Quinta-feira, 22 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

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Os senhores da rede colonizam a arte

Por Álex Vicente em 11/02/2014 na edição 785
Reproduzido do El País Brasil, 3/2/2014

Nada na fachada deste espetacular palacete do século XIX nos faria pressagiar o que encontraremos lá dentro, se não fosse pelas grades pintadas com as cores corporativas e por uma por uma pequena placa, pregada à porta, que diz: “I’m feeling lucky” (“estou me sentindo com sorte”). A primeira sede física do Instituto Cultural Google abriu suas portas em dezembro, alguns quarteirões acima da Ópera Garnier, em um luxuoso imóvel de 340 m2 vizinho à sede da companhia em Paris. Trata-se de uma linha de apoio à arte em geral, à qual já se somaram outras grandes corporações da internet que entenderam o grande investimento que é se envolver na criação artística – em feiras, laboratórios, mecenato, bienais, patrocínios, publicidade e demais forma de tomar posição na arte contemporânea.

A primeira sede física do Instituto Google abriu em Paris, em dezembro

No interior do Instituto Cultural Google, telas gigantes cospem imagens de resolução quase insultante, mostrando desde uma máscara do primeiro neolítico até uma tela de Chris Ofili, integrante dos Young British Artists. Cruzando-se uma sala de reuniões com aspecto de escritório da cientologia chega-se a um laboratório digno de um filme da Pixar, dotado de impressoras tridimensionais, câmeras fotográficas de 360 graus e uma sala de videoconferências que parece destinada ao salto hiperespacial. “Em continuidade com a nossa plataforma on-line, o laboratório nos permitirá redobrar nosso esforço para facilitar o acesso à cultura e contribuir com a sua preservação para as gerações futuras”, declarou o vice-presidente do Google, Vint Cerf, ao apresentar o projeto.

São criações que seduzem um público em crescimento

Traduzindo-se a sua novilíngua, ele quer dizer que o chamado Lab aprofundará o que o Google já faz desde 2011: digitalizar as obras de 400 centros de arte e instituições culturais de 50 países, para serem visíveis nesse pomposomuseu virtual de 57.000 obras conhecido como Google Open Gallery. Mas a companhia também vai um pouco além com este espaço pensado como ponto de intersecção entre o setor cultural e o das novas tecnologias, que subvencionará a criação jovem e acolherá colóquios sobre assuntos inovadores. O primeiro, previsto para este mês, estará capitaneado por Camille Morineau, artífice da iconoclástica reordenação da coleção permanente do Centro Pompidou em 2009, que dedicou um andar inteiro às mulheres artistas.

A partir de março, o laboratório também acolherá jovens artistas residentes, selecionados pela plataforma 89plus, dirigida por dois nomes de reconhecido prestígio na arte contemporânea: Simon Castets, recentemente nomeado diretor do Instituto Suíço, de Nova York, e o supercurador Hans-Ulrich Obrist, responsável pela Serpentine Gallery, de Londres. Os artistas precisarão cumprir duas condições: terem nascido depois de 1989 e desenvolverem um projeto relacionado a novas tecnologias.

Mas esse elogiável projeto também despertou suspeitas. Há quem veja nessa nova sede do Instituto Cultural Google uma estratégia de sedução dirigida às autoridades francesas, receosas dos projetos que a companhia desenvolve em seu território. Conhecida por seus ataques públicos aos gigantes da internet, a ministra da Cultura, Aurélie Filippetti, cancelou na última hora sua presença na inauguração, temerosa de que o gesto fosse interpretado como um apoio incondicional à empresa. “Apesar da qualidade dos projetos, não quero servir de fiadora a uma operação que não invalida certas questões que devemos tratar com o Google”, declarou Filippetti, citando “a equidade fiscal, a proteção dos dados pessoais, a diversidade cultural e os direitos autorais”.

O diretor do Lab, Laurent Gaveau, garante não entender essas reticências. “O projeto responde à missão que guiou o Google desde sua criação: organizar e permitir o acesso à informação na internet. Não faria sentido que a cultura e a arte ficassem à margem desta empresa”, afirma Gaveau, contratado pelo Google em meados de 2013, quando trabalhava no Palácio de Versalhes, onde dirigiu com sucesso os programas de novas tecnologias. Ao deixar o cargo, as visitas virtuais já superavam as reais. O fato de o Instituto Google não estar aberto ao público, senão em raras ocasiões, não contribuiu para convencer os céticos. “Não será uma galeria de exposições, e sim um local de trabalho”, justifica o diretor. “Está pensado como um espaço de encontro com artistas e com instituições que queiram nos conhecer melhor. E para que possamos vencer, quando for necessário, as reticências existentes”, admite.

Para Gaveau, parece “lógico” que uma empresa dedicada à inovação tecnológica atenda “à demanda crescente dos internautas por conteúdos artísticos”. O mesmo argumentam os observadores de um panorama marcado por crescentes sinergias entre os gigantes da internet e o mundo da arte. “Os avanços tecnológicos transformaram todos os aspectos de nossa cultura. Faz sentido que cresça a confluência entre a tecnologia e as artes. As companhias viram o enorme potencial que existe nesse terreno”, afirma Janet Bishop, conservadora do Museu de Arte Moderna de San Francisco (SFMOMA). Fechado para reformas até 2017, o centro acaba de fazer a curadoria de um luxuoso programa de arte contemporânea que está exposto nas ruas de Los Altos, no coração do Vale do Silício.

