Terça-feira, 17 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

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Mensagens via celular ameaçam as redes sociais

Por Rosa Jiménez Cano em 15/07/2014 na edição 807
Reproduzido de El País Brasil, 10/07/2014

As redes sociais não são mais uma vitrine de retratos adolescentes. São jovens, mas não inconscientes. Sabem que nesse território a privacidade não existe e, para cúmulo, é compartilhada com professores e familiares. Seu novo meio natural é o das aplicações de mensagens, íntimas e próximas. É verdade que estes programas já existiam no computador, e que o celular sempre teve SMS, mas nunca se esteve tão próximo de um contato até que se combinaram as duas opções. O catálogo é amplo. Em qualquer iPhone ou Android podem ser instalados até 24. O iMessage já vem instalados nos celulares da Apple. Line se diferencia com adesivos cômicos. Whisper, por criar um suposto anonimato. WhatsApp, por ser o mais austero. Snapchat, pela impossibilidade de guardar o recebido. Tango, KakaoTalk ou WeChat são praticamente clones.

Em It’s complicated. The social lives of networked teens (É complicado: as vidas sociais dos adolescentes conectados), a autora, Danah Boyd, investigadora da Microsoft e professora de Harvard, dá algumas chaves. Considera que estas aplicações são uma via de escape. Dá a eles a liberdade que não conseguem em uma vida cheia de atividades extra-escolares, entregas de trabalhos e exames.

Esta explosão dos serviços de mensagem passou do público juvenil ao âmbito profissional, onde Confide tem um papel relevante e já é o equivalente a Snapchat nos negócios. Impede as capturas de tela e o conteúdo tem data de validade.

David Ebersman, diretor financeiro de Facebook, reconhecia isso no relatório aos acionistas de outubro de 2013; “Contemplamos como diminuem os usuários diários, sobretudo entre os mais jovens.” Boyd considera isso um ciclo natural. Da mesma forma que aconteceu com o MySpace, são os jovens os primeiros a abandonar. O processo se repete com cada nova geração de internautas.

A consultora On Device realizou uma pesquisa com mais de 3.700 usuários em todo o mundo para mostrar como esta nova onda de aplicativos estava roubando público das redes sociais. Alistair Hill, seu conselheiro delegado, acha que a chave está na agenda de contatos: “Não há barreira de entrada. Não é preciso acrescentar ou aceitar ninguém, é direto e serve para as diferentes aplicações.” Segundo o contato seja profissional, comercial ou amigo, escolhemos as formas de mensagens.

Redefinição constante

Das redes sociais atuais, Twitter está em permanente redefinição. Nasceu com vocação de ser um serviço de mensagens, como pode ser visto claramente no esquema inicial que desenhou Jack Dorsey. Pretendia construir uma plataforma para contar aos companheiros de empresa o que estavam fazendo. Era algo assim como o chat de grupo para ver no computador ou no SMS, por isso a limitação de 140 caracteres. Nesta época, 2006, não era mais que um projeto paralelo de Odeo, uma plataforma dedicada a subir sons à internet, o equivalente aos blogs com som. Uma ideia que desapareceu assim que a Apple lançou sua plataforma de podcasts. Odeo deixou de fazer sentido e Twitter passou ao primeiro plano.

À medida que ganhou popularidade, a privacidade ficou diluída. Converteu-se no lugar para proclamar aos quatro ventos o que se estava fazendo. Comunicação de um a muitos, com a capacidade multiplicadora do botão de retuitar e a possibilidade de ter informação de primeira mão de famosos, cantores e esportistas. O lugar perfeito para compartilhar links e piadas, mas o inimigo natural da intimidade.

As redes sociais ficam relegadas para comunicar de um a muitos, para que algo seja público e obtenha difusão. A conversa mais pessoal encontrou seu espaço à margem, e anda no bolso. Mat Honan, analista da revista Wired, considera que o celular é o campo de batalha para fazer negócio nos países emergentes: “Seu primeiro contato com a Internet é através do telefone. Não surpreenderia que, por sua grande utilidade, sua adoção superasse as redes sociais.”

Facebook perdeu o encanto entre as novas gerações desde o momento em que chegavam a um lugar já conquistado. Esse ar de frescura desapareceu ao tirar o requisito inicial: ter uma conta de correio de uma universidade. Com 2,7 bilhões de usuários, Facebook desfruta de público, publicidade muito segmentada, tempo de navegação dentro da página, tudo que os investidores desejam, mas também sofre com a falta de adesão de seus futuros clientes.

Zuckerberg procura a salvação transformando o Facebook em um conglomerado de tecnologia. Comprou Oculus Rift para ter um pé no mundo da realidade virtual, mas também fez um grande investimento, 13,2 bilhões de dólares (29,34 bilhões de reais), para ficar com WhatsApp, um aplicativo com um crescimento estimado de um milhões de novos usuários por dia no momento da compra. Os analistas consideraram uma compra defensiva. Por um lado, WhatsApp evitava entrar na Bolsa e ficar sob as exigências dos investidores. Por outro, ratificava que Facebook Messenger não convence nem aos usuários mais fieis.

Slingshot, apresentado há menos de um mês é uma jogada inesperada para tentar subir ao bonde: para poder ver o que o remetente envia é preciso enviar uma foto como prova de amizade.

Usuários procuram contato imediato e privado

Enquanto isso, a Microsoft olha de relance para este fenômeno. No final do século passado liderou o campo com o Messenger. Foi sua aposta para encarar o ICQ, só para conhecedores de informática, e AOL, líderes nos EUA. Então o mundo digital girava ao redor do computador. Com o celular como matéria pendente, suas tentativas para se somar foram feitas através de compras milionárias. Primeiro com o Skype, líder em chamadas de voz, embora irrelevantes na hora de compartilhar texto. Depois com Yammer, um concorrente inicial do Twitter, que é oferecido como complemento à intranet corporativa. O caso do Google é ainda mais alarmante. Hangouts quer ser vídeo-chamadas, mensagens de texto no celular e chat no computador ao mesmo tempo, mas não é relevante em nenhum dos aspectos.

A Amazon se mantém à margem. Não faz o mesmo Rakuten, o gigante japonês do comércio eletrônico, que comprou Viber por 658 milhões de euros. Hiroshi Mikitani, seu conselheiro delegado, pretende torná-lo rentável acrescentando ofertas de compra aos 300 milhões de usuários ativos. São os únicos – junto a Line, que faturou 27,4 milhões de dólares (60,9 milhões de reais) em venda de adesivos virtuais – que oferecem um modelo de negócio realista. Nem WhatsApp, nem Snapchat, nem Confide, nem nenhuma das citadas apresenta interesse em ser rentável.

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Rosa Jiménez Cano, do El País Brasil

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