Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

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Oligarcas em pele de cordeiro

Por Lúcia Guimarães em 01/07/2014 na edição 805
Reproduzido do Estado de S.Paulo, 30/6/2014; intertítulo do OI

Você acorda e, antes mesmo de escovar os dentes, pega o tablet ou celular na mesa de cabeceira e dá uma olhada no feed de notícias do Facebook. Quanta notícia ruim. Dá vontade de voltar a dormir? Você não suspeita que um dos seus amigos acordou com notícias mais alvissareiras e pulou da cama. Acaso? Não, cientistas do Facebook conduziram um estudo com 689 mil membros, alterando algoritmos e manipulando o fluxo de notícias – negativas e positivas – para observar seu impacto sobre as emoções e a propagação das notícias. Depois de bombardear os membros com notícias diferentes, o Facebook monitorou as postagens dos membros para determinar se refletiam visões positivas ou negativas do mundo.

O resultado da pesquisa acaba de ser publicado nos Estados Unidos.

É difícil encontrar publicação científica mais respeitada do que Proceedings of the National Academy of Sciences, em que o estudo pode ser lido sob o título “Evidência Experimental de Contágio Emocional em Massa Através de Redes Sociais”.

Mas a editora da pesquisa do Facebook, Susan Fiske, da Universidade Princeton, entrevistada pela revista Atlantic Monthly, se confessou no centro de um dilema ético. Ela disse que a ideia de centenas de milhares de pessoas usadas como cobaias involuntárias é sinistra. Nos Estados Unidos, as pesquisas científicas conduzidas com seres humanos devem, quando parte de instituições públicas, ser aprovadas por um Comitê de Revisão Institucional para terem o selo de respeitabilidade ética e acadêmica. Uma das regras básicas da etiqueta científica é a pessoa que participa de uma experiência dar o seu consentimento. Adivinhem? Todos nós que temos conta no Facebook já autorizamos Mark Zuckerberg a nos usar como cobaias, embora a permissão seja meio vaga, numa referência à pesquisa. Faz parte do acordo de entrada no site, que determina que suas informações serão usadas “para operações internas, que incluem correção de erros, análise de dados, testes, pesquisa, desenvolvimento e melhoria do serviço”.

A utilidade dos sindicatos

Graças aos incautos aqui, cientistas do Facebook e das universidades da Califórnia e de Cornell, estabeleceram que “estados emocionais podem ser transmitidos aos outros por contágio, levando as pessoas a sentirem as mesmas emoções sem terem consciência delas”.

Considere, então, estar atravessando um momento pessoal particularmente difícil e ter a falta de sorte de ser o rato de laboratório escolhido para ser bombardeado com uma dieta diária de tragédias selecionadas pelo algoritmo do Facebook. Aqui, faço uma pausa para admitir que quem delega ao Facebook a tarefa de selecionar suas notícias já abdicou de muito.

A publicação do estudo, que apenas começa a despertar reação sobre sua ética, é uma boa oportunidade para fazer uma pausa e considerar a cultura do Vale do Silício, uma bolha de prosperidade que já saiu de sua última adolescência e se beneficia de uma vaga aura de virtude libertária. O moletom, uniforme usado por Mark Zuckerberg, não o aproxima de um operário de construção mais do que a camiseta furada que uso na ginástica me aproxima de uma refugiada síria na Jordânia. Há sete anos, o Facebook mantém um escritório com lobistas em Washington. Marissa Mayer, ao sair do Google, grávida, para assumir o Yahoo, decretou que os funcionários não poderiam mais “telecommute”, trabalhar de casa, algo que faziam, em parte, porque os aluguéis do Vale são proibitivos graças aos milionários techies. O que não a impediu de instalar um berçário no seu escritório.

Embora mais de 80% das doações da campanha presidencial de 2012 tenham ido para os cofres do Partido Democrata, é uma ilusão achar que os oligarcas contemporâneos estão afinados com o sufoco da grande maioria que não se beneficia de uma economia intensamente financeira e criadora de poucos empregos. Como disse Marc Andreesen, fundador do Netscape e proeminente financiador de start-ups, ele não vê mais utilidade para os sindicatos, já que as pessoas se vendem elas mesmas e suas habilidades no mercado. Admirável mundo velho.

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Lúcia Guimarães é colunista do Estado de S.Paulo, em Nova York

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