Segunda-feira, 18 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº991
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Para acreditar no ‘hype’

Por Renato Cruz em 19/08/2014 na edição 812
Reproduzido do Estado de S.Paulo, 17/8/2014; intertítulo do OI

A expressão “internet das coisas” foi colocada pela consultoria Gartner como o ponto mais alto do “pico das expectativas exageradas” em seu relatório Ciclo de Hype para Tecnologias Emergentes 2014, divulgado na semana passada. “Hype” significa promoção excessiva e teve origem, provavelmente, na contração da palavra “hyperbole” (hipérbole).

O setor de tecnologia é cheio de “hype”. Produtos e conceitos surgem e passam a ser discutidos como se fossem a resposta para todos os problemas. Esse hype acaba por direcionar a indústria, a atuação de empreendedores e a decisão de investidores. A web já foi alvo desse tipo de atenção a partir de meados dos anos 90, o que acabou gerando a bolha de tecnologia que estourou em 2000.

A internet das coisas é a tendência de que todos os produtos e equipamentos passem a ser conectados. A comunicação entre máquinas, sem intervenção humana, deve ultrapassar em muito a comunicação interpessoal ou o acesso à informação por pessoas. Ela passa pelos carros autônomos e pelas cidades inteligentes (cheias de câmeras, sensores e processamento em tempo real de dados de inúmeras fontes), pelos robôs industriais que não precisam ser programados e pelas casas automatizadas, que sabem o que fazer com base no comportamento dos residentes.

Sem enjoar

A Gartner analisou mais de 2 mil tecnologias de 119 áreas, e as dividiu em cinco estágios do “ciclo do hype”: gatilho da inovação, pico das expectativas exageradas, vale da desilusão, aclive do esclarecimento e platô da produtividade. Ou seja, a tecnologia surge, atrai uma atenção excessiva, decepciona as pessoas, começa a ser entendida de forma realista e, finalmente, é incorporada ao cotidiano.

Segundo a Gartner, a tradução da fala em tempo real está próxima de chegar ao pico das expectativas exageradas, assim como os veículos autônomos, que não precisam de motorista. A impressão tridimensional para uso doméstico e as criptomoedas (como bitcoins) estão deixando esse pico e se movendo para o vale da desilusão. A realidade virtual começa a sair do vale da desilusão, rumo ao aclive do esclarecimento.

A realidade virtual tem uma história curiosa. Há mais de 20 anos, a tecnologia de óculos especiais que permite interagir com um ambiente eletrônico imersivo, criando uma alternativa à realidade, vem sendo promovida pela indústria. Nunca pegou de verdade. Recentemente, o entusiasmo voltou com o surgimento do Oculus Rift, comprado pelo Facebook, que promete realidade virtual sem enjoos. Esse era o principal problema da tecnologia original, insuportável para uma boa parcela da população.

Mas cabe a cada consumidor decidir se deve, ou não, acreditar no hype.

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Renato Cruz é colunista do Estado de S.Paulo

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