Terça-feira, 23 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
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‘Mondo cane’ na internet

Por Murillo de Aragão em 29/04/2014 na edição 796

Acompanho com tristeza o mondo cane na internet e, certa vez, escrevi um texto que começava assim: “Destruído pela BBC, destruído pela MTV. Eu odeio morder a mão de quem me alimenta de informação”. Trata-se da tradução livre do refrão de uma música do Duran Duran, dos anos 90, cujo título é emblemático: Too Much Information.

De lá para cá, a questão só se agravou. O volume de informação produzida aumentou imensamente. Mais de um milhão de títulos de livros são publicados por ano. Fora algumas centenas de milhões de páginas de revistas e jornais. Sem falar na internet, que possui bilhões de páginas armazenadas.

Mais informação não significa melhor informação. Hoje temos muito mais conhecimento acumulado. Nosso interesse, no entanto, caminha em direções pouco relevantes. Uma simples olhada no site G1 revela do que “o povo gosta” na internet, como diria o falecido Edson Bolinha Cury na TV Bandeirantes.

As reportagens mais lidas no maior site de notícias do Brasil estão localizadas no reino do mundo cão, que inclui sexo, desvios de conduta, perigo, entre outros ingredientes de fácil sensibilização dos sentidos. A sequência só foi quebrada pela súbita morte do glorioso José Wilker.

Debate sem sentido

Vamos lá. A matéria número 1 no sábado 4 de abril era “Conheça a vida de uma prostituta, hermafrodita e pai de três filhos”. Algo entre patético e extravagante que fiz questão de não ler. A segunda mais lida era nada mais nada menos do que “Sapos copulam e ignoram perigo de crocodilo à espreita”. Tema que, como o primeiro, inclui sexo e agrega o perigo do ataque – que não aconteceu – do crocodilo (apenas um voyeur do mundo animal).

A terceira notícia mais lida misturava beleza e recomeço e trazia um sério apelo aos sentimentos das pessoas: “Mendigo gato comemora gravidez de surpresa da namorada”. O mendigo gato é um antigo frequentador da lista das mais lidas, desde que foi descoberto entre mendigos e, depois, quando fez alguns ensaios fotográficos como modelo. Pelo menos, é uma história edificante de superação. Mas recheada de drama, como o povo gosta.

A quarta mais lida era outra notícia bombástica que misturava indignação e exagero: “Equipe de navio vivia em quase escravidão na Bahia”. O tema da escravidão tem um apelo fatal na busca pela audiência. A quinta era uma nota sobre uma jovem que negava ter sofrido um estupro coletivo divulgado pela internet.

Nem sempre as mais lidas são “bad news”, aquelas tragédias típicas que despertam a letargia do leitor apático. Mas todos os temas pertencem ao império dos sentidos fáceis, aqueles que causam reações à flor da pele. Seja pelo grotesco, seja pelo patético, seja pela carga de dor que carregam.

A desgraça dos outros comove e interessa, causando reações psicológicas tais como assistir a um filme de terror ou de aventura, só que tudo sendo real. Ou, aparentemente, real, dada a divulgação abundante de “factoides”.

Como vivemos na civilização do espetáculo, tudo o que é facilmente motivador de reações radicais termina consumido em massa. É evidente que o resultado reflete o estágio precário em que vivemos. E, infelizmente, isso é uma questão mundial. Pior no Brasil onde mais de 50% dos jovens em idade escolar não concluem o ensino médio. E quem lê, não sabe o que está lendo.

Em 5 de abril, um domingo, as “top five” mais lidas no site da BBC eram de qualidade pouco superior às notícias do G1. Pela ordem: a primeira tratava de uma gigantesca simulação do jogo Tetris em um edifício de Chicago. A segunda, de uma exposição de esculturas em gelo que derretiam na frente do espectador. A terceira se referia à aposentadoria de um ator-dançarino inglês de 86 anos. A quarta abordava a busca do avião da Malaysia Airlines desaparecido. Será que nada de mais importante acontecia no mundo na manhã de domingo para os internautas da BBC? Não era por falta de oferta, já que o site tem seções com conteúdo de excelente qualidade.

Vivemos tempos de excesso de informação, que causa, no mínimo, dois efeitos colaterais. A banalização do noticiário, a partir da preferência escancarada do leitor, e o apelo ao império dos sentidos na busca pela audiência fácil. Quanto mais escandalosa a notícia, melhor. A banalização faz com que qualquer tema possa ser “notícia”. Até mesmo um crocodilo voyeur.

A sensibilização talvez seja o passo inicial para buscar leitores? Uns dizem que sim, outros dizem que não. A imprensa, de modo geral, vive uma grave crise ditada sobretudo pela reação dos leitores, que, no final das contas, deveriam sustentar o negócio. A ponto de o antigo debate sobre a propriedade cruzada da mídia, que fazia a delícia da velha esquerda, ter perdido o sentido.

O joio e o trigo

No Brasil, quase todos os jornais têm prejuízo e terminam sendo sustentados por outras mídias ou por verbas públicas. Proibir a propriedade cruzada de meios de comunicação é decretar a morte de algumas mídias.

Naturalmente, a inundação de informação aumentará. Estima-se que, nos Estados Unidos, cerca de US$ 5 milhões é suficiente para se montar um jornal digital com um mínimo de credibilidade. Credibilidade a partir de seu formato e de quem escreve. Por outro lado, apurou-se que os usuários do Facebook gastam menos de 1m30segs por mês lendo notícias, quando saem da rede. Falta interesse. E esse é o problema central.

Assim, o maior volume de informação, pelo menos num primeiro momento, terminará aumentando o fosso entre os que sabem mais e melhor e os que apenas surfam entre uma desgraça e um drama. É a tendência. O que faz com que sites menos badalados e com mais conteúdo terminem sendo um oásis de informações relevantes e influentes. E, ainda, com que o “data mining” para separar o joio do trigo esteja explodindo como ferramenta essencial. Amanhã isso será algo trivial em qualquer computador ou smartphone. Até mesmo para nos livrar de cretinos e seus comentários na internet.

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Murillo de Aragão é cientista político

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