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Terça-feira, 21 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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E-NOTíCIAS > ENTREVISTA / MATHEUS PICHONELLI

‘É no impresso que está a origem da boa reportagem’

Por Paulo Pontes em 10/06/2014 na edição 802

Com o crescente avanço tecnológico e a popularização das plataformas digitais, temos hoje acesso rápido e ilimitado a todo tipo de informação e notícia, com uma atraente interatividade, afinal, textos, fotos, vídeos, infográficos e áudio, por exemplo, podem estar presentes em uma única publicação, aumentando o interesse do público. Com isso, o jornalismo digital ganhou forças e em muitos casos, se torna a melhor maneira do estudante entrar no mercado de trabalho. Mas como produzir bons textos para a web? Quais são os caminhos para sobressair em meio a tanta informação? E o impresso, vai deixar de existir?

Nesta entrevista, Matheus Pichonelli, colunista da CartaCapital – que já trabalhou como editor-assistente no site da revista –, respondeu a estas e outras perguntas, de forma clara e esclarecedora. Um material importantíssimo para quem pretende trabalhar, ou se aprofundar, no jornalismo digital.

Como foi sua iniciação no jornalismo online?

Matheus Pichonelli – Meu primeiro emprego foi no jornalismo online, quando passei em um processo seletivo para trabalhar na Gazeta Esportiva, que acabava de encerrar sua versão online. Eu era estudante de jornalismo e ganhava uma bolsa integral para trabalhar seis horas por dia (em tese) no site. Considero o meu primeiro emprego (até porque trabalhava mais de oito horas diárias, incluindo plantões de fim de semana).

Que tipo de cuidados o jornalista deve ter para produzir bons textos para a web?

M.P. – Há uma lenda segundo a qual ninguém consegue ler mais do que dois ou três parágrafos na internet. Já colocamos no ar textos enormes que tiveram milhares de compartilhamentos. E o tema era sempre espinhoso. Acho que tudo depende da forma como você se posiciona, como argumenta. As pessoas sentem necessidade de se posicionar em assuntos em pauta, como foi o caso dos protestos de junho ou o episódio do garoto amarrado ao poste no Rio. Há textos na internet que servem como baliza: com as redes sociais, o compartilhamento e as observações de quem compartilha servem como caldo para o debate. A pessoa “usa” o texto pra dizer aos amigos, colegas e familiares o que pensa do tema. Nos grandes portais, as fotos-legenda, sobretudo de bichos e celebridades, têm muitos cliques, mas a proposta é outra. Hoje é possível escrever bons textos, independentemente do tamanho, e ter audiência: com smartphones e uma boa resolução, as pessoas conseguem ler nas viagens, no sofá, no café, na fila do supermercado. Já não está apenas na frente de uma CPU, com a vista e o pescoço doendo na mesma posição. Nesse sentido, a regra passa a ser exatamente a mesma pra quem escrever em jornal e revista, as únicas que até então poderiam ser levadas a qualquer lugar: é preciso contar uma história de forma honesta e agradável, sobretudo sobre assuntos que as pessoas querem saber e se posicionar. Não tem como errar.

Em muitos casos, este tipo de jornalismo tem uma linguagem breve e fragmentada (não é o caso de seus textos). Você acha que estas características possam criar leitores desinteressados e preguiçosos?

M.P. – Acho que sim. Existem leitores que não querem se posicionar: querem apenas correr os olhos nas notícias e ter a sensação de estar bem-informado. Ou querem se entreter enquanto tomam seu café ou encerram uma tarefa no trabalho. O leitor não tem compromisso com o debate, e não é obrigado a ter. Há um jornalismo voltado a isso: ao leitor preguiçoso. Não é necessariamente um jornalismo preguiçoso porque é pensado e planejado.

Quais os caminhos utilizados para aprofundar a informação de forma a que leitores online consigam e se interessem em ler e acompanhar?

M.P. – Há uma vantagem no jornalismo online que é a possibilidade de você encaixar no texto uma caixa com leituras relacionadas (os famosos “leia mais”). Há também a possibilidade de o leitor clicar na assinatura do autor que lhe chamou a atenção, ou jogar seu nome no Google e encontrar textos inéditos para ele. A leitura, então, é estendida: se ele gostar daquela linha, vai ler sempre tudo o que o autor escrever e ele passa a ser uma referência. Esta é uma grande vantagem da internet: o texto quase nunca termina no ponto final.

