Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

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A equipe por trás dos polêmicos testes do Facebook

Por Reed Albergotti em 08/07/2014 na edição 806
Reproduzido do Valor Econômico, 4/7/2014; intertítulos do OI

Milhares de usuários do Facebook receberam uma mensagem perturbadora dois anos atrás. Eles estavam sendo excluídos da rede social porque o Facebook acreditava que eram “robôs” (softwares fazendo se passar por humanos) que usavam nomes falsos. Para serem aceitos de volta, esses usuários tinham que provar que eram pessoas reais.

Na verdade, o Facebook sabia que os usuários eram, na maioria, legítimos. A mensagem era um teste concebido para melhorar o sistema antifraude da rede. No fim, nenhum deles perdeu o acesso em definitivo.

O experimento foi obra do grupo de Ciência de Dados do Facebook, que tem cerca de 35 pesquisadores com acesso privilegiado a um dos mananciais de dados mais ricos do mundo: as atividades, ideias e emoções do 1,3 bilhão de usuários da rede social.

Esse grupo praticamente desconhecido foi exposto de repente aos holofotes esta semana por relatos sobre um experimento, realizado em 2012, que manipulou o feed de notícias de 700.000 usuários para mostrar a eles um número maior de posts positivos ou negativos. O estudo concluiu que os usuários que viram mais conteúdo positivo apresentaram uma tendência maior a expressar emoções positivas em suas próprias mensagens, e vice-versa.

A diretora de operações do Facebook, Sheryl Sandberg, disse na quarta-feira, durante uma viagem à Índia, que o estudo foi “parte de pesquisas que empresas fazem para testar diferentes produtos” e que “foi mal comunicado”.

A empresa afirma que, em vista da reação ao estudo, estava “examinando o processo com mais cuidado para fazer melhorias”.

Empresas veem usuários como voluntários

Até recentemente, o grupo de Ciência de Dados atuava com muito poucas restrições, segundo um ex-membro da equipe e pesquisadores de fora da empresa. Numa universidade, pesquisadores provavelmente teriam que pedir autorização dos participantes para um estudo desse tipo. Mas o Facebook se baseou nos termos de uso com que os usuários concordam ao se tornarem membros da rede social e que diziam, na época, que dados dos usuários poderiam ser empregados para melhorar os produtos do Facebook. Esses termos agora dizem que os dados poderiam ser usados em pesquisas.

“Não há um processo de revisão em si”, diz Andrew Ledvina, que foi cientista de dados do Facebook de fevereiro de 2012 a julho de 2013. “Qualquer um na equipe podia realizar um teste”, diz ele. “Eles estavam sempre tentando alterar o comportamento das pessoas.” Ledvina recorda uma ocasião em que ele e um gerente de produtos fizeram um experimento de menor alcance sem contar a ninguém mais da empresa. Testes eram realizados com tanta frequência, diz, que certos cientistas de dados receavam que alguns usuários, que eram anônimos, pudessem ser usados em mais de um experimento, comprometendo os resultados.

O Facebook afirma que, depois do estudo sobre as emoções, implementou diretrizes mais estritas para a equipe de Ciência de Dados. Desde o começo deste ano, pesquisas que vão além dos testes rotineiros de produtos são examinadas por um painel formado a partir de um grupo de 50 especialistas da empresa em áreas como privacidade e segurança de dados. O Facebook não quis revelar o nome dessas pessoas.

As pesquisas da empresa destinadas a publicação em revistas acadêmicas passam por uma revisão adicional, e uma porta-voz do Facebook disse que a empresa está considerando outras mudanças.

Desde sua criação, em 2007, o grupo de Ciência dos Dados já conduziu centenas de testes. Um estudo publicado destrinchou a comunicação de famílias; outro investigou as causas da solidão. Um terceiro examinou como os comportamentos sociais se espalham pelas redes. Em 2010, o grupo mediu como “mensagens de mobilização política” enviadas a 61 milhões de pessoas levaram membros das redes sociais a votar nas eleições parlamentares americanas.

Muitos dos cientistas de dados do Facebook são formados por importantes universidades em áreas como ciência da comunicação, inteligência artificial e biologia computacional. Alguns trabalharam em pesquisa acadêmica antes de entrar na empresa.

Adam Kramer, que fez doutorado em psicologia social na Universidade do Oregon e foi o líder do estudo sobre as emoções positivas ou negativas, disse numa entrevista no site do Facebook, em 2012, que entrou na empresa porque “era o maior campo de estudo da história do mundo”.

A maioria das pesquisas do Facebook é menos polêmica que o estudo sobre as emoções, testando, por exemplo, funções que levariam os usuários a passar mais tempo na rede social ou clicar em mais anúncios. Outras grandes empresas de tecnologia, como Yahoo Inc., Microsoft Corp. e Google Inc., também realizam pesquisa com os dados de seus usuários.

A controvérsia recente é “uma pequena mostra de uma prática bastante diversificada”, diz Kate Crawford, professora visitante do Centro de Mídia Cívica do Instituto de Tecnlogia de Massachusetts, o MIT, e uma líder de pesquisa na Microsoft Research. As empresas “realmente veem os usuários como uma base voluntária para testes experimentais”.

“Você acaba perdendo sensibilidade”

A equipe do Facebook atraiu um interesse particular porque ocasionalmente publica, em revistas acadêmicas, trabalhos que abordam as vidas pessoais dos seus usuários, como o estudo sobre as emoções.

“O Facebook merece crédito por publicar tantas pesquisas em domínios públicos”, diz Clifford Lampe, que é professor associado da Faculdade de Informação da Universidade de Michigan e trabalhou em cerca de dez estudos com pesquisadores do Facebook. Ele acrescenta que os pesquisadores ouvem e levam a sério as preocupações sobre seus estudos.

Ledvina, o ex-pesquisador do Facebook, diz que alguns pesquisadores debateram os méritos de um estudo semelhante ao que acusou usuários de serem robôs, mas não houve um exame formal e nenhum dos usuários no estudo foi informado sobre sua participação.

“Tenho certeza que algumas pessoas ficaram muito zangadas”, diz. “Internamente, você acaba perdendo um pouquinho da sensibilidade.”

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Reed Albergotti, do Wall Street Journal

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