Sábado, 15 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Crianças cada vez mais conectadas

Por Bruno Capelas em 26/08/2014 na edição 813

Aos 9 anos de idade, Gabriel passa os finais de semana jogando ‘Minecraft’ enquanto conversa com seus amigos pelo Skype em chamadas de voz, “porque parar o jogo para digitar não daria certo”. Com 10 anos de idade, Emília conversa com as amigas no Facebook enquanto vê um filme pela Netflix. Também com 10 anos, Gustavo joga games de futebol pela internet a tarde toda com pessoas de diversas partes do mundo ou assiste a vídeos sobre jogos no YouTube, enquanto planeja criar seu próprio canal de vídeos para ganhar dinheiro.

Os três, assim como milhões de jovens no País, fazem parte de uma geração que já nasceu conectada e que usa cada vez mais plataformas para jogar e interagir com seus amigos. Segundo a pesquisa TIC Kids Online 2013, divulgada pelo Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br) em julho, 79% dos jovens conectados à web entre 9 e 17 anos no Brasil estão em alguma rede social; em 2012, eram 70%.

Pelas suas atividades online, Gabriel, Emília e Gustavo, porém, podem ser considerados clandestinos digitais. Isso porque a maioria dos serviços que utilizam – incluindo redes de jogos como Minecraft e League of Legends – não são permitidos para menores de 13, 16 ou 18 anos (veja tabela abaixo), de acordo com suas condições de uso.

“Tenho Facebook desde 2010, e para me cadastrar disse que eu tinha 22 anos, a idade do meu irmão mais velho. Sempre faço isso com qualquer coisa que me pede idade”, diz Gustavo. Ele não é o único: 37% dos jovens conectados do País usam idades falsas em seus perfis em redes sociais – entre 9 e 13 anos, a proporção vai para 55%, aponta pesquisa do NIC.br.

Caso sejam descobertos pelas empresas, os “pequenos usuários” podem ter suas contas excluídas de plataformas como Facebook, Instagram, Twitter e contas do Google, que incluem serviços como YouTube e Gmail, muitas vezes utilizadas não só para entretenimento, mas também para educação.

“O Gustavo costuma passar a tarde assistindo vídeos de receitas no YouTube, e vive surpreendendo a gente na cozinha com coisas fáceis”, conta Sandra, mãe do garoto que também usa o Facebook para saber sobre as tarefas da escola em um grupo com seus colegas de sala.

Para a professora da Universidade da Califórnia Mimi Ito, estudiosa do comportamento jovem na internet, as empresas de tecnologia precisam ter uma postura mais ativa com relação aos direitos das crianças. “Na maior parte das vezes, as empresas só incentivam as crianças a saírem das plataformas”, diz.

Empresas

Esta postura pode mudar em breve. Na última semana, o jornal Financial Times publicou que o Google estaria desenvolvendo uma versão de seus serviços para menores de 13 anos, permitindo aos pais o controle das atividades de seus filhos em sites como o YouTube. Questionado pelo Link, o porta-voz do Google não quis comentar a notícia.

Em junho, o Facebook conquistou nos EUA o direito sobre uma patente que também permitiria a adoção da plataforma por menores de 13 anos – estimativas da consultoria Consumer Research dão conta de que há 5,6 milhões de perfis ‘clandestinos’ de crianças na rede. Ao Estado, o Facebook admitiu a existência da patente, mas diz não ter planos de mudança de suas políticas, mas apenas continuar a conscientização dos pais. Procurados pela reportagem, WhatsApp e Snapchat não responderam aos pedidos de esclarecimentos.

Há quem veja nas crianças uma oportunidade de negócio educativo. É o caso do aplicativo norueguês Kuddle, que pretende ser um “Instagram para crianças”, permitindo o compartilhamento de fotos e imagens criativas feitas pelos pequenos, em um ambiente isolado e motivacional. “Meu filho de 7 anos queria estar nas redes sociais como suas irmãs, mas não consegui achar nada que fosse divertido e seguro para ele”, conta o CEO da empresa, Ole Vidar Hestaas. Criado há um mês, o aplicativo tem crescido entre 10% e 15% por dia nas últimas semanas, e chega ao Brasil em breve.