Quais as principais habilidades de um jornalista que trabalha na internet?

M.P. – São basicamente as mesmas de um jornalista do impresso: precisa ter visão, precisa ter sensibilidade e precisa traduzir o que viu e o que sentiu. Na internet as coisas têm um tempo e os assuntos se esgotam. No jornal, a edição do dia seguinte pode chegar atrasada, quando o assunto em alta pode ser outro. Na internet, o texto, mesmo se não for um primor, pode ser privilegiado por chegar na hora certa, em um momento em que as pessoas estão tateando sobre determinado assunto. Em compensação, se chegar tarde, coisa de dois dias, está velho, a não ser que o assunto ainda esteja em alta.

Como é escolhido o conteúdo para web? Existe um conteúdo exclusivo?

M.P. – São vários os caminhos. Muita coisa é repercussão do que os jornais dão. Muita coisa nasce das próprias redes sociais: um comentário, uma foto, uma campanha independente pode ter uma repercussão que leve um site de opinião e análise, como o nosso, a recuperar a história, e se possível se posicionar sobre ela. Mas a agenda é basicamente a mesma dos jornais tradicionais: recebemos sugestões de pauta, analisamos, vemos se tem a ver com o nosso perfil etc. Muita coisa a gente não consegue acompanhar por pura falta de braço, e quase nunca de interesse. No nosso caso, os assuntos são bem delimitados: política, sociedade, cultura. Quase nada de entretenimento, por exemplo. Porque é um leitor que tem este perfil.

Qual a importância do diálogo com os programadores? Afinal, imagino ser muito difícil produzir um conteúdo de multimídia (integrando vídeo, áudio, texto, animação, infográficos) sem a ajuda destes profissionais. Como é feito este processo multimídia?

M.P. – Na internet, você tem o domínio quase completo da noticia. É como se você operasse a mesma esteira de produção em todos os processos: você escreve, programa, dá título, coloca tags, põe fotos, vídeos (muitas vezes da própria autoria), vende nas redes sociais e destaca na home. Às vezes, um estagiário ajuda na programação do noticiário nas redes sociais e pede autorização para mexer na home, geralmente uma responsabilidade da chefia. Mas a ideia é que todos saibam usar a mesma ferramenta, diferentemente do jornal ou revista impressa, em que você termina o texto e despacha para equipes que escapam do seu controle, como a diagramação (quase sempre) e impressão (sempre).

Como você trata o aspecto de interatividade com o público? Costuma ler os comentários e debater ou esclarecer os leitores?

M.P. – Eu, particularmente, evito. Já li muitos comentários que contribuíram e expandiram a ideia de um texto, e tenho interesse no que as pessoas vão dizer, sobretudo sobre cinema ou futebol (já recebi uma aula sobre futebol uma vez). Em temas polêmicos, que envolvem racismo ou sexismo, evito voltar ao texto porque mexe com instintos, e não com a razão das pessoas, que respondem muitas vezes agressivamente e perdem o foco da crítica. Às vezes percebemos que escrevemos bobagem por um ou outro comentário, mas em geral é bom se desapegar do texto assim que ele vai ao ar. Tudo para dizer que a participação dos leitores pode, sim, ser interessante, mas pode ser a manifestação mais pura daquilo que você condena no texto: a agressividade, a ignorância, o racismo, o sexismo etc.

Até que ponto este tipo de mídia pode ser lucrativa?

M.P. – Lucrativa em que sentido? Financeiramente? Se for, é necessário dizer: pouca gente descobriu como ganhar dinheiro com internet ou bom jornalismo. Que marca, por exemplo, tem interesse em se associar com um blog feminista, que bate em todos os estereótipos usados pelas próprias propagandas? Pode ser até que tenha empresas interessadas em anunciar, mas aí entra em conta outro funil: as equipes de marketing são quase sempre desconectadas com a ideia da publicação. Eles muitas vezes são responsáveis por vender uma ideia em que eles não acreditam ou ignoram (eles não participam das reuniões de pauta, por exemplo, e duvido que leiam o que vendem). Enfim, é um problema de perfil: buscam sempre os mesmos anunciantes, como montadoras e bancos, e perdem chances consideráveis de expandir os negócios. Nunca entendi, por exemplo, por que uma publicação como a CartaCapital tem uma presença tão baixa nas universidades ou centros culturais, que são um público-alvo importante e, até onde eu sei, distante da revista e do site. Isso se constrói com oficinas, palestras, promoções, campanhas etc. Não vejo isso atualmente.

