Domingo, 18 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº974

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Uma novela para jogadores

Por Rafael Ferraz em 14/10/2014 na edição 820

Ao acessar o portal do Ministério da Cultura, o navegante depara com uma interface deslumbrante de encher os olhos. O que é algo consideravelmente bom. No entanto, partindo do pressuposto de que nada é perfeito, o portal tem suas falhas. Bom exemplo é a exigência do mesmo em criar uma conta e efetuar um login (termo usado por internautas para referir-se ao modo como os mesmos validam seus registros em redes sociais e sites diversos) para fazer uma simples pesquisa no acervo do site. Facilmente se realiza uma pesquisa rápida em sites grandes como o Google e Bing Search. Até mesmo em sites diversos do governo brasileiro, como no portal Planalto, realiza-se tal ato. No entanto, isso e só uma mera “curiosidade” em comparação ao que se segue.

Novamente, ao acessar portal da Cultura, evidencia-se que a atual ministra responsável pelo órgão é Marta Suplicy. Segundo o site, Marta Suplicy é senadora licenciada pelo estado de São Paulo para o mandato 2011-2018, psicóloga formada pela PUC-SP, pós-graduada pela Universidade de Stanford e foi colunista de jornais e revistas nacionais famosos. Evidentemente, são muitos os aspectos que definem a ministra profissionalmente. No entanto, no dia 19 de fevereiro de 2013, ao ser questionada se o Vale Cultura (projeto de Dilma Rousseff que disponibiliza 50 reais para que o beneficiado invista naquilo que for definido por “cultura”, pela própria ministra) poderia ser utilizado na aquisição de jogos eletrônicos, a ministra respondeu da seguinte forma: “Eu não acho que jogos digitais sejam cultura”, “O que nós temos acesso não credencia o jogo como cultura. (…) Pode desenvolver raciocínio, pode deixar a criança quieta, pode trazer lazer para o adulto, mas cultura não é,” completou.

A declaração gerou um acúmulo de críticas da comunidade gamer (termo usado para referir os jogadores), uma carta aberta em repúdio da Acigames (Associação Comercial, Industrial e Cultural de Games) – um dos maiores representantes de jogos eletrônicos no país – e uma carta enviada à ministra pela filial latino-americana da Square Enix (produtora responsável por títulos bem sucedidos na indústria de jogos eletrônicos, como a franquia Final Fantasy). O que leva à seguinte conclusão: se a principal “representante cultural” do país não considera videogames cultura, nem mesmo o próprio governo enxerga os mesmos de forma diferenciada. Ou era isso, obviamente, o “algo” mais lógico a se concluir.

Jogos também são mídia

A “gameficação”, como o próprio nome sugere, é uma nova forma de administrar empresas com soluções/mecanismos baseados em técnicas de jogos. O “processo administrativo” está se espalhando pelo Brasil com sucesso, gerando empresas especializadas no ramo (exemplo notório da Ludium, empresa paulista que desenvolve soluções “gameficadas” para empresas) e sendo adotado por várias companhias de sucesso. Essa mesma tendência não só nasceu nos Estados Unidos, como já enraizou profundamente no país norte-americano. Inclusive, esse mesmo processo é utilizado por funcionários da Câmara dos Deputados, para buscar soluções para o portal e-Democracia.

É aí que mora a contradição do governo. Se não reconhecem os jogos como cultura, como são capazes de usufruir administrativamente dessa metodologia? Jogos em geral não aparentam ser tão importantes assim. No entanto, se fizermos um paralelo de nosso país com as demais potências econômicas veremos o quão importante eles são. Na China, Japão e Coreia os jogos eletrônicos compõem um esporte “mental” semelhante ao xadrez, que exige muita estratégia e raciocínio: os chamados: “e-sports” (que subentende-se como eletronic sports). Nos Estados Unidos, os jogos não só são considerados como cultura, como também são considerados arte.

De fato, muitas pessoas partem desse mesmo pressuposto da ministra Marta Suplicy, pois muitos jogos geram polêmica na mídia e longas discursões fúteis entre jogadores intolerantes e ignorantes conhecidos na comunidade gamer por fan-boys; no entanto, jogos também são uma espécie de mídia. Não é admirável que gerem tais consequências, da mesma forma que um livro ou programa televisivo – vide o exemplo das publicações de Monteiro Lobato na ditadura e muitas novelas da Rede Globo.

Isso só prova o quão retrógado e contraditório é nosso governo. Infelizmente, nem mesmo uma mudança partindo dos próprios jogadores mudariam tal panorama. Temo que a situação seja irreversível.

Fontes:

>> http://www.gameblast.com.br/2013/02/ministra-da-cultura-afirma-em-audiencia.html;

>> http://www.acigames.com.br/;

>> http://www.gameblast.com.br/2013/03/acigames-publica-carta-aberta-em.html;

>> http://www.gameblast.com.br/2013/03/square-enix-da-america-latina-envia.html;

>> http://www.cultura.gov.br/a-ministra

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Rafael Ferraz é estudante do ensino médio

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