Segunda-feira, 28 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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As bolhas tecnológicas

Por Sandro Pozzi em 04/03/2014 na edição 788
Reproduzido do El País Brasil, 2/3/2014

Estamos ante uma nova bolha tecnológica a ponto de estourar? As comparações são inevitáveis e um debate latente toma corpo com a compra do aplicativo de mensagens instantâneas WhatsApp. A companhia da rede social Facebook aceitou pagar 12 bilhões de dólares por ele, isto é, mais de 38 bilhões de reais. Tudo em troca de uma tecnologia de Silicon Valley com cinco anos de vida que funciona graças a trinta engenheiros. Cada um desses técnicos cuidam do equivalente a 14 milhões de usuários. Ninguém sabe de sua cifra de negócio. A cotação de WhatsApp é, pelo menos, extravagante e justamente por isso despertou o medo de uma nova bolha como a que o setor das puntocom viveu no ano 2000, e que fez toda a economia cambalear.

O preço da compra é exagerado? Se o preço de WhatsApp fosse seu valor em Bolsa, ocuparia o 265º lugar entre as companhias do índice S&P 500, superando a rede de hotéis Marriott ou a Southwest Airlines, a terceira maior companhia aérea dos EUA. Facebook desembolsou quase tanto quanto o que a multinacional do ramo têxtil Gap vale, apesar de que esta empresa tem 135.000 empregados e vendas declaradas de 16,3 bilhões de dólares.

WhatsApp tem o mesmo preço de venda que o gigante têxtil Gap em Bolsa

Mais contexto: WhatsApp não seria nada sem a infraestrutura de companhias tecnológicas como Verizon, o maior operador dos EUA, que tem um valor em bolsa de 191,5 bilhões. É 10 vezes mais que o preço de venda do aplicativo para celulares, mas seu modelo e seus rendimentos também são, sem dúvida, maiores: tem 180.000 empregados e a cifra do negócio em 2013 foi de 81 bilhões.

O medo a que o que se está pagando pelas empresas de serviços virtuais seja uma loucura não nasce com o aplicativo de mensagens instantâneas. As dúvidas chegaram com a onda de estreias na Bolsa de Valores, protagonizada pelo Facebook e outras pontocom populares no negócio das redes sociais, como LinkedIn ou Twitter. Alguns olhos viraram para cima quando Facebook comprou o Instagram por 1 bilhão de dólares. Ou com a chuva de milhões que os criadores de outras aplicações como Yammer, Tumblr, Waze e Viber receberam. Ainda assim, ao invés do que ocorreu há 14 anos, os analistas e os investidores, mais que uma grande bolha inchada, o que temem estar vendo agora são bolhas dispersas, como as de um refrigerante.

O medo é sempre sinônimo de volatilidade. Os analistas coincidem que não há dúvidas, sobretudo no setor tecnológico, mas sim sobre um segmento: o dos meios sociais. De fato, os valores do Global X Social Media Index têm melhor rendimento que o Nasdaq 100.

Uma maneira de medir se existe excesso de pressão seria ver a evolução do Nasdaq nos últimos três anos. É o mercado de referência dos valores tecnológicos, embora estas marcas olhem cada vez mais para o New York Stock Exchange. Neste momento se aproxima dos 4.300 pontos, depois de apreciar 55% desde inícios de 2011, mas ainda precisa subir 15% para chegar ao recorde prévio ao colapso. Enquanto isso, o Dow Jones e o S&P 500 marcam máximos há meses. Também estão quentes as aquisições no setor. O valor total de compras neste início de ano ronda os 42,4 bilhões, segundo a Thompson Reuters. É o nível mais alto em 14 anos. No entanto, os montantes individuais são pequenos e estão na metade do caminho do que se viu no início do ano 2000, na operação de 160 bilhões de dólares da AOL e Time Warner.

No Sillicon Valley os engenheiros ganham mais do que nos bancos de investimento de Wall Street

Há mais elementos que marcam a diferença com respeito à crise de 2000: Internet era então um fenômeno incipiente e menos desenvolvido. Agora, ao invés de uma economia emergente, se fala já de um mundo gerenciado por programas, em dispositivos de trilhões usuários reais e que geram rendimentos através de publicidade, comércio, venda de dados e assinantes. Além disso, durante a bolha anterior, as estreias em Bolsa aconteciam assim que as pontocom nasciam, sem tempo para que pudessem demonstrar que podiam crescer e se sustentar. Havia mais entusiasmo entre os investidores para seu benefício. Agora as duas partes pensam, precisamente por esse medo de estar inflando as coisas.

Marc Andreessen, um dos evangelistas de Silicon Valley e que como Mark Cuban soube construir sua fortuna sobre os escombros da crise anterior, não acha que ainda existe uma bolha 2.0 e muito menos que vá explodir. Mas Timothy Draper, outra lenda viva do capital de risco, sim adverte que já está no ponto mais alto da curva. Sem valorar se o preço de WhatsApp é correto, os analistas preferem ver a situação caso a caso ao tratar de identificar por onde escapa a pressão.

WhatsApp, como Snapchat ou Pinterest, não cotam. Por tanto, se a valoração é exagerada será um problema para os diretores de Facebook, para seus empregados e para seus investidores. O problema está em como se transfere esse risco ao conjunto do mercado, e isso é algo que ninguém está em condições de valorar. O que parece é que as grandes empresas tecnológicas tradicionais estão, por enquanto, à margem, já que suas operações continuam respaldadas por cifras de negócio que os investidores veem, preto no branco.

O índice tecnológico da Nasdaq subiu 55% desde 2011

O mercado está a salvo de outro susto? Embora se fale apenas de possíveis microbolhas, as evidências de que algo maior poderia estar se formando continua aí. Um exemplo é algo tão simples como o salário de um engenheiro em Silicon Valley, que superam os dos que estão no negócio dos investimentos em Wall Street. Por não falar dos novos jovens multimilionários como Mark Zuckerberg, criador do Facebook.

O outro elemento que se acompanha de perto é o investimento em novas marcas tecnológicas que, como indica Draper, poderia estar a ponto de alcançar um novo pico, inclusive antes de que a Reserva Federal suba os juros e encareça o risco. A gravidade poderia começar a aplicar sua lei também em Wall Street, se os investidores pensarem duas vezes e se retirarem. A queda das ações poderia ter um efeito dominó.

Os mais veteranos no ramo, os que viveram a bolha anterior, mantêm a calma. Mas estão preocupados que, em um mundo de percepções, futuros rendimentos sobre a base de usuários ou visitas potenciais se antecipem, e acenda a faísca de uma pequena virada nessas previsões. Por isso, embora o dinheiro continue fluindo, estão atentos. Não vai ser que a bolha estoure (ou as bolhas), e leve tudo o que encontre no caminho. Outra vez.

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Sandro Pozzi, do El País, em Nova York

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