Você acha que existe a possibilidade do jornalismo digital “matar” o impresso?

M.P. – Acho que é uma espécie de relação de parasitismo: quase não há site de referência sem um pé no jornalismo impresso, que ainda tem mais credibilidade e deixa mais fácil hierarquizar os anúncios e as notícias (o valor de uma página 2 é maior, por exemplo, do que uma página 17, por exemplo, e na internet tudo entra na mesma capa). Mas o jornalismo impresso não tem leitura se não estiver na internet, sobretudo nas redes sociais. A matéria não se expande se ficar só nas edições rodadas. Em compensação, é o jornalismo impresso que tem o tempo necessário para escrever uma leitura mais definitiva sobre determinado caso. Se a história for realmente forte, ela vai chegar ao dia seguinte com mais elementos do que informações dadas em trotes ao longo do dia pela internet. (Estou falando de um noticiário tradicional, não a análise em si. Por exemplo: na internet, a renúncia de um presidente é anunciada em poucas linhas e com a linha “mais informações em instantes”. Se acontecer em tempo hábil, terá uma infografia especial no papel, feito por quem teve tempo para respirar e pensar na edição.) Mas há um problema: o impresso tem um limite, o online não. O online tem audiência, mas não tem dinheiro; o impresso, salva alguma exceção, como a Veja, tem dinheiro, mas tem um público limitado. As pessoas já deram sinais de que preferem se informar pela internet: é mais rápido, mais barato e possibilita outras leituras, como vimos acima, que não se esgotam em uma edição impressa. Mas ninguém sabe exatamente como encaixar os anunciantes, como hierarquizar as campanhas, como não poluir a tela com produtos. Enfim, um tira força do outro, e também um alavanca o outro porque é no impresso que está a origem da boa reportagem ainda (estou falando de novo de reportagem, não necessariamente de opinião). O impresso é menos caótico, tem seções pensadas, cada espaço é pensado para determinada informação. Na internet é tudo jogado, e cabe ao leitor encontrar uma linha nesse caos. Mas a tendência é que cada vez menos pessoas estejam dispostas a pagar para receber em casa algo já lido em seus celulares. O impacto da internet, nesse sentido, é fatal.

Hoje, as pessoas têm acesso ilimitado à informação. Como fazer para sobressair, para ser lido em tal situação?

M.P. – Boa pergunta. É o desafio de dez em cada dez jornalistas. Acho que fazer um trabalho responsável e saber usar bem as redes sociais, que são a extensão de redes de interesses mútuos, é um primeiro passo. O Facebook facilitou em parte este trabalho: as pessoas recebem informações conforme suas afinidades expressas no botão curtir. Uma coisa leva a outra e se sua publicação tiver relevância, fatalmente o leitor chegará a ela, e passará aos amigos, e estes aos amigos etc. A dependência das redes sociais, em todo caso, é grande. Há empresas que caçam estes leitores e pagam para que empresas como o Facebook os levem até os leitores. Mas é, de toda forma, um desafio. Não basta fazer um texto bom e relevante em um debate. É precisa fazer muitos, em muitos debates. Se não, os assuntos mudam, as páginas viram, e o destino é a irrelevância. Do mais, há muita coisa produzida de forma independente, mas duvido que o mesmo leitor acesse mais de dez páginas por dia. Ele tem suas preferências, seus caminhos. Se for tratado com respeito, ele dará a honra de ter a sua página entre os favoritos.

O jornalista online está mais vulnerável? Já que os possíveis erros têm uma maior visibilidade, o profissional se sente pressionado?

