Segunda-feira, 21 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº987
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O drama do PC

Por Pedro Doria em 23/06/2014 na edição 804
Reproduzido do Globo.com, 17/6/2014; intertítulo do OI

Muitos dizem que as séries de TV estão substituindo o cinema americano. Lá se encontram os melhores roteiristas, grandes atores. Elas despertam burburinho, conversas, mexem com a imaginação. Algumas, como Game of Thrones e Mad Men, têm seguidores de uma fidelidade ímpar. E duas, agora, tratam do mundo da tecnologia. Uma é divertida. A outra tem o potencial de crescer muito. Quem sabe, virar clássica.

A divertida é uma comédia de situação, sitcom, chamada Silicon Valley. Coisa da HBO, que saiu da cabeça de Mike Judge, criador de Beavis e Butt-head.

Nela, um jovem programador com jeitão de Mark Zuckerberg (do Facebook) criou um aplicativo que pode comprimir todos os arquivos da internet para que fiquem com a metade do tamanho. Seria o santo graal digital se tal coisa fosse possível. Mas não importa. Entre vender a ideia para o atual patrão (uma espécie de Google) e arranjar uns tostões com um investidor, prefere o caminho mais arriscado.

Tem muito de estereótipo, mas a fórmula da sitcom passa por isso. O Vale do Silício ali retratado é quase perfeito. Os programadores se divertem em constatar que, na tela dos computadores da ficção, cada linha de código é real. E, ainda assim, para o público leigo, fica uma ideia de como é o Vale real. As muitas horas de trabalho a base de refrigerantes e energéticos, a média de três homens para cada mulher. As conferências. O eterno viver entre a possibilidade da riqueza absoluta e a frustração do fracasso. O sujeito um quê medíocre que calha de estar numa empresa que faz milhões, e o brilhante que não deslancha. As festas, o ar de campus universitário, e as ideias, muitas ideias que circulam. Tudo, sempre, motivo para graça.

Uma boa metáfora

É da AMC, o canal de Mad Men e Breaking Bad, a outra. Halt and Catch Fire, uma série dramática. Se passa no Texas em meados de 1983. O PC da IBM havia sido lançado fazia pouco tempo, e um executivo agressivo, entre o visionário e o impetuoso, quase um Steve Jobs, quer lançar um clone único. Portátil. Ainda no terceiro episódio, gera tensão contínua. Assim como o publicitário Don Draper, o protagonista tem um passado obscuro. Ao seu lado estão um programador talentoso e traumatizado por um fracasso recente, tentando manter o emprego, e uma jovem moça que parece genial. Uma que tem ideias de como o futuro da computação poderá ser. Num tempo em que ainda não era garantido o sucesso dos computadores pessoais, ela fala numa rede que pode uni-los todos.

Conforme Mad Men entra em sua temporada final, a AMC precisa de um substituto. Saem as agências publicitárias do meio século 20, dá um salto de duas décadas, cai no momento que transformará o mundo. As primeiras resenhas, porém, não lhe são de todo favoráveis. Mas, a se contar por esses três episódios, surpresas impactantes sobre o caráter dos personagens não faltarão.

Halt and Catch Fire, que se traduz por Pare e Entre em Chamas, vem de uma piada dentre os programadores dos anos 1970. Na época, imaginavam um comando que fizesse o computador gerar uma conta tão complicada que fosse capaz de superaquecer o processador. O computador entraria em chamas.

É uma boa metáfora para ambas as séries. Enquanto aquelas pessoas tentam a revolução, correm o risco de implodir. Uma levinha, a outra com grande potencial.

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Pedro Doria, do Globo

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