Segunda-feira, 22 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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Viver a vida ou registrá-la?

Por Alex Williams em 28/10/2014 na edição 822

Em 18 de setembro, o voo 1416 da JetBlue havia acabado de decolar de Long Beach, na Califórnia, para Austin, no Texas, quando Scott Welch, o passageiro na poltrona 5A, ouviu um estouro suspeito. Momentos depois, a cabine começou a ser invadida por fumaça e ele só conseguia enxergar algumas fileiras à sua frente, relatou Welch. Logo ele ficou a par de que o motor de estibordo do Airbus A320 havia explodido.

Enquanto outros passageiros começavam a gritar e rezar, ele colocou a máscara de oxigênio e refletiu sobre sua sina. “Compreendi que podia estar prestes a me encontrar com Deus”, recordou Welch, 34.

Confrontado pela própria mortalidade, ele poderia ter fechado os olhos e meditado silenciosamente. Welch, porém, que é fotógrafo de esportes, reagiu de uma maneira típica dos tempos atuais: pegou seu smartphone Samsung Galaxy Note 3, o direcionou para o ar enfumaçado e pressionou o botão de gravação. E ainda teve presença de espírito para fazer um selfie sorridente.

Não importa que o avião tenha contornado a falha mecânica e pousado em segurança. As imagens vívidas dos momentos de pavor captadas por Welch e outros passageiros ajudaram a divulgar o incidente no noticiário nacional. Nesse ínterim, os dois vídeos curtos de Welch tornaram-se virais e um deles teve mais de 1 milhão de acessos.

Ao que parece, não é mais suficiente registrar cada momento da vida. Isso vale também diante da possibilidade de morte.

Graças ao Personal Video Industrial Complex (Complexo Industrial de Vídeos Pessoais) -dezenas de milhões de smartphones que gravam vídeos, alimentando incontáveis horas diárias de gigantes do setor como o YouTube-, shows de rock, posses presidenciais, peças de teatro em escolas e até ameaças de desastres aéreos atualmente são considerados “conteúdos” que nos inspiram a registrar os acontecimentos para a posteridade.

Todavia, à medida que qualquer evento público, desde os de caráter histórico global aos mais íntimos, é dominado por um mar de telas azuis cintilantes, uma reação de repúdio está se fortalecendo. Uma gama diversificada de críticos, incluindo gurus conscienciosos, roqueiros independentes adeptos do bom-mocismo e até o papa Francisco, começaram a implorar a esses video-amadores que larguem seus telefones celulares e vivam de verdade.

“Pareço hipócrita”

Viver o momento ou registrá-lo tornou-se uma questão premente na era do iPhone.

“Será que a maioria das pessoas está disposta a aprender a estar mais presente no momento e a se desapegar do excesso de fotos e vídeos? Eu duvido”, indagou William Powers, cientista no Laboratório de Mídia do Instituto de Tecnologia de Massachusetts.

Esse raciocínio pode evocar imagens virais do Vaticano após a eleição do papa Francisco, em 2013. Postadas nas mídias sociais pela NBC News, as imagens pretendiam mostrar o contraste entre a multidão com poucos smartphones na Praça de São Pedro que saudaram a eleição do papa Bento 16 em 2005 e milhares de luzes de smartphones pipocando para saudar o papa Francisco.

Algum tempo depois, o “Washington Post” revelou a verdade por trás dessa história. A foto mais antiga fora feita na procissão pelo funeral do papa João Paulo 2«, ocasião na qual seria inadequado usar smartphones. Mesmo assim, a foto mais recente se tornou emblemática, talvez até para o próprio pontífice.

Assim como em qualquer discussão sobre mídias sociais, é fácil descrever o fenômeno como um narcisismo pandêmico. Afinal de contas, a cultura atual dá espaço até a um Tumblr chamado Selfies at Funerals, repleto de selfies feitos em velórios e enterros.

Acadêmicos apontaram essa ligação. Um estudo feito em 2013 por Jean W. Twenge, professora de psicologia na Universidade Estadual de San Diego, e dois colegas analisou mais de 760 mil livros publicados entre 1960 e 2008 nos EUA. E descobriram que o uso de pronomes na primeira pessoa do plural (“nós”, “nos”) diminuiu 10%, ao passo que pronomes na primeira pessoa do singular (“eu”, “me”) aumentaram 42%. Para a professora Twenge, isso faz parte da mesma mudança social. “O vídeo declara ‘essa é a minha experiência’”, comentou ela.

Dificilmente ela seria rechaçada por Welch, o cronista do voo da JetBlue. “Pareço hipócrita”, disse Welch, porém ele acha “um tanto exagerada” a obsessão de mostrar na internet todos os momentos da vida. Todavia, ele admite haver razões além da vaidade para recorrer ao smartphone.

“Eu pensei que talvez minha família nunca mais pudesse me ver”, disse. “É por isso que, após começar a filmar, apontei a câmera para mim mesmo.” E acrescentou: “Queria que minha família me visse sorrindo”.

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Alex Williams, doNew York Times

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