Quarta-feira, 17 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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De novidade a caso de polícia

Por Camilo Rocha em 18/03/2014 na edição 790

Nos últimos meses, a moeda digital Bitcoin ganhou a maior visibilidade de seus cinco anos de vida. Mas os motivos foram mais policiais do que financeiros.

Em outubro, o FBI tirou do ar um dos sites mais visados da internet, o Silk Road, conhecido por vender drogas e armas com o uso da moeda virtual. Em fevereiro, a até então maior bolsa de valores de bitcoins do mundo, a Mt. Gox, pediu concordata depois de ter seu sistema invadido e seus depósitos em dinheiro digital esvaziados. No total, foram roubados 850 mil bitcoins, sendo 750 mil de investidores.

Cerca de uma semana depois, o Flexcoin, um banco de bitcoins baseado no Canadá, fechou após anunciar a perda do equivalente a US$ 600 mil com um ataque hacker.

“Moeda digital à beira do colapso”, sentenciou um artigo do Los Angeles Times à época, argumentando que as más notícias afetariam a credibilidade da moeda digital de forma irreversível. Gente de peso apedrejou o Bitcoin. O economista Paul Krugmann, ganhador do prêmio Nobel, escreveu um artigo dizendo que “o bitcoin é do mal”. E o megainvestidor Warren Buffet, em ocasiões diferentes, classificou a moeda digital de “miragem” e “piada”.

Entre os que conhecem mais a fundo o mercado bitcoin, as notícias dividem opiniões. Enquanto manifestantes indignados com seus prejuízos protestavam na porta da Mt. Gox, um comunicado de várias empresas de Bitcoin viu o copo meio cheio: “como ocorre com qualquer nova indústria, há certos praticantes mal-intencionados que precisam ser afastados”. Entretanto, parece não haver dúvida quanto ao longo prazo: o Bitcoin veio para ficar. E mais: ele representa potencialmente o futuro do dinheiro online.

Revolução

É esse, por exemplo, o argumento de uma matéria recente da revista britânica Economist sobre a moeda digital. “A tecnologia por trás do Bitcoin poderia apoiar uma revolução na maneira como as pessoas possuem e pagam por coisas.”

Para o empresário brasileiro Alex Barbirato, que opera em bolsas de bitcoin, “é uma tecnologia de ruptura e chega para abalar um mercado que é extremamente duro, o dos bancos e das finanças”. A experiência de Barbirato com o mercado financeiro data dos anos 90. Hoje, dirige a Incube, plataforma de apoio a startups.

Para Flávio Pripas, fundador da BitInvest, bolsa de negociação de bitcoins em reais, a moeda é uma “tecnologia disruptiva” pois permite transações válidas em uma rede descentralizada. “Muitas inovações serão feitas a partir dela”, aposta.

Marcelo Coelho, diretor do Mercado Pago, enumera uma série de vantagens do Bitcoin, entre elas o fato da moeda ser 100% “rastreável”. “O registro de quem a utilizou fica arquivado”, além disso, “ela não apresenta custo de transação”, ponto ressaltado também por Barbirato, da Incube. “Tem muita gente ganhando um dinheiro que não se justifica. Você paga R$ 7 para fazer um DOC, US$ 50 para uma transferência internacional. Com o Bitcoin, se faz tudo isso praticamente de graça.”

Regulação

Mesmo entre seus entusiastas, acredita-se que o mercado financeiro digital precisa de muitas melhorias para ser viável. Uma delas seria a chegada de algum arcabouço regulatório. A moeda, hoje, não obedece a uma autoridade e não está sob nenhum tipo de controle.

Rodrigo Batista, sócio do Mercado Bitcoin, operadora brasileira da moeda, disse ao Estado em novembro que “para o Bitcoin ser amplamente adotado nas transações do dia a dia, precisa ter aval do governo. Dificilmente você vai conseguir fazer coisas muito grandes sem isso”. Ele cita o exemplo da Alemanha, que autorizou em agosto transações privadas envolvendo a moeda, ajudando-a a se expandir naquele país.

Os executivos familiarizados com o Bitcoin acreditam que a popularização ajudará a domar a volatilidade da moeda, um de seus maiores fatores de risco hoje. A cotação da moeda é imprevisível e pode mudar radicalmente em poucas horas. “Em um ponto ela vai se estabilizar”, acredita Batista. “Hoje, a volatilidade do Bitcoin é bem menor do que há um ano atrás.”

Nesta semana, algumas autoridades acenaram com a regulação. O chefe da comissão de valores futuros dos EUA afirmou que estuda a possibilidade de regular “moedas eletrônicas”.

Já o diretor da agência reguladora de serviços financeiros do Estado de Nova York, Benjamin Lawsky, pediu que operadores de câmbios de moedas virtuais enviassem propostas de registro, um possível primeiro passo em direção à regulamentação. “Mas se sair algo muito restritivo, as pessoas que usam lá vão para outro país, onde seja mais fácil desenvolver”, diz Batista.

No Brasil, por outro lado, não há movimentações rumo à regularização do o uso de tais moedas. O Banco Central, em fevereiro, se limitou a pedir “cautela” nesse tipo de mercado.

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Camilo Rocha, do Estado de S.Paulo

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