Sexta-feira, 21 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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Vai no ‘quilo’ ou no ‘bufê’, chefe?

Por Demi Getschko em 26/08/2014 na edição 813
Reproduzido do Estado de S.Paulo, 25/8/2014; intertítulo do OI

Uma das rupturas da internet em relação à gestão tradicional das telecomunicações está na maneira de tratar a cobrança dos serviços. Na internet a forma de cobrar nunca foi preocupação. Já nas telecomunicações geridas pela União Internacional de Telecomunicações (ITU), gerar a “conta” para o usuário é tema central.

A telefonia tradicional usa uma tecnologia conhecida como “comutação de circuitos”. Um caminho é reservado entre origem e destino durante toda a conexão telefônica, mesmo que o usuário fique em silêncio. E a cobrança leva em conta a duração e a distância da chamada. É bem mais caro ligar para alguém na Ásia que para um vizinho de bairro. Na internet a tecnologia é outra: a “comutação de pacotes”, usada no TCP/IP. Os “pacotes de dados” originários de uma “conversa” disputam com outros “pacotes” os caminhos possíveis na rede, gerando uso mais eficiente dos recursos. Nem o tempo de conexão, nem a distância fazem parte do ambiente internet.

É verdade que no início, quando a infraestrutura era precária e o acesso à internet era ainda sobre telefonia, a forma usual de cobrança podia envolver o tempo de conexão. Mas à medida que os cabos ópticos e a banda larga se disseminaram, aumentou tremendamente a capacidade de transmissão e a internet pôde voltar ao modelo de cobrança baseado em aluguel de “banda”, de capacidade, tornando-se esse o padrão para a conexão doméstica.

Cobrar por capacidade pode parecer estranho se comparado à telefonia, mas há muitos casos rotineiros em que se paga algo fixo, definido estatisticamente. Aluguel de automóvel sem limite de quilometragem, passaporte para parque de diversões e restaurantes fornecem exemplos. Pode-se ir a um restaurante e pagar fixo (“bufê”) com consumo livre, ou escolher pagar pelo “peso” da refeição. Ambos os modelos se sustentam perfeitamente.

Postura reflexiva

Voltando ao acesso doméstico à rede, o usuário pode escolher quanta “banda” quer contratar (qual a “bitola do cano” que o conectará à rede) e o provedor usará uma tabela calculada estatisticamente para definir o valor a cobrar. É sobre essa banda IP que rodarão serviços de texto, som, vídeo ou, até, telefonia. É o modelo internet em ação. Por outro lado, se o assinante de um serviço móvel faz uso de 3G ou 4G, ele estará usando como base de acesso a telefonia tradicional. Sobre ela poderá receber internet e seus serviços, mas neste caso a estrutura subjacente tem sua raiz no modelo telefônico.

Ou seja, a forma de cobrança pode se basear, agora, na utilização da infraestrutura, no consumo, e não na capacidade de banda. Diga-se, por sinal, que a estatística aqui é bem mais complexa porque pode haver concentrações típicas em eventos, congestionando a célula local que atende os assinantes em cada instante.

Usar a rede sem preocupações com tempo de conexão e com tráfego de dados gera uma postura mais reflexiva, mais contributiva e traz mais riqueza à internet. À época do acesso discado, depois da meia-noite o gasto era um único pulso telefônico e muitos esperavam a madrugada para ir à rede. Esta restrição ficou no passado. Que outras, evitáveis, não surjam hoje.

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Demi Getschko é conselheiro do Comitê Gestor da Internet e colunista do Estado de S.Paulo

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