Sábado, 25 de Maio de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1038
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Googlefobia

Por ‘The Economist’ em 09/09/2014 na edição 815

Verboten! [Proibido!] Essa parece ser a reação tradicional da Alemanha a quem perturba serviços digitais. Um tribunal em Frankfurt impôs uma medida cautelar contra a empresa Uber, que oferece serviços de transporte coletivo e foi fundada no Vale do Silício. O caso foi levado à justiça pela indústria de táxis alemã, que alega que aquele serviço representa riscos de segurança para os passageiros e burla a legislação de transporte.

A proibição da Uber não representaria grande coisa por si só. A empresa vem provocando a fúria dos taxistas em inúmeros outros países. Mas é outro indício da crescente hostilidade da Alemanha para com empresas de tecnologia norte-americanas. O Google (cujo presidente-executivo, Eric Schmidt, faz parte da diretoria da empresa proprietária do Economist) tem estado no centro de críticas cada vez mais histéricas. Mathias Döpfner, diretor da maior editora de jornais alemã, a Axel Springer, comparou o Google ao gigante Fafner do Anel dos Nibelungos, de Wagner. Artigos de jornais referem-se ao Google como um “polvo” que vai aumentando o número de tentáculos. Quando surgiu, no final do ano passado, a história de que o Google estava operando uma frota de balsas com contêineres, proliferaram especulações sobre a possível construção de um império flutuante para além do controle dos Estados nacionais.

Os temores alemães podem ter consequências políticas. Sigmar Gabriel, ministro da Economia, sugeriu que a empresa se separasse em várias unidades. E a Alemanha vem pressionando Joaquín Almunia, em vias de sair de seu cargo na Comissão Europeia, para que reabra um acordo que sua equipe negociou com o gigante digital em fevereiro que daria maior visibilidade aos concorrentes do Google em seu serviço de busca (veja o artigo).

É perfeitamente razoável a preocupação com o abuso de um poder monopolista por parte dos gigantes digitais que regulam seus próprios mercados, como fazem a Amazon, o Facebook e o Google. Os efeitos das poderosas redes tornam difícil o acompanhamento por parte dos concorrentes. Se o Google abusa desse poder, deveria ser punido. Joaquín Almunia considerou-o culpado de alguns abusos específicos e conseguiu um acordo. Mas não há por que acreditar que as medidas mais dramáticas desejadas pelos políticos alemães – que o Google seja tratado como uma “instalação essencial”, como as redes de gás e eletricidade, ou que a empresa seja subdividida em várias empresas separadas – iriam beneficiar os consumidores.

De Vale do Silício a vilão do silício

A preocupação com a privacidade é igualmente legítima – o Economist já criticou o Facebook e o Google a esse respeito. É compreensível que uma sociedade que herdou as cicatrizes da vigilância do Estado durante o nazismo e a polícia secreta da Alemanha Oriental seja particularmente cautelosa, mas também deveria aceitar que os consumidores entregam informações por livre vontade e recebem algo em troca. A fobia digital da Alemanha não decorre apenas da memória cultural, mas também de empresas que querem que o Estado proteja seus modelos de negócios e mantenha longe seus concorrentes. A editora Axel Springer tem mais influência em Berlim do que qualquer magnata norte-americano tem em Washington e fez um lobby para que o acordo de Joaquín Almunia com o Google seja renegociado.

Ao invés de tentarem pôr o Google numa camisa de forças, os políticos alemães deveriam abolir as barreiras que novas empresas digitais cresçam no Velho Continente como o fazem nos Estados Unidos. Ao invés de fazer um lobby para que a Comissão Europeia imponha medidas drásticas contra o Google, deveriam pressionar Jean-Claude Juncker, o novo presidente da Comissão, para que cumpra sua promessa de criar, finalmente, um único mercado para os serviços digitais. Diminuir as normas legais no país seria melhor para garantir o futuro digital da Alemanha do que condenar os inovadores estrangeiros simplesmente por serem grandes e norte-americanos.

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