrupção é uma endemia que tomou conta dos gabinetes em Brasília e em cada um dos milhares de municípios deste país, em suas distintas esferas de poder. Mas daí a usar as redes sociais (e, muitas vezes, sob o abrigo do anonimato) para difundir suspeitas e acusações sem provas contra qualquer autoridade, tira a razão de qualquer denunciante. E é um ato da maior baixeza e covardia.

Defensores dessa prática são, em geral, aqueles mesmos que condenam supostas (ou não) parcialidades da chamada grande imprensa na cobertura e análise dos fatos políticos. Paranoides e adeptos de eternas teorias conspiratórias contra seus partidos e aliados, dedicam-se muito mais a satanizar a mídia que a desmentir ou esclarecer os fatos – ou até, em alguns casos, que a rever suas ideias à luz de indefensáveis acusações. Nessa onda de execração da mídia, defendem, inclusive, o seu rígido controle pelo governo, ignorando que esse tipo de controle sempre é um eficaz instrumento de opressão usado pelas ditaduras em todo o mundo.

Ora, jornalistas sérios têm por hábito checar qualquer informação antes de publicá-la. É quase automático, isso. Afinal, sua credibilidade como profissional está em jogo quando vem a público denunciar um caso de superfaturamento, tráfico de influência, licitação fraudulenta ou peculato.

Como qualquer um que posta uma acusação pessoal contra um desafeto político não tem esses cuidados, a coisa está descambando para o pior. Em nome de uma pretensa liberdade de opinião e de expressão que tenta se travestir de “liberdade de imprensa” nas redes sociais – para se opor às linhas editoriais adversas dos vários veículos de comunicação –, muitos pseudojornalistas (e até alguns jornalistas mal-intencionados) têm desvirtuado o propósito de informar, analisar ou criticar.

Digressão inevitável

Há uma tecla no meu computador em que estou sempre rebatendo: o que falta, na base de tudo, é Educação. Nunca – nem antes, nem depois – na história desse país, qualquer governo deu real prioridade à Educação. O motivo é simples: povo instruído e informado desenvolve senso crítico, vota consciente, derruba governos. E isso não interessa aos governantes, cujo real propósito é perpetuar-se – com seu grupo político – no trono.

Povo ignaro é povo útil ao poder. É massa de manobra, facilmente regada a pão e circo. É incapaz de ler uma mesma notícia em dois ou três jornais ou sites, ou vê-la em mais de um telejornal, avaliar criticamente o fato, tirar suas próprias conclusões, separar o joio do trigo e formar seu próprio juízo. Aí entra em cena o manipulador oportunista, pau mandado do governo ou da oposição da hora, e insufla o povo contra a mídia A ou B – grande satã responsável por todas as mazelas do país porque ela apoiaria o candidato C ou D.

Mas… voltemos às redes sociais. (Pulemos, contudo, um peculiar aspecto de seu uso mais recente, que é sua função gatilho para convocação de rolezinhos, arrastões, brigas de torcidas e outras práticas coletivas menos nobres, para retomarmos o saudável exercício da liberdade de opinião.)

Basta um breve e ocasional acompanhamento de posts trocados no Facebook e comentários publicados por leitores de blogs para ficar evidente que o ciberespaço é, também, o mais profícuo cemitério da nossa língua. Mas, para não gastar saliva com os já conhecidos e recorrentes atentados cometidos contra a ortografia e a gramática, quero chamar a atenção somente para aquela que morre um pouco mais a cada post publicado por leitor indignado de blog, Twitter ou Facebook com algum conteúdo crítico: a ironia.

Nariz de Pinóquio, não!

Os leitores parecem levar tudo ao pé da letra, pouco familiarizados que são (por falta de outras leituras, presumo) com as muitas nuances e intenções da palavra escrita. Só são íntimos da palavra oral, porque a inflexão que lhe é dada por quem fala é mais claramente perceptível. Assim, quem se forma apenas conversando no balcão do botequim, vendo mundo cão nas tardes da tevê e ouvindo funk – sem nunca ler um livro ou jornal, ir a teatro e museu, ou se dar uma chance de ouvir Chico Buarque – não percebe e não assimila metáforas, ambiguidades e ironias. Com isso, o humor está morrendo (e vai acabar arrastando a poesia pro mesmo buraco).

Um episódio recente, envolvendo o compositor e ex-ministro Gilberto Gil, é bem representativo disso. Ele notificou o site www.teatronu.com pela publicação de um texto ficcional e irônico, que criticava a política cultural pública em Salvador e na Bahia, citando-o como personagem – baiano ilustre que é. O ex-ministro não entendeu a piada e já foi logo notificando o seu autor, Cláudio Marques, para que o texto fosse retirado do ar em 24 horas.

Concluo que até as pessoas mais cultas e esclarecidas desse país estão perdendo o senso de humor, nas redes sociais. Ou – como diria um outro compositor baiano – “não estão entendendo nada!”

Essa incapacidade de se entender a ironia crítica também é preocupante, quando os nossos parlamentares já conspiram para impor limites às críticas que se lhes possa fazer nas redes sociais. Vai que uma alta autoridade ache ofensivo que comentem que ele arrumou emprego para a família toda num ministério e que todos recebem polpudos salários mesmo sem trabalhar? Ou que algum deputado não goste de um comentário publicado sobre suas ausências nas votações da casa? Ou que um senador não goste que comentem que seu implante capilar custou caro aos cofres públicos? Só falta, agora, que algum político que não tenha gostado de uma charge sobre ele, publicada em jornal, apresente um projeto de lei impedindo que caricaturistas o retratem com nariz de Pinóquio! (E eu, sem querer, dando ideia para essa gente. Vai que…)

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Jornalista, escritor e dramaturgo, Belo Horizonte, MG

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