Sábado, 17 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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O impacto da blogosfera

Por Wilton Garcia em 21/10/2014 na edição 821

A blogosfera agencia/negocia diferentes conceitos, para além das convencionalidades do sistema hegemônico. O que circula como informação produz permuta, troca, diferença etc. Nesse caso, a noção de blogosfera (re)configura-se, cada vez mais, mediante a experiência contemporânea. Disso urge uma questão ampla e complexa: como lidar com o impacto da blogosfera no campo contemporâneo da comunicação?

A blogosfera emerge, aqui, como tema de discussão e reflexão, ao considerarmos suas estratégias de comunicação, em especial quando permeia o consumo. Tal perspectiva crítica baseia-se no eixo teórico dos estudos contemporâneos (CANCLINI, 2008; EAGLETON, 2005; GARCIA, 2013; GUMBRECHT, 2010).

A comunicação digital apresenta-se não linear, fragmentada, descontínua, simultânea, heterogênea, sincrética, acelerada, aberta, hermética, paródica, incompleta e impactante. Assim, a fruição dessa informação tecnológica (KEEN, 2012; PRIMO, 2008; SPYER, 2009) compreende a flexibilidade e o deslocamento no contemporâneo. Transversalizam-se espaço-tempo em simulacros para garantir a qualidade da informação.

Da cultura digital, destaca-se a internet e nessa a blogosfera. Esta última deve ser vista/lida como fenômeno hipermitiácio de intercâmbios de informações, críticas, dicas, sugestões e comentários. Isso influencia o usuário-interator, que a(di)ciona e compartilha dados. O avanço computacional possibilita atribuir “novos/outros” valores para o mercado-mídia que assola o consumo.

Formas autônomas do pensamento

Incentivada pelo mercado-mídia, a sociedade tecnologizada – com a blogosfera, por exemplo – usa e abusa na aquisição frenética de produtos, marcas e serviços. Há um excesso recorrente na lógica comportamental do consumo, visto que o status da compra parece adquirir uma condição sine qua non ao papel social que cada sujeito tem no capitalismo – o consumo.

Nesse caso, a cultura digital contribui para um inadequado consumo, porque é excessivo. Mais que influenciar, estimular, convencer, persuadir, apelar, qualquer mensagem mercadológico-midiática (de marketing, publicidade ou propaganda) dispara, na blogosfera, a ordem do consumismo. Mais e mais, a voz imperativa indica, diretamente, consuma!

É incessante esse desfecho crucial ao capital. Muito mais que inquietar, provoca situações embaraçosas no comportamento humano quando geram informações, a turbinar o cotidiano hipermidiático (de)marcado pelo consumo. No contemporâneo, foi trocada a ideologia pela tecnologia.

A blogosfera serve de referente impactante, cujos códigos (texto, imagem e som) tomam formas autônomas do pensamento, em uma estratificação de ideias. Hoje, o blog apresenta-se para além de mero diário (PRIMO, 2008) de anotações ou memórias documentadas na internet, cuja interatividade com leitores (usuário-interator) ocorre a partir de uma assessoria na inserção de comentários sobre os posts publicados.

Divergências e desafios

No fluxo da informação surge o blog: soma dos termos “internet” e “lugar”, abreviatura da palavra weblog (SPYER, 2009, p. 53), que significa um local discursivo na rede mundial de computadores. Um blog pode ser, então, um website de discussão com ferramentas simples de publicação, em uma escritura individual ou coletiva, conforme a dinâmica estabelecida pelo usuário-interator, que realiza a abertura inicial do endereço eletrônico.

A simplicidade na produção do blog otimiza a transferência de dados. Isso simplifica as manifestações na internet sem reduzir tanto a qualidade da informação. Essa simplicidade quer dizer síntese e dinâmica. Isto é, ser objetivo no uso de instrumentos e conteúdos pode potencializar a produção de mais informações. Todavia, o blog tenta garantir a maximização de uma publicação recorrente e constante de conselhos e/ou orientação.

O neologismo “blogar” inaugura uma forma autônoma de pensamento a respeito da informação tecnológica e pressupõe uma noção de blog, em que texto, imagem e som agenciam/negociam a condição adaptativa do contemporâneo. Segundo Canclini (2008), o blog convoca um modo de agir diferente na sociedade, ao estimular determinadas situações.

