Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

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Hora de desbloquear

Por Pedro Doria em 04/11/2014 na edição 823
Reproduzido do Globo, 28/10/2014; intertítulo do OI

Acabou. E, agora que acabou, é hora de rever as inimizades. Tanta gente, tanto tempo, falando de limpar a linha do tempo nas redes, bloquear uns e outros. O alívio de viver em um mundo no qual todos concordam. Passou. Salpicar uma discordância aqui e ali é bom. Hora, pois, de desbloquear, reatar relações virtuais. E compreender como mídias sociais mexem com a cabeça da gente.

Marshall McLuhan, um professor canadense especializado em literatura medieval, foi talvez o mais falado e menos compreendido intelectual da década de 1960. Por ser pouco compreendido é também pouco lembrado. Uma lástima. Ainda tem muito a nos ensinar.

O velho professor definia mídia como uma extensão de nossas habilidades e sentidos. A roda, uma extensão do pé. O texto, uma extensão da visão. O resultado é que mídia transforma nossa percepção. As distâncias nos parecem menores porque temos rodas para nos levar mais longe. O texto linear nos organiza, hierarquiza ideias, de uma forma que a linguagem oral não tinha como. Ao estender nossas capacidades, mídias nos transformam.

Ele também distinguia mídias entre quentes e frias. Mídias quentes estendem um único sentido. Sugam atenção, não distraem. Ao exigir atenção total, isolam o indivíduo, o afastam da comunidade. O cinema é quente, assim como um livro. Quem lê um livro tem o olhar controlado pela página escrita, envolve-se completamente. Não conversa.

Mídias frias, por outro lado, trazem pouca informação e, por isso, exigem de quem recebe a mensagem maior interação. O telefone, uma mesa redonda. É preciso que o sujeito participe. Ele tem de refletir sobre a mensagem e apresentar sua resposta, seu comentário. Mídias quentes destribalizam, mídias frias tribalizam. Criam comunidade. O professor não falava da iminência do nascimento de uma aldeia global à toa.

Dieta complementar

As mídias sociais são frias. Nelas, as mensagens estão sempre incompletas. Não encontram consumidores passivos e superconcentrados. Pelo contrário, nelas estamos sempre distraídos e ativos, participantes. O resultado é que nossa reação não é a do sorriso ligeiro que o livro ou o filme na sala de cinema arrancam. A emoção é por natureza intensa. E comunidade se forma.

McLuhan, morto antes de saber da internet, intuiu a trilha que seguiríamos. Suas teorias persistirão nos ajudando a lidar com o novo mundo.

A raiva que tantos sentimos da opinião dos outros, o desrespeito que dirigimos a amigos sem perceber e aquele que percebemos em nossa direção têm motivo. A mídia, como diria o velho, é a mensagem. Não o conteúdo. Não o que foi escrito. A própria mídia. É no suporte — o cinema, o livro, o telefone ou as mídias sociais – que está a intensidade com que sentimos. E, em mídias frias como as sociais, sentimos intensamente. Ninguém está necessariamente manipulando, mas nossos cérebros reagem assim.

Não é preciso abandonar Twitter ou Facebook. Há mídias frias e quentes no mundo, e todas fazem parte da vida. Precisamos, no entanto, entender como nos atingem. E, ao entender, procurar lá a lista de quem excluímos. Muitos deles podem, perfeitamente, voltar a nosso convívio. Fará bem a todos.

E, sim, McLuhan receitava um antídoto para a intensidade das mídias frias. Uma dieta complementar de mídias quentes. Ler mais jornal, por exemplo. Equilibra os sentidos. 😉

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Pedro Doria, do Globo

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