Supervisão

Para a maioria dos pais, é um desafio tentar educar os filhos com tantas novidades da interação virtual, especialmente pela quantidade de diferentes serviços e o tempo que seus filhos passam na internet, sem falar no próprio hábito de usar a rede (46% dos pais de crianças conectadas não costumam acessar a internet).

“Ele alterna a TV com videogame e computador. Eu não gosto, mas ele não tem muita opção morando na cidade, não dá para brincar na rua”, conta a mãe de Gustavo, que diz ser amiga dos colegas de sala do filho no Facebook e supervisionar o que eles fazem na rede social.

A professora Mimi Ito acredita que o desconhecimento da tecnologia não é desculpa para os pais “largarem mão” da educação online dos filhos. Mãe de duas crianças, a educadora Priscila Gonsales, do Instituto EducaDigital, avalia que a melhor conduta para os pais lidarem com a questão é o diálogo.

“Não dá para proibir. O que importa é conscientizá-los que, a cada vez que eles postam alguma coisa, o mundo inteiro está vendo, e nem sempre tudo é necessário”, conclui.

***

‘Eu nunca adicionaria meus filhos no Facebook’, diz pesquisadora

Entrevista com Mimi Ito, professora da Universidade da Califórnia e estudiosa do comportamento jovem na internet

Mãe de dois adolescentes e professora da Universidade da Califórnia, a nipo-americana Mimi Ito estuda a maneira como os adolescentes e crianças se comportam na internet, tendo chefiado o Digital Youth Project, pesquisa de 2008 que mostrou como os jovens estão usando a rede para novas formas de aprendizado, amizade, relacionamentos amorosos e busca por informações. No Brasil a convite do Google para a série de palestras Think with Google, Mimi falou ao Link sobre como os pais e educadores devem lidar com o mundo digital, em temas como privacidade, bullying e o crescente uso de dispositivos móveis.

A maioria das pessoas acha que interações online são diferentes do ‘mundo real’. O que a senhora pensa sobre isso?

Mimi Ito – Para a maioria das crianças, o principal uso da internet é uma extensão dos relacionamentos que elas têm ao vivo: elas mandam mensagens ou conversam com os amigos no Facebook — o que nós chamamos de redes de amizades. Mas muitas crianças usam a internet para ter acesso a novas informações, em redes como fóruns e plataformas de games. Nesses ambientes, elas também fazem amigos. Elas, entretanto, tem uma divisão muito clara desses ambientes: seria estranho ter um adulto ou um estranho por perto no Facebook, porque é nesses ambientes que elas se relacionam, fazem amizades ou flertam entre si. Há uma noção muito própria de privacidade e discrição. Meu filho é um gamer, joga com estranhos toda hora, mas eles se conectam por ter o mesmo interesse. É diferente das pessoas com quem ele está mandando mensagens ou conversando no Facebook.

Por que é tão difícil para os pais entender essa diferença?

M.I. – Existem experiências que não foram absorvidas pelo intervalo de gerações. Para o meu filho, jogar em uma liga de StarCraft é tão importante quanto um campeonato de basquete – mas isso não acontece para as maioria dos pais, porque eles não tiveram essa vivência. Nós, como pais, temos de educar a nós mesmos sobre o que está acontecendo, e querer nos envolver, assim como fazemos com os jogos de basquete ou as apresentações de balé dos nossos filhos. É algo normal, mas que muitos pais parecem ter desistido com o mundo online, só porque não é algo familiar a eles.

E como os pais podem se envolver sem invadir a privacidade dos filhos? Um pai deve ser amigo do filho no Facebook?

M.I. – Aí entra a diferença entre redes de interesse e redes de amizade. Eu nunca adicionaria meus filhos no Facebook: eles não querem que eu saiba por quem eles estão apaixonados, ou quem são os mais populares da sala. Pelo contrário! Conversamos sobre isso no jantar, mas não preciso ter contato com isso. Por outro lado, me envolvo nas redes de interesses deles. Jogo MineCraft com meus filhos, tento saber o que é um Tumblr ou o StarCraft. Se as crianças entenderem que o seu interesse pelo que eles gostam é genuíno, será ótimo: elas querem que você saiba o que é o StarCraft, assim como querem que você veja o seu jogo de futebol. Mas elas vão perceber se você estiver por perto só para tentar controlar o que elas fazem – e vão se rebelar por isso.

