Segunda-feira, 21 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº987
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Ciberescapismo

Por Sérgio Augusto em 18/03/2014 na edição 790
Reproduzido do suplemento “Aliás” do Estado de S. Paulo, 16/3/2014; intertítulo do OI

À saída de uma sessão vespertina de Ela, uma senhora pergunta à amiga se aquilo que acabaram de ver poderia acontecer de verdade. “Sei lá”, respondeu a outra, “mas quando acontecer, não estaremos mais aqui pra ver.” Resposta sensata. Primeiro porque ninguém sabe ao certo se a tecnologia digital atingirá aquele grau de sofisticação mostrado no filme de Spike Jonze. Segundo porque as duas senhoras certamente há muito terão morrido quando os smartphones e computadores puderem oferecer um serviço de interação online como o do filme.

Aos que ainda não viram Ela e nada leram a respeito, resumo: é uma delicada, melancólica e inquietante comédia ciber-romântica na qual um recém-separado de carne e osso, Theodore (Joaquin Phoenix), apaixona-se pela voz e o jeito de falar de um sistema operacional chamado Samantha. Ela não é um autômato como os replicantes de Blade Runner e Gigolo Joe, o edipiano robô humanoide encarnado por Jude Law em A. I., Inteligência Artificial, mas um programa de computador que conversa e interage com o usuário, algo como uma extensão do aplicativo Siri, a assistente pessoal inteligente do iOS da Apple, só que “humanamente” inteligente e sensível. Além de sexy. Até um software vira um tesão com a voz de Scarlett Johansson.

Li em algum lugar que daqui a 30, 40 anos haverá um aplicativo como Samantha ao alcance de todos nós. Se for um quebra-galho full time e onipresente, uma super-Siri, com respostas e recomendações para tudo, beleza. Se uma vampe virtual, uma app-fatale capaz de virar a cabeça de clientes solitários e carentes como o Theodore de Ela, babau. Que não chegue a tal extremo a distopia da Singularidade (ou o momento hipotético em que a inteligência artificial irá superar a inteligência humana), até por ser grande o risco de a NSA, ciente da onisciência do aplicativo, com total acesso aos dados, e-mails e demais segredos de sua freguesia, transformá-lo numa Mata Hari. Como se já não bastassem as coletas de dados dos internautas repassados pelas plataformas de mídia social e aplicativos a empresas e anunciantes.

Duas alternativas

O filme se passa numa época indefinida, numa Los Angeles asséptica e high tech, com visual de Xangai (onde as externas foram rodadas), justo o oposto da Los Angeles de Blade Runner, que era uma versão degradada de Tóquio, com detalhes maias em sua regressiva arquitetura. Essa concepção de Xangai como protótipo da metrópole do futuro pode sugerir uma visão prospectiva menos sombria, menos pessimista, que a dos autores de Blade Runner, mas a perspectiva de um mundo onde seres humanos inteligentes e sensíveis como Theodore caiam de quatro por vozes movidas a algoritmos não deveria empolgar nem os mais fanáticos apologistas da cibercultura.

Se Samantha é um avatar avançado de Siri, Theodore em nada difere dos cibernautas do presente que vivem vicariamente num mundo à parte, como almas penadas do limbo digital em busca de uma saída distanciada, clean, para sua solidão. São zumbis, e não apenas usuários, das mídias sociais, viciados no Facebook, no Twitter e serviços afins. Diversos estudos recentes, e não tão recentes, sobre os efeitos negativos da convivência virtual revelam dados preocupantes. Conclusão unânime: quanto mais vazia nossa vida pessoal, maior a tendência para preenchê-la na realidade virtual. Quanto mais ocupados e ativos, menos nos deixamos seduzir pelo ciberescapismo.

Permanecer muito tempo nas redes sociais pode provocar insônia, ansiedade, estresse, distúrbios digestivos (revelação da última edição do Journal of Eating Disorders), anorexia, afetar a autoestima, incitar a inveja e o ciúme. A psicoterapeuta Sherri Campbell defende essa tese com ardor: “As mídias sociais nos dão um falso sentimento comunitário, uma falsa conectividade com o mundo e as pessoas. As trocas que nelas se processam são meros simulacros das relações interpessoais no mundo físico. Milhares de contatos, amigos, seguidores e curtições não valem o sucesso real, palpável, que podemos desfrutar no mundo real”.

Apesar de ter um pezinho na autoajuda, Sherri Campbell fala com a autoridade de quem há tempos se dedica a pesquisar os motivos que levam as pessoas a sobrepor suas relações nas redes sociais às da realidade concreta.

Metade dos imoderados usuários do Facebook e do Twitter que ela entrevistou admitiu ter ficado, com o passar do tempo, mais ansiosa, frustrada e insatisfeita. Nas mídias sociais a vida dos outros parece perfeita e isso pode nos deixar complexados e deprimidos, ainda que o que os outros nos mostram seja apenas um instantâneo da realidade, eventualmente edulcorada, falsificada, “porque também produto de um complexo de inferioridade”, acrescenta a psicoterapeuta, que, a exemplo de Christopher Carpenter, autor de Narcissism on Facebook (Narcisismo no Facebook), oferece duas alternativas aos acometidos de compulsão tecnológica: uma clínica de reabilitação (sem acesso à internet) e uma terapêutica reconexão ao mundo real, com frequentes tête-à-tête com amigos e parentes. Foi o que Theodore, o cibermissivista apaixonado de Ela, compulsoriamente fez.

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Sérgio Augusto é colunista do Estado de S. Paulo

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