O “estado da blogosfera” tem-se ampliado de modo vertiginoso, a ser utilizado por jornalísticas, publicitárias etc., na cobertura de fatos e notícias, como diário digital – o que legitima um blog a partir de sua periodicidade, bem como da qualidade da informação. Da atmosfera sensível do pensamento à aplicação acelerada da lógica computacional, divergências e desafios enfatizam o potencial comunicacional da blogosfera para o consumo tecnológico.

Dicas e sugestões

Ou seja, blog surge como registro sequenciado de comentários e opiniões que se acumulam em um endereço eletrônico, com a facilidade dos suportes computacionais disponíveis na internet. Trata-se de uma expressão enunciativa que reúne um conjunto de informações e (des)dobra o tecimento de ideias e seus hipertextos como consultoria especializada.

Nesse sentido, investe-se especificamente na percepção aguçada dos blogueiros que debatem os parâmetros reguladores e, ao mesmo tempo, emblemáticos do consumo com pitacos ou interferências. Dito de outro modo, a disponibilidade de um blogueiro para escrever sobre o mercado-mídia coloca-o em uma situação confortável para opinar e sugerir.

Ações inclusivas na internet, indiscutivelmente, possibilitam um empenho comunicacional de referenciais, de acordo com efetivas relações humanas. Democratizar o acesso via comunicação tecnológica pode ser uma solução, pois a publicação de conteúdo na internet incentiva o usuário-interator a utilizar o espaço de comentários de um blog para conversar (dialogar, discutir, oferecer, sugerir ou opinar) sobre o assunto em questão.

Dessa vertente, a intenção seria refletir sobre os modos de produção da informação e da comunicação que representam o consumo na blogosfera como as adversidades tecnológicas. Inevitavelmente, os diversos tipos de registro em blogs sugerem alternativas de técnicas discursivas com depoimentos, entrevistas, dicas e/ou sugestões, entre outros. Essas técnicas apropriam-se de diversas propriedades discursivas.

Não obstante, a qualidade do conteúdo de um blog equivale aos parâmetros necessários para prever o grau de influência que coordena a incursão digital de cada informação/posição divulgada. Talvez, seria um jeito mais democrático de diálogo e consumo, no blog, pontuado por efeitos discursivos de advertência, apreciação, conselho, dica, ensino, indicação, palpite, recomendação, sinalização ou sugestão.

Considerações finais

A produção de conhecimento no campo contemporâneo da comunicação, principalmente no Brasil, constitui uma necessidade de investigar as tecnologias emergentes, que surgem na sociedade. Pensar a blogosfera, associada ao consumismo implica reavaliar as estratégias discursivas em consonância com o mercado-mídia, tendo em vista diferentes instâncias que se convergem na comunicação.

As anotações apontadas neste ensaio indicam uma problemática acerca de algumas estratégias blogosfera – com ações previsíveis (apelo, estímulo ou incentivo) – que assolam o sujeito. Em síntese, este debate visa a enfatizar um olhar político, em busca de valores humanos. Não é ser contra o consumo, mas tentar adequar a realidade sociocultural do país.

Referências

CANCLINI, Néstor Gárcia. Leitores, espectadores e internautas. São Paulo: Iluminuras, 2008.

EAGLETON, Terry. Depois da teoria: um olhar sobre os estudos culturais e o pós-modernismo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.

GARCIA, Wilton. Feito aos poucos_anotações de blogs. São Paulo: Factash:Hagrado, 2013.

GUMBRECHT, Hans Ulrich.Produção de presença. Rio de Janeiro: Contracampo, 2010.

KEEN, Andrew. Vertigem digital: por que as redes sociais estão nos dividindo, diminuindo e desorientando. São Paulo: Zahar, 2012.

PRIMO, Alex. Os blogs não são diários pessoais online: matriz para a tipificação da blogosfera. Famecos: Revista do Programa de Pós-Graduação em Comunicação, Porto Alegre, n. 36, p. 122-128, ago, 2008. Disponível aqui, acesso em: 10 nov. 2013.

SPYER, Juliano (Org.). Para entender a internet: noções, práticas e desafios da comunicação em rede. 2009. Disponível aqui, acesso em: 15 set. 2012.

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Wilton Garcia é professor

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