O museu encarregou a nove figuras prestigiosas do mundo da arte e da fotografia – entre elas Mike Mills, Alec Soth, Christian Jankowski e Jessica Stockholder – uma série de projetos inspirados no cotidiano da privilegiada comunidade residencial que circunda a meca digital. “O Vale do Silício é conhecido por muitas coisas, mas não necessariamente pela cultura. Nosso programa cobriu um vazio”, acrescenta Bishop. O projeto teria contado com o apoio econômico de um misterioso grupo de investimento chamado Passerelle, por trás do qual se encontraria, segundo o The Wall Street Journal, um dos fundadores do Google, Sergey Brin.

As obras de Rafaël Rozendaal têm 40 milhões de visitantes na Internet

O museu se negou a confirmar isso, alegando que os doadores preferem continuar no anonimato. Mas o projeto é mais uma prova da aproximação entre dois mundos que, até pouco tempo atrás, preferiam se ignorar mutuamente. No endinheirado vale também acontecerão neste ano duas novas feiras de arte: a Silicon Valley Contemporary (em abril) e a Art Silicon Valley (em outubro), que aspiram a seduzir os dirigentes das ponto-com que começaram a formar suas coleções privadas e corporativas. Entre outros, “os dirigentes do Facebook, Google, Adobe e Cisco”, nas palavras do presidente da Silicon Contemporary, Rick Friedman. “Investir em arte permite que essas corporações estabeleçam um diálogo alheio ao produto que costumam oferecer, de uma forma sutil e intelectual. Comprar arte agrega para a companhia um valor que é quantificável em muitos níveis diferentes”, opina por sua vez Nick Korniloff, diretor do Art Silicon Valley.

Já Bill Gates não entende que alguém prefira patrocinar arte em vez de saúde

Ambas as feiras se somarão a uma bienal um pouco mais veterana, a Zero1, que desde 2006 tenta colocar o Vale do Silício no mapa da arte contemporânea. Seus responsáveis consideram que a arte foi um investimento inteligente nas últimas duas ou três recessões. E que os jovens milionários que dirigem o setor digital são mais sensíveis à arte mais novidadeira do que às formas mais tradicionais. “São companhias que procuram o novo, o diferente e o mais avançado. A arte digital é tudo isso. Seduz um público cada vez mais extenso, jovem e cool. Não é estranho que o Vale do Silício se interesse pela arte justamente agora”, observa Sarah Beth Nesbit, porta-voz da Zero1.

A exceção à regra atende pelo nome de Bill Gates. O fundador da Microsoft assegurou em uma recente entrevista ao Financial Times que não entendia os que preferem doar dinheiro a um museu a curar enfermidades que provocam a cegueira. Os gigantes da internet respondem, com seus atos, que o cego deve ser ele. A diretora-executiva do Yahoo, Marissa Mayer, financiou parte do projeto The Bay Lights, do artista Leo Villareal, formado por 25.000 pontos de luz que ficarão instalados até março de 2015 sobre a ponte da baía de San Francisco. Custou 8 milhões de dólares (19,3 milhões de reais), uma soma mais do que considerável, com a qual contribuiu também Mark Pincus, fundador da Zynga, líder no segmento de jogos on-line. Já o responsável máximo pelo Twitter, Jack Dorsey, encontra-se entre os patrocinadores da plataforma social Artsy, destinada a colecionadores e aficionados da arte.

Posicionar-se na arte permite às empresas reforçarem sua presença em um setor que, por muito que se anuncie o apocalipse, continua crescendo ano após ano. Em 2013, a plataforma de microblogs Tumblr promoveu a primeira edição do Paddles On!, uma venda de arte digital em colaboração com a prestigiosa casa de leilões Phillips, abraçando o mesmo posicionamento estratégico: marcar posição no setor, ainda pouco concorrido, das últimas novidades na criação artística. A agência JWT, referência na observação de tendências de consumo, observou que a arte digital deverá explodir de vez em 2014. Há poucos meses, um quadro monocromático estritamente preto, realizado com uma impressora de jato de tinta, obra do artista Wade Guyton, foi vendido por 1,2 milhão de dólares (2,9 milhões de reais) em um leilão na Christie’s.

Os gigantes da internet estariam apenas seguindo esses passos. “O MoMA recebe quase 3 milhões de visitas a cada ano. Um número considerável, mas superado pelas obras interativas criadas pelo artista Rafaël Rozendaal, descobertas por 40 milhões de visitantes por ano na internet. Essas corporações entenderam que se interessar pela arte é, agora mais do que nunca, um investimento inteligente”, concluiu a curadora do Paddles On!, Lindsay Howard, que neste ano repetirá a experiência com dois eventos em Londres e Paris. Tudo indica que não serão os últimos.

Projetos em expansão pelo mundo

O Instituto Cultural Google acaba de abrir sua primeira sede física em Paris: um laboratório de criação que financiará projetos artísticos que necessitem do apoio das novas tecnologias. Além disso, continuará alimentando a Google Open Gallery. O museu ampliará sua coleção permanente de videogames, que permite visualizar virtualmente 57.000 obras de 400 museus de todo o mundo.

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Álex Vicente, do El País, em Paris

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