Sexta-feira, 14 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Secret é o WikiLeaks do ego

Por Ronaldo Lemos em 26/08/2014 na edição 813

Nas últimas semanas, o Secret deu o que falar. Trata-se do aplicativo que permite revelar “segredos” para amigos e conexões nas redes sociais, mas de forma anônima. Dá para falar o que está na cabeça sem ninguém saber ao certo quem está falando. A única informação é se o autor é amigo, amigo de amigo ou se é alguém com quem não temos relação direta.

O aplicativo está causando. Nos EUA, já vinha sendo usado para soltar fofocas sobre colegas de trabalho e até para vazar segredos industriais. No Brasil, os problemas estão só começando. Uma saraivada de questões sociais e jurídicas já aparece no horizonte. Pessoas ofendidas no app ameaçaram pedir na Justiça que ele seja retirado do ar (o que legalmente não deve acontecer).

Para quem já entrou na brincadeira, vale lembrar que o anonimato é aparente. Pela lei, o Secret é obrigado a manter os registros dos usuários por no mínimo seis meses. Quem é ofendido com conteúdo ilícito pode pedir na Justiça a informação sobre quem é o autor do post.

Mais interessante ainda são os aspectos sociais do Secret. O aplicativo é um verdadeiro “WikiLeaks do ego”. Em 1967 Guy Debord já se queixava da vida privada virando espetáculo. Ao comentar um anúncio das antigas câmeras Emig, que tinham o slogan “Amo Minha Câmera Porque Amo Viver: Gravo os Momentos da Vida para Revivê-los Quando Quiser”, ele dizia: “isso evoca a petrificação da vida individual, que se converteu também em economia do espetáculo”.

Na torcida

Com o Secret, não é só a vida privada que vira espetáculo. É o próprio subconsciente. Pensamentos íntimos que não ousamos tornar públicos agora têm um canal direto com nosso círculo. Guy Debord, que hoje já estaria chocado com o Instagram, repensaria até onde pode chegar o espetáculo com o Secret.

O aplicativo espertamente resolve também outro problema: o da economia da atenção. Em um mundo tomado por uma avalanche de informações, o Secret embala seus conteúdos como “segredos”, capturando nossa curiosidade. Isso ocorre mesmo que boa parte dos posts feitos no Brasil ainda seja boçal.

Mas isso não é razão para ignorar o Secret. Agora que entramos no período eleitoral, o aplicativo pode ser usado como fórum de debates, menos polarizado do que os algoritmos das redes sociais. Um exemplo dessa possibilidade ocorreu no conflito atual em Gaza. Como notou o cientista de dados Gilad Lotan, a cobertura dos jornais e os algoritmos das redes permitem em geral enxergar só um lado da questão.

Inesperadamente, o Secret foi onde o debate ficou mais equilibrado. Na visão dele “a combinação de anonimato com amarras a nossas relações sociais acalmou os ânimos em um debate tipicamente marcado pelo extremismo”. Vou torcer utopicamente para o Secret virar o lugar onde o debate eleitoral mais profundo e interessante vai acontecer.

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Ronaldo Lemos é advogado e diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro

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