Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

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Mensagens de ódio ganham espaço na rede

Por Cleide Carvalho e Renato Onofre em 13/05/2014 na edição 798
Reproduzido do Globo.com, 11/5/2014; título original “Mensagens de ódio ganham espaço nas páginas da internet”

As mensagens violentas ganharam espaço na internet no Brasil. Nos últimos três anos, aumentou 203% o número de páginas (URLs) denunciadas à ONG Safernet por divulgar conteúdos de intolerância racial, religiosa, neonazistas, xenofobia e homofobia ou por fazer apologia e incitação a crimes contra a vida. Em 2010, os internautas identificaram e denunciaram 6.990 destas páginas. No ano passado, foram 21.205, das quais 11.004 estavam no Facebook, a rede social mais usada pelos brasileiros. Os dados excluem o Orkut, que tende a ser descontinuado.

Se considerado apenas o Facebook, o aumento no número de perfis com mensagens violentas alcança 265% em três anos. Em 2011, os internautas identificaram e denunciaram 3.011 páginas com este tipo de conteúdo. No ano passado, foram 11.004. Mensagens racistas predominam entre as denúncias, com 6.811 páginas identificadas no Facebook, seguidas por apologia e incitação a crimes contra as pessoas (2.398), como assassinatos, tortura, suicídio e linchamentos – justamente o tipo de mensagem que pode provocar tragédias como a que tirou a vida da dona de casa Fabiane Maria de Jesus, em Guarujá, São Paulo. “Infelizmente, temos visto uma escalada da propagação do ódio na internet. Não é só um crescimento na quantidade de mensagens de ódio, mas um recrudescimento do conteúdo, com um nível de violência cada vez maior”, afirma Thiago Tavares, presidente da Safernet.

O que mais preocupa nesta escalada de violência não é só a manifestação de um brasileiro descrente nas leis, na polícia e na Justiça: proliferam também os grupos de ódio, como os de neonazistas, e de misoginia, que pregam ódio, desprezo e repulsa às mulheres e suas características.

Rede é imagem da sociedade

Na avaliação de Tavares, as mensagens cada vez mais virulentas do internauta que age isolado e contagia sua roda de amigos se misturam e legitimam o surgimento de grupos organizados que querem, no vácuo deixado pela ineficiência das instituições, usurpar o poder do Estado. “A internet é a imagem da sociedade refletida no espelho. Com a mobilidade da internet, estamos permanentemente conectados, e a tendência é que esse mundo online se aproxime cada vez mais do off-line. No caso dos grupos de ódio, há um núcleo duro que espalha conteúdo, se envolve e cria polêmicas, e tenta se organizar fora da rede. O que está em jogo é a própria democracia” diz Tavares.

Além dos grupos de ódio, há a violência difusa que espalha preconceito racial, religioso, xenófobo e homofóbico – ainda mais difícil de ser identificada e controlada. Na opinião do psicólogo Rodrigo Nejm, da Safernet, é preciso educar o brasileiro para a cidadania digital. Há uma diferença entre o que o cidadão fala dentro das redes sociais e fora dela. Uma pesquisa com usuários de internet com idade entre nove e 23 anos, entre 2012 e 2013, mostrou que 61% deles se comportam nas redes de forma diferente, 34% se sentem mais livres e 10% acham normal “zoar e xingar”.

O fato é que, nos ambientes não virtuais, ninguém é visivelmente tão agressivo ou violento quanto aparenta ser ao disparar críticas a terceiros, sejam pessoas públicas ou não. Ninguém, por exemplo, xinga o chefe cara a cara. Mas, nas redes sociais, o cidadão é capaz de criar grupos como “Eu odeio meu chefe”, xingar empresas e promover guerras de torcidas. “Há uma sensação de potência e impunidade das pessoas nas redes sociais, como se a internet fosse um mundo sem lei, em que humilhações e ofensas são permitidas”, diz Nejm.

Nejm ressalta que a escala de mensagens violentas ou agressões pessoais na internet é assustadora. No mundo real, ressalta, uma discussão tem começo e fim. No ambiente digital, o conteúdo dificilmente é completamente eliminado, mesmo que seja apagado pelo autor. “Se o conteúdo foi compartilhado, daqui a dez anos pode voltar a causar dano real. É um efeito muito maior do que se imagina”, diz ele.

Em novembro do ano passado, a estudante Júlia Rebeca, de 17 anos, suicidou-se após um vídeo íntimo dela ser divulgado na internet. Ela morava em Parnaíba, no litoral do Piauí, onde gravou um vídeo de sexo com uma garota e um rapaz, ambos menores de idade. As imagens foram distribuídas. Envergonhada após o compartilhamento do vídeo, ela se despediu da mãe em uma rede social. “Eu te amo, desculpa eu não ser a filha perfeita, mas eu tentei… Desculpa, desculpa, eu te amo muito”, postou a garota.

Seis meses depois da tragédia, Júlia continua sendo vítima no mundo virtual. Amigos e familiares denunciaram, em um grupo criado para lembrar a vida da estudante, um perfil falso no Facebook que utiliza imagens da jovem. O Globo entrou em contato com a suposta “Amanda Silva”. Segundo o perfil, ela mora em São Luís (MA). Ao questionar a utilização da foto da jovem, o repórter foi bloqueado da conversa.

Presidente da Comissão de Direito Eletrônico da OAB-SP, Coriolano Camargo afirma que há uma confusão das pessoas em relação à liberdade de expressão e elas precisam ser educadas para exercer a cidadania também na internet. “A intolerância é algo muito sério na humanidade. Casos como este de Guarujá mostram que as pessoas têm de pensar antes de agir. E agir com tolerância. Só educação e respeito ao outro mudam essa situação”, diz ele.

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Cleide Carvalho e Renato Onofre, do Globo

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