Uma pesquisa recente no Brasil diz que quase metade dos pais das crianças conectadas do País não usam a internet. Como eles podem educar seus filhos para usar a rede? Eles precisam necessariamente estar conectados e usar redes sociais, por exemplo?

M.I. – Os pais precisam ver que seus filhos podem ajudá-los a entender a tecnologia, e prover a eles a sabedoria para lidar com a tecnologia. Muito do que nós estamos falando aqui é apenas sobre aprendizado e como se comportar em sociedade. É uma parceria: eles conhecem as ferramentas, nós podemos ajudar a dar os valores.

O cyberbullying é um dos temas mais discutidos quando se fala em tecnologia e adolescentes aqui no Brasil. No que ele é diferente do bullying?

M.I. – Comportamentalmente, ambos são a mesma coisa. Com a tecnologia, as coisas viajam mais rápido e são mais difíceis de serem esquecidas, é algo mais danoso. Entretanto, há um lado positivo: a tecnologia está tornando o bullying vísivel. Antes, ele acontecia em vestiários e na saída da escola, e os adultos não tinham acesso ao que acontecia. Na internet, os pais e os educadores podem ver o que acontece. Às vezes, a percepção de que as redes sociais geram o bullying é errada: ela só está tornando visível algo que já acontecia. Repito: não monitoro o Facebook dos meus filhos, mas eles são orientados a me avisarem quando coisas assim acontecem. As escolas também estão fazendo isso.

Outra preocupação crescente dos pais é como as crianças tem usado cada vez mais a internet nos celulares e tablets. Como a senhora vê isso?

M.I. – O mobile cresceu muito, mas seu estilo de comunicação hoje, via Whatsapp ou Snapchat, não é diferente de uma mensagem de texto. A mudança para o celular, há cerca de dez anos, é que fez a diferença, porque deu um espaço privado para os jovens. O que mudou é que, antes, com SMS, elas se comunicavam com no máximo dez pessoas. Hoje, com o Whatsapp, podem ser centenas de pessoas. Mas vale lembrar: elas estão fazendo isso de forma privada. Os jovens não acham mais que o Facebook é um espaço seguro para sua comunicação íntima, porque os professores vão olhar o que eles estão fazendo.

Como as escolas podem incorporar essa tendência?

M.I. – Elas têm se envolvido nos relacionamentos das crianças: quando as coisas evoluem para bullying, elas tomam posições. As escolas tem ensinado sobre cidadania digital e participação, como fazem com outras questões sociais. Onde a educação formal tem sido pouco pró-ativa é nas redes de interesses. Comunidades online dão muito mais acesso a conhecimentos que uma escola pode oferecer, mas poucas delas estão usando a internet com essa fonte de pesquisa, e continuam tentando produzir todo o conteúdo e expertise localmente. Isso não precisa acontecer.

Existe alguma idade mínima para que uma criança comece a usar a internet?

M.I. – Não sei dizer. A linha dos 13 anos imposta pelas empresas é arbitrária, mas tende a ser nessa idade que a criança começa a ter a sua vida de forma independente e os pais precisam monitorar menos o que elas fazem. Na verdade, o requisito mínimo é mais o envolvimento e o diálogo que existe entre pais e crianças, e menos o que elas fazem.

E o que a senhora acha que as empresas de tecnologia estão fazendo para lidar com esse público crescente?

M.I. – Elas precisam ser mais pró-ativas para atender esse público: a maioria das empresas dizem que as crianças só podem usar seus serviços a partir dos 13 anos. Não há conscientização ou considerações como elas podem usar a internet de um jeito bacana. Só há a falta de incentivo. Vejo que as empresas de tecnologia tiveram postura ativa em questões como a privacidade de seus usuários, mas não nos direitos das crianças. É preciso que elas entendam isso, porque são as plataformas que as crianças usam para aprender, são úteis para a educação.

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Bruno Capelas, do Estado de S.Paulo

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