Sexta-feira, 22 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

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Facebook ‘detox’

Por Arnaldo Bloch em 29/07/2014 na edição 809
Reproduzido do Globo, 26/7/2014; intertítulo do OI

Não é a primeira vez que desativo minha conta do Facebook, decisão que completa, hoje, 13 dias. Já o fiz por períodos relativamente longos, de duas a três semanas, até no máximo um mês, quando precisava me dedicar a um livro, ou curtir minhas férias, longe de monitores e monitoramentos. Outras vezes, desliguei o Face por períodos curtos ou curtíssimos, em geral para evitar alguma situação desagradável, ou para “não ver” ou “não ler” algo que, apesar de me provocar dores e aporrinhações, eu me sentia impelido a espiar. Para não desfazer amizade com alguém de quem se gosta, preferia afastar-me até o grilo se esvair.

Neste sentido, o Facebook é muito generoso: permite que a gente se vá e volte sem pagar pedágio em dinheiro, quando e quantas vezes desejar. Na volta, se houver volta, estarão lá, intocadas, sua lista de amigos e sua “linha do tempo” desde o início dos tempos.

Há, contudo, um pedágio informacional e, até certo ponto, moral: para desativar a conta é preciso, primeiro, escolher de uma lista o motivo do desligamento. Há também um espaço para se estender sobre o caso com desabafos, teses sobre a Era da Informação ou cartas de despedida mais ou menos drásticas.

As opções são as seguintes:

1) Eu gasto muito tempo usando Facebook.

2) Minha conta foi invadida.

3) Não sei como usar o Facebook.

4) Isto é temporário. Eu voltarei.

5) Eu possuo outra conta no Facebook.

6) Recebo muitos e-mails, convites e solicitações do Facebook.

7) Eu não acho que o Facebook seja útil.

8) Não me sinto seguro no Facebook.

9) Tenho uma preocupação quanto à minha privacidade.

10) Outro.

Convívio seletivo

Verifiquei, como sempre, que, com exceção da opção 5, todas eram válidas. E, como sempre, marquei a número 4, tomado do temor de alguma punição de caráter infonatural. E ignorei, o quanto possível, as fotos de amigos que aparecem na tela antes do desligamento, com um reclame dramático, avisando que fulano e beltrano vão sentir “muita falta de você”.

A diferença, desta vez, é que não sei se vou realmente voltar. Diferença que, para o Facebook, não faz diferença, já que até os mortos, incapacitados de desativar suas contas, permanecem vivos no Face: seu perfil se converte num tipo de mural macabro involuntário que nem os parentes conseguem desfazer. O morto continua recebendo avisos de festas, tem suas fotos curtidas e recebem recados de amigos que ignoram o passamento.

Posso dizer que, se eu morrer agora, deste susto não morrerei. Posso dizer, também, que nunca me senti tão vivo. Saí porque quis sair, sem um motivo específico além de um terrível mal-estar generalizado, talvez associado a outros fatores, mas, certamente, agravado exponencialmente, pelo turbilhão de relações que o Face engendra naqueles que, como eu, gostam de explorar todas as dinâmicas do pertencimento a um universo, seja ele paralelo, perpendicular ou oblíquo.

Nos primeiros dias, sem que estivesse de férias ou concentrado num projeto de fôlego, não foi fácil. Parecia a retirada de alguma droga, mas sem a possibilidade de redução gradual. A todo momento, diante do computador ou do celular, na rua, no carro, no trabalho, vinha-me o gesto automático de checar, no Face, os novos posts, os comentários às minhas próprias postagens, as mensagens pessoais, ou o impulso de publicar uma frase, um pensamento, uma foto, uma piada, e, imediatamente, a constatação de que não há um Face e que, em seu lugar, há uma vida a ser vivida sem muletas intersubjetivas. Para suportar a abstinência, a saída era injetar no pensamento sentenças afirmativas e suportar o vazio imediato.

Um vazio sem mensagens ou despejos, mas cheio de coisas: o engarrafamento, sim, as conversas chatas, o nada-para-fazer, a falta de companhia – mas, também, o céu sem fotografia, os sorrisos de toda a gente, os papos bons, mais tempo para o piano lá na sala, para o amigo que quer conversar, para aquele livro que aguarda na prateleira.

De repente, comecei a ler mais, comer e pensar com calma, dormir mais cedo e com maior placidez. Não corri para a TV (ando afastado, também, das séries) nem busquei substitutos correlatos, contentando-me com uma ou outra foto no Instagram, que permite um ritmo contemplativo e o contato selecionado com imagens bem mais significativas que o Fla-Flu estéril que vem provocando uma explosão de ignorância no Face.

Reduz-se também a tentação da vaidade e cresce a coragem de não publicar o link da crônica aos sábados (é fácil achar em oglo bo.com.br/cultura), de assumir o risco de perder leitura, de perder contato, de perder o que for. Cometi um deslize: esqueci de avisar aos amigos do advento de me desligar. Logo recebi dezenas de mensagens, por e-mail e até através de parentes, de amigos magoados por eu os ter supostamente bloqueado do convívio redessocial. Não é nada disso. Meu e-mail está aí em cima e o Facebook não é a praça definitiva da existência humana. Agora vou ouvir um som e puxar um ronco.

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Arnaldo Bloch é colunista do Globo

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