Sábado, 25 de Maio de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1038
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O grupo hacker que derrubou FBI e Mastercard

Por Camilo Rocha em 28/01/2014 na edição 783

A saga do grupo hacker Anonymous é um dos capítulos mais fascinantes da curta história da internet. A organização, formada principalmente por jovens dos Estados Unidos e do Reino Unido, realizou uma sequência de ações espetaculares nos últimos anos que incluiu a derrubada dos sites do FBI e do Departamento de Justiça dos EUA, e de empresas como a Mastercard e a Visa. 

Apoiando causas como a Primavera Árabe e o site Wikileaks, o Anonymous, ao lado da organização-irmã LulzSec, acumulou fãs e inimigos com seu ativismo insolente. A ilegalidade de muitas de suas ações os colocou na mira das autoridades e vários de seus líderes foram presos.

Parmy Olson, jornalista da Forbes baseada em São Francisco, realizou a proeza de transformar esta complexa história, de personagens misteriosos e muitos termos tecnológicos, em um livro que pode ser lido como um thriller emocionante.

Lançado em meados do ano passado em inglês, We Are Anonymous chega ao Brasil em abril com o nome de Nós Somos Anônimos. Parmy conversou com o Link pelo telefone.

O que a atraiu nesta história?

Parmy Olson – O fato de que havia essa comunidade digital subterrânea e secreta se mobilizando por mudanças. Havia um histórico de ativismo online, mas não desta forma, como grupo organizado, com seu próprio logotipo, e que parecia ter surgido do nada. O aspecto misterioso de tudo me atraiu. Havia muitas matérias sobre eles, mas ninguém havia se aprofundado.

Foi difícil conquistar a confiança dos envolvidos para que contassem suas histórias?

P.O. – Num primeiro momento, não. Uma das coisas que diferencia o Anonymous de outros grupos de hackers é sua disposição em falar com a mídia. Eles sabem jogar com jornalistas e são muito bons de relações públicas. São muito focados em construir uma imagem de si próprios. Mas levou meses de presença online diária para eu ir além disso, conquistar a confiança deles e acessar níveis mais internos do grupo, como chats privados com membros individuais.

A mídia e o público tem ideias equivocadas sobre o Anonymous e hackers em geral?

P.O. – Sem dúvida. Para mim, o hacker é alguém que vê um sistema e sabe que existe outra maneira de alcançar aquilo que aquele sistema busca ou encontra um atalho ou um modo de consertá-lo. Requer pensar criativamente, fora da caixa. Ser um hacker não é necessariamente algo ruim, na verdade é algo ótimo, porque se trata de gente que pensa diferente do senso comum. E é isso que a maioria desses caras estava fundamentalmente fazendo. Só pensando em maneiras diferentes de chamar a atenção ou de conseguir mudanças. Entre os maiores equívocos a respeito do Anonymous está a ideia de que tudo que faziam era ilegal. É claro que invadir sites de empresas e publicar dados sigilosos são atividades ilegais, mas havia também muito ativismo digital. Outro equívoco é achar que são muitas pessoas envolvidas. Na verdade, os ataques mais famosos, como aqueles contra Mastercard e PayPal, foram executados por pouca gente, duas dezenas no máximo.

E o que mais lhe surpreendeu ao desvendar essa história?

P.O. – Fui surpreendida por várias coisas. Por exemplo, não sabia que essas pessoas não se encontravam na vida real, não se conheciam e nem sabiam seus nomes verdadeiros. Também não sabia das tensões que ocorriam dentro dessas comunidades, das facções. Há muitos conflitos internos, é um mundo muito paranoico, com espionagem e intriga. Muitos projetos interessantes, como de apoio a ativistas no Oriente Médio, acabaram deixados de lado por causa desses conflitos internos. Me surpreendeu como gastavam tempo nessas coisas.

O Anonymous fez as empresas ficarem mais atentas com segurança?

P.O. – Difícil falar genericamente, mas pelo que tenho acompanhado não me parece que estejam mais preparadas para esse tipo de ataque. A segurança dos dados do consumidor continua em segundo plano. Agora mesmo, descobriram que o aplicativo móvel da Starbucks armazenava dados dos clientes como arquivos de texto simples, sem encriptação. Esse tipo de imprudência foi exatamente o que o LulzSec expôs dois anos atrás, quando publicou os dados de clientes da Sony.

Você chegou a ficar preocupada com sua própria segurança?

P.O. – Fiquei nervosa algumas vezes. Mas como jornalista, que costuma lidar com grandes empresas, eu acho que o jogo nunca é fácil. Às vezes, escrevo coisas sobre uma empresa que não são positivas e fico muito nervosa com isso depois da publicação. Mas quando falava com esses caras, tanta coisa era tão genuína e consistente que, de certa maneira, acabei tendo menos medo do que em muitas situações em que escrevi sobre grandes empresas.

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Camilo Rocha, do Estado de S.Paulo

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