M.P. – Acho que a base do problema está na pressa. O bom jornalista não é o jornalista ansioso, mas o jornalista frio, que consegue medir a temperatura da notícia e saber se é uma barrigada ou não. O comportamento de manada, em que todo mundo reproduz notícias irrelevantes pelo simples murmurinho de um dia sem notícias de fato relevante, é um mal que atinge as redações. A vantagem do impresso é que, se ela acontecer pela manhã, ela terá praticamente um dia inteiro para ser derrubada. Mas se acontecer no fechamento, a chance de ser noticiada é tragicamente imensa. Por isso tem jornais que preferem esperar o dia seguinte (o que significa, em jornal diário, publicar algo relevante dois dias depois. É um risco que poucos querem correr. Geralmente, coloca-se um “de acordo com o jornal concorrente” e lavam-se as mãos. Mas é um problema da natureza da profissão, que está relacionado também a outra questão: bons editores, que leem com critério e atenção, são raros. As faculdades são praticamente faculdades de reportagem e esquecem que o trabalho de edição é outra coisa: é basicamente administração de recursos e talentos. Se o editor pilha alguém a publicar a notícia o quanto antes porque não quer perder o furo e não consegue analisar com frieza o assunto, não dá para cobrar que o material saia um primor, a depender da sua complexidade. É assim no jornalismo online, impresso, televisionado, enfim, em tudo.

Qual a importância dos blogs em sua opinião? De alguma forma eles colaboram com o jornalismo digital?

M.P. – Acho que já foram mais relevantes em uma época em que as pessoas não estavam conectadas às redes sociais, que hoje concentram os comentários e opiniões de quem está na rede só para isso: fazer comentários e dar opiniões. O Twitter e o Facebook, de alguma forma, resolvem esta necessidade de se manifestar. E quem está conectado a esses comentaristas já se satisfaz em ler o que escreveram em seu mural, e não precisa digitar o endereço de um blog para saber o que eles pensam sobre determinado assunto.

O marketing tem muita relação e é muito utilizado no jornalismo. Sendo assim, como ele influencia na versão online?

M.P. – Acho que a resposta está, em parte, pulverizada acima. Na versão online, ele é muitas vezes confundido com spam. Você perde leitores se o marketing for malfeito. Ele pode sair da sua página e não voltar mais caso apareça um vídeo promocional enquanto ele lê uma notícia. Não sei exatamente como os anunciantes vão resolver isso.

O que pode ser feito para evitar uma “marketização” do conteúdo jornalístico? Ou seja, não sacrificar a qualidade e imparcialidade, apenas para deixar a notícia mais “comercial”?

M.P. – Acho que é um caminho quase sem volta. No marketing, as matérias produzidas sob demanda para determinado anunciante têm sido apontadas como solução, e não como um problema. E não é necessariamente um problema desde que seja claro que se trata de uma matéria encomendada. Isso, a longo prazo, pode atingir a credibilidade do veículo, mas ainda é cedo pra falar. De toda forma, há iniciativas online de crowdfunding, em que o veículo não só defende uma causa: ele é a causa. Mas ainda é algo muito iminente.

Qual o papel social do jornalista na era digital?

M.P. – É um papel considerável. O texto, se bem calibrado, rompe fronteira, pauta debates, chega a lugares que o offline, se não estiver na rede, não acessa. Logo, pode ser uma ferramenta de conhecimento, debate, conscientização, informação etc. Desde que bem-feito.

Qual é o trabalho desenvolvido pelo editor-assistente em um site de jornalismo?

M.P. – O editor assistente é praticamente um funil: o editor é quem assume a capa e a espada e vai batalhar em outras frentes, nas reuniões com os departamentos, inclusive financeiros, e vai decidir sobre férias, salários, frilas etc. O editor-assistente (aqui somos dois) é quem, no dia a dia, vai pautar, orientar, decidir o que entra e o que não entra, dar sugestões ao editor, mexer nos textos, analisar os destaques, coordenar a posição nas redes sociais, etc. Costumo dizer que o editor-assistente é o sujeito responsável por transformar o tijolo (que são os textos em forma bruta, pois muitos, incrivelmente, não sabem escrever, apesar de serem referencias em suas áreas) em bola pronta para o jogo.

[Para conhecer o trabalho de Matheus Pichonelli em CartaCapital, acesse  http://www.cartacapital.com.br/autores/Matheus-Pichonelli. Matéria originalmente publicada em: http://paulopontesblog.tumblr.com/]

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Paulo Pontes é estudante de Jornalismo

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