Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

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O passarinho, a água-viva e uma filosofia

Por Marinete Veloso em 11/11/2014 na edição 824
Um Passarinho Me Contou, de Biz Stone. Tradução: Patricia Azeredo. Editora: Best Seller. 256 págs., R$ 30,00; reproduzido do Valor Econômico, 4/11/2014; intertítulo do OI

A tumultuada história do Twitter, microblog criado por um grupo de amigos dotados de mentes brilhantes, que terminaram a amizade quando o sucesso bateu-lhes à porta, continua a render versões. Agora é a vez da de Biz Stone, um de seus cofundadores, com o livro Um Passarinho Me Contou – Confissões de Uma Mente Criativa. Menos midiático do que os demais (Evan Williams, Jack Dorsey e Noah Glass) e de temperamento conciliador, Stone descreve sua atuação no surgimento do Twitter e suas diplomáticas intervenções para acalmar os ânimos dos sócios nos momentos de tensão. A obra de Stone passa ao largo das ferozes batalhas por poder travadas no grupo, principalmente entre Williams, Dorsey e depois com Dick Costolo, atual CEO da empresa. Um único e curto capítulo, quase no final do livro, é dedicado ao confronto entre os sócios e certamente Stone o escreveu para que seu leitor acompanhe o percurso da empresa até sua atual constituição. A linguagem se mostra sempre serena e apaziguadora.

Já na introdução, Stone deixa claro que seu objetivo não se resume a contar a história de sua vida, do jovem que saiu da pobreza e enriqueceu. Sua proposta é discorrer sobre como “criar algo do nada, unir habilidades a ambições e olhar o mundo através da lente das possibilidades infinitas”. Ou seja, ele lança mão de sua história pessoal e da empresa para compor um manual sobre como é possível atingir o sucesso administrando talento e criatividade.

Segundo ele, as oportunidades na vida são fabricadas; inventar o próprio sonho é o primeiro e o maior passo para realizá-lo. Stone cita sua trajetória como exemplo. Para pagar as contas, na década de 1990, quando frequentava como bolsista o curso de artes na Universidade de Massachusetts, em Boston, ele trabalhava como carregador de caixas de livros em uma editora. Em certo dia, aproveitando-se da ausência do editor, que estava em viagem, foi até o local onde ficavam as propostas de capas das publicações, escolheu um livro, desenhou uma capa e juntou-a às demais que seriam enviadas a Nova York, para análise do publisher. Não deu outra: a capa escolhida para aquele livro foi a sua. Quando o editor em Boston recebeu de volta o material e descobriu a autoria daquele trabalho, surpreendeu-se: “Você? O garoto das caixas?” Imediatamente, Stone foi contratado como designer. Ato contínuo, abandonou a faculdade, porque acreditava que ganharia mais experiência ali do que nos bancos da escola. “Foi uma das melhores decisões da minha vida. Eu controlava o meu destino”, comentaria depois.

Stone revela que trabalhar como designer foi uma experiência rica. “O design gráfico é uma excelente preparação para qualquer profissão: ensina que todo problema tem infinitas soluções possíveis. Hesitamos demais para nos afastarmos da primeira ideia ou do que já sabemos, mas a solução não é necessariamente a que está na nossa frente ou a que funcionou no passado”, pondera. Stone acredita que a criatividade é um recurso renovável, pois experiência e curiosidade levam as pessoas a fazerem conexões inesperadas e originais.

Rede neural

A paixão de Stone é a tecnologia. Em 2003, ingressou no Google, para trabalhar em um projeto da empresa de Evan Williams, a Pyra Labs, que acabara de ser comprada pelo Google. Dois anos depois, Stone deixaria o Google, alegando que já não se sentia mais desafiado o suficiente. Por esta época, Williams também se desencantara com seu trabalho no Google e, unindo-se a Noah Glass, funda, em 2005, a Odeo, uma empresa de podcasts.

