Sábado, 24 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

E-NOTíCIAS > JOGOS VIRTUAIS

Uma morte na internet

Por Pedro Doria em 04/03/2014 na edição 788
Reproduzido do Globo, 25/2/2014; intertítulo do OI

No início da noite de 11 de setembro de 2012, Vile Rat, um dos jogadores do sistema virtual EVE Online, escreveu pelo chat a um amigo: “Parto do princípio de que não morrermos esta noite.” Sean Smith, o homem por trás do avatar Vile Rat, estava na embaixada americana em Benghazi, Líbia. O prédio se encontrava cercado por manifestantes. Seus companheiros de jogo conheciam a rotina de Smith. Já havia passado pelo Iraque e outros tantos lugares perigosos. Já tivera de deixar o jogo com alguma urgência por conta de tiros, antes. Mas ele não sobreviveria àquela noite. No dia seguinte, as manchetes dos jornais seriam dominadas pelo assassinato do embaixador J. Cristopher Stevens. A seu lado estavam outros quatro americanos. Naquela comunidade on-line, porém, a vítima mais célebre foi Vile Rat.

EVE Online é um videogame que pode ser encontrado nas lojas desde maio de 2003. Não é o tipo de jogo que se joga sozinho, porém. Tudo se passa na internet. Lá dentro está um universo inteiro. Estes jogos, que simulam uma realidade paralela, são antiquíssimos na rede, datam de finais dos anos 1980. Mas as versões atuais são gráficas, sofisticadas. No caso de EVE, o cenário está 21 mil anos no futuro. Após esgotar os recursos da Terra, a humanidade embarcou em naves e colonizou inúmeros sistemas estelares da Via Láctea. Colônias se aliaram, formaram inimizades, há conflitos.

Cada jogador tem seu avatar: um personagem que cria para participar do universo de EVE. On-line, a vida do personagem não se limita a ir e vir ou lutar. As coisas custam dinheiro e demoram tempo. Jogar EVE é, essencialmente, um investimento de tempo e dinheiro. Em setembro do ano passado, uma nave espacial chamada Revenant Super Carrier foi abatida. Explodiu. Era considerada indestrutível mas o exército adversário descobriu um caminho. Seu custo: quase US$ 9 mil. Literalmente. Os materiais para a construção foram reunidos ao longo do tempo por membros do time, e em cada momento cartões de crédito foram tirados da carteira. Quem joga EVE leva a sério o faz-de-conta.

Pedra no sapato

Originalmente, Smith (ou Vile Rat) fazia parte de um grupo anarquista chamado Goonfleet. Na história de EVE, eles foram destrutivos e fundamentais. Em meados da primeira década do século, provocaram o caos. Atacavam todo mundo, ignorando alianças e embates políticos existentes. Provocaram o que ficou conhecido como a Grande Guerra. A principal aliança do jogo era a do Sul, dominada pelo grupo Band of Brothers Meses após o início do conflito, a Goonfleet promoveu uma nova coalizão que terminou na derrocada daquele grupo mais forte e poderoso.

Em um universo criado para simular guerras interestelares virtualmente, Vile Rat inventou a diplomacia. Foi ele quem chefiou as conversas, produziu a costura entre líderes antes rivais e terminou membro do Conselho Intergalático. Os comandantes políticos de EVE On-line. Seu time de diplomatas virtuais chegou a incluir dez pessoas.

Poucos jogadores sabiam, porém, que na vida real Vile Rat era também diplomata. Que seus conhecimentos tinham origem concreta. Serviu ao Exército americano e, após, juntou-se à Secretaria de Estado. Capaz tecnicamente, seu principal trabalho era manter embaixadas em lugares perigosos sempre conectadas à internet de forma segura.

Hillary Clinton, secretária de Estado à época, deve ser candidata à presidência. Benghazi é a pior pedra em seu sapato. O que pouca gente sabe é que a história daquele atentado também teve imensa repercussão em uma importante comunidade on-line.

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Pedro Doria é colunista do Globo

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