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Sexta-feira, 17 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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Jovens temem chegada de propagandas após a compra

Por Rennan Setti e Sérgio Matsuura em 25/02/2014 na edição 787
Reproduzido do Globo.com, 20/2/2014; título original “Jovens já preferem WhatsApp a Facebook e temem chegada de propagandas após a compra”

Se o Facebook comprou o WhatsApp na tentativa de reconquistar internautas que trocaram a rede social pelo aplicativo de mensagens, Mark Zuckerberg provavelmente agiu certo. Cada vez mais usuários deixam de lado o site em favor da proposta prática e ágil do WhatsApp, que já representa o principal canal de comunicação para muitos jovens – uma verdadeira rede social móvel para esse público, espécie de Facebook do futuro.

Os jovens recorrem ao app por considerá-lo útil, adjetivo que dificilmente aplicam ao Facebook. O WhatsApp substitui bem, por exemplo, mensagens SMS, consideradas caras demais e limitadas. Além disso, é de praxe entre os membros do WhatsApp formar grupos com dezenas de contato para resolver problemas práticos, como organizar uma festa ou resolver coletivamente os exercícios da aula seguinte.

– O WhatsApp é, com certeza, mais útil. Se você está no trabalho, não dá para ficar on-line no Facebook, mas consegue usar o WhatsApp se quiser falar de forma rápida com alguém – explica a estudante de engenharia de telecomunicações Elisangela Ferreira da Costa, de 30 anos. – Eu uso o WhatsApp todo dia, porque todo mundo da faculdade tem, mas só acesso o Facebook umas três vezes por semana. Não sou de expor minha vida. Restrinjo todo o conteúdo que compartilho. Sou metida – brinca.

O acesso ao WhatsApp parece ser mesmo mais constante que ao Facebook. Habitués do app chegam a abri-lo centenas de vezes ao dia, para contatar amigos, colegas de trabalho e familiares. Marcela Coronel Lopes, de 27 anos, diz acioná-lo a cada dez minutos, rotina que faz do WhatsApp um recurso muito mais importante em sua vida do que a rede social.

– Quando estou sem internet e não posso usar o aplicativo chego a sentir uma agoniazinha! – admite ela, que é funcionária de uma laboratório na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

Para quem usa o WhatsApp, o aplicativo de mensagens do próprio Facebook, o Messenger, não é bom o bastante.

– O Messenger é lento na internet 3G. O WhatsApp é muito mais leve, dinâmico. Para compartilhar vídeos, por exemplo, é muito melhor – diz Thiago Mello, de 25 anos, que estuda ciência ambiental na Universidade Federal Fluminense (UFF).

Facebook sofre debandada de jovens

Os dados comprovam que o Facebook já não tem tanto charme entre os jovens. Apenas nos EUA, 3 milhões de internautas entre 13 e 17 anos abandonaram seus perfis de 2011 a 2013, uma redução de 25%, aponta levantamento realizado pela iStretagy Labs. No mundo foram 11 milhões que deixaram a rede social. Em outubro do ano passado, durante a apresentação de balanço trimestral, David Ebersman, diretor financeiro da companhia, reconheceu a dificuldade.

– Nós vimos um declínio no uso diário dos adolescentes, especialmente entre os mais jovens – afirmou, na ocasião.

Outro estudo, realizado entre jovens europeus, aponta que os adolescente migraram para outros serviços como Twitter e Snapchat – que o Facebook tentou comprar, sem sucesso –, e dois adquiridos pela empresa de Zuckerberg: Instagram e WhatsApp.

“Antes os pais se preocupavam com seus filhos entrando no Facebook, agora as crianças afirmam que são seus pais que insistem que eles estejam no Facebook para contar sobre suas vidas”, afirmou Daniel Miller, antropólogo da Universidade College London, um dos autores da pesquisa “Global Social Media Impact Study”.

A tentativa de reconquistar o público jovem é um dos fatores que explicam o alto investimento feito pelo Facebook na aquisição do WhatsApp, afirma Roberto Cassano, diretor de estratégia da Agência Frog. A própria aquisição do Instagram, em 2012, foi apontada como uma tentativa de deixar a rede social mais “cool”.

– Eles tentaram comprar o Snapchat, aplicativo usado praticamente só pelos mais jovens. O WhatsApp é mais democrático, com usuários de todas as idades, mas grande apelo entre os mais novos – afirma. – Por US$ 19 bilhões, não é só a receita que justifica esse investimento. No melhor dos cenários, o WhatsApp pode faturar US$ 1 bilhão por ano.

Usuários temem propagandas

Se os investidores indagam o que mudará no modelo de negócios do aplicativo depois da aquisição, os usuários já franzem a testa com a possibilidade de o WhatsApp passar a exibir anúncios – embora o cofundador Jan Koum tenha dito que nada irá mudar no WhatsApp. Marcela Lopes adianta que, se a publicidade der as caras no seu aplicativo favorito, procurará um jeito de bloqueá-los como faz “com contatos inconvenientes que enviam mensagens quando não devem.”

– As propagandas do Facebook me incomodam muito. Elas poluem a tela e muitas vezes não são nem um pouco interessantes – reclama a engenheira elétrica Vanessa dos Anjos, de 28 anos, que usa o WhatsApp há cerca de seis meses mas ainda prefere o Facebook.

Thiago Mello, porém, argumenta que o WhatsApp atrairia muito mais usuários se aderisse aos anúncios com a contrapartida de se tornar gratuito:

– Quase ninguém sabe, mas o WhatsApp não é grátis. Você paga uma anuidade insignificante (US$ 0,99 no iPhone e no Android após um ano de uso), mas paga. Acontece que a maioria das pessoas baixou há pouco tempo e não deparou ainda com a cobrança. Quando descobrirem, acho que muitas vão abandoná-lo. Não pelo preço, que é muito baixo, mas pela burocracia de ter que cadastrar um cartão de crédito. São poucos os adolescentes que tem cartão, por exemplo – justifica o estudante. – Já estamos acostumados com propaganda no celular. A tela é tão pequena que o anúncio fica minúsculo, não me incomoda muito.

‘O cara entende do negócio’

Já para o assistente administrativo Felipe Lopes, de 33 anos, a chegada de anúncios ao WhatsApp fará com que ele procure a concorrência.

– O WhatsApp é mais fácil que telefonar, mas ele não é o único assim. Existem vários aplicativos similares, como o WeChat. Publicidade é uma coisa que me chatearia bastante, então eu certamente migraria para um programa alternativo – conta Lopes, que jamais usou o Facebook por não ter paciência para alimentar redes sociais.

Embora a “ameaça” publicitária assuste a muitos, tem usuário do WhatsApp que gostou da notícia de que é Mark Zuckerberg que está no controle agora.

– O cara entende do negócio, parece administrar bem o Facebook. Deve fazer um bom trabalho com o WhatsApp também – prevê Guilherme Marchon, de 24 anos, que cursa medicina na Uerj.

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Rennan Setti e Sérgio Matsuura, do Globo

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