Stone revela que não tinha se mudado para a Califórnia por causa do Google, mas especialmente para trabalhar com Williams, cuja competência admirava. Por isso, foi bater à porta da Odeo. “Recomeçar é um dos passos mais difíceis de se dar na vida, pois deixa-se de lado segurança, estabilidade e proteção. É assustador deixar tudo para trás, principalmente quando já se tem um bom salário. Mas eu tinha fé no meu eu do futuro; era hora de buscar algo novo”, explica.

Mas quando a Odeo estava prestes a lançar seu produto, foi atropelada pelo anúncio de que a Apple incluíra no iTunes uma ferramenta semelhante à que o grupo de Williams e Glass vinha desenvolvendo. Por achar que seria impossível competir com a Apple, Williams decidiu vender a empresa e passar o cargo de CEO para um de seus executivos, Jack Dorsey. E para manter elevado o moral das equipes, enquanto o conselho de administração procurava um comprador para a empresa, Williams lançou-lhes um desafio, que chamou de hackathon, uma maratona de programação de computadores.

Stone aproveitou uma ideia que Dorsey vinha perseguindo, para desenvolver seu projeto no hackathon: um dispositivo de mensagens online, em que as pessoas descreveriam o que estavam fazendo. Transformou a ideia em produto. Era o Twitter, no qual as mensagens se limitavam a 140 caracteres. No início, poucos acreditaram êxito da ideia, que só prosperou por insistência e pelo trabalho árduo de Stone na correção dos frequentes erros de conectividade.

Em cada episódio de seu livro, Stone aproveita para passar mensagens sobre sua concepção de empreendedorismo e de gestão. Por exemplo, no período em que a rede do Twitter caía a toda hora, Stone reconheceu publicamente os fatos e anunciou que trabalhava ininterruptamente para estabilizá-la. Os usuários compreenderam a dimensão do problema e foram solidários. “Ninguém quer anunciar fracassos, mas escondê-los é uma ilusão. Ao deixar os outros entenderem que éramos seres humanos iguais a eles, recebemos boa-vontade em troca”, avalia. Quando tudo está dando errado, em vez de se fixar no problema, deve-se descobrir o que funciona e trabalhar em cima disso. “Procure o ponto otimista no meio da negatividade que parece não ter limites. As soluções aparecem se você procurar o lado positivo.”

Stone descreve vários outros episódios marcantes da história da empresa que foram capitaneados por ele ou nos quais atuou na linha de frente, como a criação do logotipo em forma de pássaro, utilizado na capa de seu livro. Cita suas ações como porta-voz da companhia; sua luta para impedir as investidas do governo nos processos da empresa; ou de como conseguiu atenuar as ações da brusca demissão de Evan Williams por Dick Costolo. Relata também as razões que o levaram a afastar-se do Twitter. E descreve algumas regras a serem observadas por empresas que desejam ser rentáveis e responsáveis socialmente. Trata de princípios como justiça, humildade e altruísmo. Dá dicas sobre negociação e de como fazer escolhas certas; revela sua proposta de capitalismo para os dias de hoje e de seu entendimento de uma sociedade conectada.

Um capítulo especialmente interessante é o que conta o episódio da investida de Mark Zuckerberg para comprar o Twitter. Narra cenas hilariantes do encontro entre ele, Williams e Zuckerberg, e descreve, também com humor, atitudes e gestos do excêntrico dono do Facebook.

No último capítulo, explica sua mais nova criação, o Jelly (de jellyfish, água-viva), um mecanismo de busca “para as pessoas se ajudarem”, lançado no início deste ano. Basicamente trata-se de uma plataforma de perguntas e respostas, criada no espírito de uma rede social para aproximar as pessoas. Diz por que escolheu o nome Jelly: “Em vez de cérebro, a água-viva possui uma rede neural. Diante de um desafio, basta apenas um neurônio disparar, entre milhões de neurônios conectados de modo impreciso e, subitamente, várias águas-vivas se unem e atuam como cérebro para o grupo. Quando o desafio termina, as águas-vivas voltam a flutuar em sua rotina de sempre. A verdadeira promessa de uma sociedade conectada está nas pessoas se ajudando.”

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Marinete Veloso, para o Valor Econômico

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