Sábado, 17 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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Jornalismo e conhecimento coletivo na internet

Por Rafael Duarte Oliveira Venancio em 03/06/2014 na edição 801

O clima de Copa do Mundo, além dos protestos acerca da condição social do país e das paixonites futebolísticas, resgatou mais um debate na esfera pública jornalística: o uso de informações criadas e revistas coletivamente em ambiente digital. Representada normalmente pela discussão da consulta ou não à Wikipédia, o fato posto recentemente teve até toques de humor.

Na coletiva de imprensa da quinta-feira (29/5), o lateral da Seleção brasileira de futebol Marcelo deparou com uma questão inusitada. Um jornalista perguntou qual era a sensação de fazer aniversário bem no dia da estreia do Brasil na Copa do Mundo, dia 12 de junho, em São Paulo, contra a Croácia. Marcelo, estranhando a questão, respondeu rapidamente: o meu aniversário é 12 de maio. O repórter retrucou: “12 de junho”, recebendo a rápida e bem humorada réplica: “Você quer saber mais do meu aniversário do que eu?”

Na matéria de Alexandre Lozetti e Leandro Canônico, para o site esportivo de internet Globo Esporte, o erro do repórter foi atribuído à Wikipédia. “A confusão de datas tem a ver com um erro em um dos perfis do lateral do Real Madrid na enciclopédia livre Wikipédia. Em um deles, a data de 12 de junho aparece como a certa”, relataram os jornalistas no texto. Tal situação levou muitos, especialmente na comunidade jornalística digital, a criticar o uso das informações de conhecimento e produção coletiva para embasar pautas, trabalhos acadêmicos e outros tipos de textos. No entanto, será que a Wikipédia é a grande vilã dessa história?

Função testemunhal

Ora, o jornalismo pode ser calcado por uma prática que possui um tripé conceitual: informativa, atual e testemunhal. Sem uma, as duas restantes não justificam uma prática ser chamada de jornalismo. No entanto, tal consideração pode ser vista como polêmica.

Podemos iniciar com a ideia de informativa. Uma série de teóricos do jornalismo gosta de dividir a profissão em atividades informativas e opinativas, sendo cada uma totalmente oposta à outra. No entanto, pensando o jornalismo enquanto um gênero do discurso, é total inadmissível pensar em um texto apenas informativo. Afinal, as escolhas de fontes e fatos indicam uma opinião, mesmo que não consciente, que envolve a construção da notícia. Nisso reside boa parte da impossibilidade de objetividade no jornalismo. Além disso, um texto jornalístico não pode ser 100% informativo. Afinal, para uma crônica ou coluna ser escrita para demonstrar determinada opinião de jornalista e/ou veículo, precisa ser embasada em informações para não se transformar em puro “achismo”.

Atual porque o jornalismo precisa ter sempre um gancho com o presente do tempo-espaço que ele pretende representar. Um jornal, um site, um programa de rádio ou de TV sempre será um instantâneo daquela sociedade, um objeto histórico que, mesmo após décadas, nos mostrará como pensavam, agiam e viviam aquelas pessoas.

No entanto, essa “informatividade” e atualidade não existem sem o lado testemunhal do jornalismo. O jornalista não escreve o que sabe, ele escreve o que escuta, o que lê. No texto jornalístico, há de se ter apuração. E, por apuração, não queremos dizer que se devem consultar fontes, mas sim, colocá-las à prova. Assim, se houve um erro daquele jornalista na coletiva, foi que ele confiou apenas em uma fonte para fazer sua pergunta, sem colocá-la à prova com outras. A culpa, em si, não é da Wikipédia como poderíamos dizer, mas sim do jornalista que não apurou.

Isso esclarecido, falta mais um debate. Será que não há forma de fazer a Wikipédia funcionar? Será que devemos mesmo criticá-la sempre possível para rumá-la ao ostracismo? O que destruímos ao criticar a Wikipédia? Para entender isso, precisamos falar um pouco da ideia de mass collaboration, a colaboração massiva.

Conhecimento coletivo

Ora, a ideia da mass collaboration é apenas mais uma das novas configurações da ideia de “sabedoria das massas”. Tal como discutimos em outros lugares, tal como o livro Linguagem da Massificação, a visão de sabedoria é um pressuposto de visão positiva de um conhecimento construído coletivamente.

Tapscott e Williams, dupla de teóricos atuais sobre esse movimento, bem lembraram que, apesar da atual ascensão do tema no debate público, “a busca por novas formas colaborativas de organização é tão longa quanto a história humana” em seu livro Wikinomics. É uma predisposição humana para cooperação social que data de 60 a 70 mil anos atrás e que indica que “nós aprendemos rapidamente que grupos com hábitos cooperativos eram mais bem sucedidos materialmente do que aqueles onde o comportamento mais fechado no autointeresse era a norma”.

Mas, dentro da onda web da mass collaboration, o principal pioneiro, tal como Tapscott e Williams colocam, é a Wikipedia. O caso que eles utilizam como exemplar é o 7/7, os ataques suicidas a bomba no metrô de Londres no dia 7 de julho de 2005 que se iniciaram às 8h50 no horário local. “Dezoito minutos depois, enquanto a mídia se debatia para cobrir a história, a primeira entrada apareceu na Wikipedia (…). Em minutos, outros membros da comunidade começaram a adicionar informações e a corrigir os erros gramaticais”, escreveram em seu livro.

No entanto, o movimento não se reduziu a isso. Mais tarde, “os norte-americanos acordaram e milhares de usuários se uniram a rixa. No final do dia, mais de 25 mil usuários criaram um relato compreensivo de 14 páginas sobre o evento que era muito mais detalhado que a informação fornecida por qualquer veículo de mídia”, relembram. Mas, a pergunta que paira é como tantas pessoas, sem nenhuma verticalização do poder, podem criar produtos de qualidade para eles mesmos e para os demais que são o seu público? Para os defensores da “sabedoria das massas” na web, tal como Tapscott e Williams podem ser classificados, “a razão disso é a autosseleção (…). Quem, afinal, tem maiores chances de saber o escopo total de tarefas que você está melhor qualificado para fazer – você ou seu chefe?”

Linus Torvalds, o pai do Linux, é conhecido pela frase, lembrada por Tapscott e Williams, que diz que “as pessoas apenas se autoescolhem para realizar projetos onde eles tem expertise e interesse”. Só que, poderíamos perguntar, a especialização do usuário apenas explica uma parte da questão da qualidade no mass collaboration. Mas como evitar que os melhores trabalhos sejam escondidos pelos piores?

Ora, para os autores de Wikinomics, “desde que as comunidades tenham mecanismos para ceifar fracas contribuições, então grandes comunidades autoselecionadoras de pessoas em constante comunicação têm uma maior probabilidade de combinar as melhores pessoas para as tarefas”. Com isso, não é através de uma atitude de recusa que iremos melhorar a Wikipédia, mas sim, de incentivo por uma maior colaboração.

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Rafael Duarte OIiveira Venancio é jornalista, doutor em Meios e Processos Audiovisuais pela USP e professor da UFU

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