Quarta-feira, 19 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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Memórias do futuro

Por Cora Rónai em 05/08/2014 na edição 810
Reproduzido do Globo.com, 1/8/2014; intertítulo do OI

Muita gente acusa a tecnologia de ser a grande vilã do universo das brincadeiras infantis: as crianças não vão mais para a rua, não dançam ciranda nem pulam corda. Em vez disso, passam o tempo livre coladas nos celulares ou em frente à televisão, jogando videogames. Pois em Mato Grosso do Sul um lindo projeto de preservação e resgate de brincadeiras populares não só mostra que isso não é bem assim como tem nos pequenos aparelhos os seus maiores aliados.

O projeto, que se chama Memórias do Futuro, propõe a valorização das brincadeiras como parte da educação, além do seu registro num banco de dados on-line, a fim de garantir que essa parte fundamental da nossa cultura não desapareça. Ele foi posto em prática através da seleção de 20 jovens bem entrosados nas suas comunidades, não só urbanas, mas também indígenas, quilombolas e ribeirinhas, e do seu treinamento em técnicas de audiovisual. A partir daí, armados com celulares, eles passaram a pesquisar, documentar e divulgar o universo das brincadeiras e hábitos das crianças em suas comunidades. Os filmes, textos e fotos que produziram registram também a memória da infância dos mais velhos.

Na Escola Jatobazinho, no Pantanal, à beira do rio, debaixo de uma árvore magnífica, as crianças transformam plantas aquáticas em bonequinhos, espetando palitos como pernas e braços no miolo verde e redondo; na Aldeia Amambai, os adultos participam de uma grande roda de dança para mostrar aos pequenos como faziam no seu tempo; em Campo Grande, meninos dão uma verdadeira aula sobre a arte de construir pipas. Tudo isso faz parte do que a equipe do projeto define como “cultura da infância”, ou seja, o conjunto de experiências do ser humano ainda novo, que está descobrindo o mundo ao seu redor. O objetivo de recolher esse acervo é bem claro:

“A equipe do Memórias do Futuro considera fundamental oferecer às crianças do mundo este tempo de infância, em que o brincar é sagrado! Tempo esse com a qualidade, a serenidade e a contemplação que lhes é de direito. Um tempo sem pressa, de paz, de relações saudáveis, de amor, alegria e muito respeito.”

Boa ideia

O Memórias do Futuro virou realidade há dois anos, numa correalização do Espaço Imaginário e do Pontão de Cultura Guaikuru, e deu tão certo que acabou “exportado” para outros estados. Seus jovens pesquisadores, trabalhando em conjunto com professores e orientadores de audiovisual, produziram mais de cem vídeos muito simpáticos e bem feitos. O material já foi apresentado em emissoras públicas de televisão e distribuído em dois mil DVDs gratuitos a escolas e instituições ligadas à infância no Brasil. Ele também pode ser encontrado em memoriasdofuturo.com.br, mas o portal, ainda que seja uma boa ideia, peca pela navegação confusa.

Memórias do Futuro é um dos seis finalistas do 1º Prêmio Nacional de Projetos com Participação Infantil, realizado pelo Cecip (Centro de Criação da Imagem Popular) com o apoio da Fundação Bernard van Leer, do Instituto C&A e da Unicef. A premiação será no próximo dia 5 de agosto, no Rio. Os outros cinco – escolhidos entre mais de cem inscritos do país inteiro – são + Criança na Rio+20, da Fundação Xuxa Meneghel, do Rio de Janeiro; Ser Criança, do Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento, Araçuaí (MG); Escola de Ser, do Centro de Orientação em Educação e Saúde (CORES), de Rio Verde (GO); Projeto de Escuta de Crianças Para Construção do Plano Distrital pela Primeira Infância, da Secretaria de Estado da Criança de Brasília (DF); e Escola de Comunicação da Meninada do Sertão, da Fundação Casa Grande Memorial do Homem Kariri, de Nova Olinda (CE).

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Cora Rónai é colunista do Globo

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