Segunda-feira, 11 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

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Mozilla Firefox, 10 anos

Por Carlos Alberto Teixeira em 18/11/2014 na edição 825
Reproduzido do Globo.com, 10/11/2014; título original “Mozilla Firefox comemora seus primeiros dez anos de existência”

O navegador Mozilla Firefox completou neste domingo [9/11] 10 anos de existência. No dia 9 de novembro de 2004 foi lançada a primeira versão deste browser gratuito open-source (código aberto) que aos poucos foi encantando os usuários da internet que não aguentavam mais o então líder, o Microsoft Internet Explorer. E nesta segunda-feira a versão 33.1 do navegador está sendo lançada, bem como uma versão especial para desenvolvedores.

Sendo um navegador de código aberto, uma grande comunidade se formou em torno do Firefox. E os especialistas brasileiros têm importante participação nesse contexto.

“Nossa comunidade de voluntários desempenha um grande papel nos avanços do Firefox e da web. André Natal, de nossa comunidade brasileira, vem contribuindo para a funcionalidade de reconhecimento de voz tanto no Firefox quanto no Firefox OS. Essa tecnologia permitirá aos usuários interagir a partir de seus navegadores no desktop, bem como em dispositivos Firefox OS simplesmente usando sua voz. Esta API de fala está no momento sendo adicionada à Gecko, nossa máquina de rendering de páginas”, diz em seu blog Andreas Gal, CTO da Mozilla.

Desde seu lançamento, o Firefox continuou aumentando consistentemente sua base de usuários. Mas com o lançamento do navegador Google Chrome, no final de 2011, um novo e poderoso competidor entrou em cena. Segundo o StatCounter, em novembro de 2011, o Chrome superou o Firefox, e em maio de 2012, ganhou do internet Explorer, liderando até o momento.

Hoje, com versões para Windows, OS X, Linux e Android, entre 12% e 22% dos internautas no mundo inteiro usam o Firefox, fazendo dele, em média, o terceiro browser mais usado, com mais de 450 milhões de usuários. O Firefox faz sucesso especial em países como Indonésia (onde tem 55% de participação no mercado), Irã (46%), Alemanha (43%) e Polônia (41%).

“Sendo uma instituição sem fins lucrativos, nunca foi nossa meta conquistar 100% do mercado de browsers. Em 2004, existia um navegador dono do mercado, o internet Explorer, e isso não tornou a web um lugar melhor de jeito algum”, comenta Johnathan Nightingale, de 36 anos, vice-presidente do Firefox.

Ele falou com O GLOBO por telefone de Toronto, no Canadá, na sexta-feira, dia 7 de novembro.

O que vocês estão preparando para celebrar esta primeira década de vida do Mozilla Firefox?

Johnathan Nightingale – Em comemoração ao aniversário de 10 anos, resolvemos reunir na nova versão, de número 33.1, vários trabalhos que vínhamos realizando no Mozilla, em sua maioria questão eminentemente técnicos.

Muito do que estamos lançando nesta semana tem a ver com como nossos usuários entendem e controlam sua privacidade on-line. Alguns usuários se declararam preocupados com as revelações de Edward Snowden sobre espionagem. Outra grande parte deles disse estar incomodada com captura de dados por corporações – as coisas que essas grandes empresas aprendem sobre nós enquanto passeamos pela rede. Uma coisa que nos surpreendeu, porém, foi que muita gente se mostrou preocupada com privacidade em relação a seus colegas de quarto, com quem eles compartilham o computador. Ou privacidade relativa aos filhos, à namorada ou à esposa ou marido. Afinal, o navegador web grava tanta informação a seu respeito, mesmo que seja para lhe ajudar, lembrando de senhas, dados preenchidos etc. Mas às vezes as pessoas sentem que o browser deveria esquecer algumas coisas e sabem que existem ferramentas para isso dentro do próprio navegador, mas elas são complicadas de encontrar e de usar.

Até mesmo uma ferramenta como “private browsing” (navegação privada), em que tudo que for feito naquela janela específica será esquecido, é esquecida pelos usuários. Eles simplesmente não lembram de acionar a funcionalidade quando começam a navegar em locais que, segundo eles, deveriam ser esquecidos depois.

Outro caso é quando um conhecido lhes envia um link e o internauta clica nele sem muito cuidado e acaba infectando o computador com coisas que, depois, ele lamentará que estejam em sua máquina. Ou também quando os pais começam a fazer compras de Natal on-line e seu filho de 11 ou 12 anos de idade – que entende muito mais de browser do que eles – vai fuxicar o histórico de buscas para descobrir o que vai ganhar de presente.

Em resumo, as quatro principais novidades dessa versão são:

BOTÃO “ESQUECER” – Como presente de aniversário, uma das novidades no Firefox nesta nova versão é o botão “Esquecer” (Forget). Quando se clica nele, ele só faz uma pergunta – ‘Quanto você quer esquecer?’. Cinco minutos? Duas horas? Tudo? Fica a critério do usuário o quanto o navegador vai esquecer. E ele vai esquecer tudo: histórico de sites visitados, cookies, senhas e tudo mais. Ele vai fechar todas as abas e oferecer uma janela nova, fresquinha. Ele ainda vai se lembrar das informações de longo prazo que foi instruído para se lembrar, tais como senhas de banco etc. Mas tudo que aconteceu no período desejado de “esquecimento” vai desaparecer.

 

TUTORIAL – Outra novidade na nova versão – para todas as nossas plataformas – é um tutorial sobre segurança e privacidade, inclusive em português. Numa linguagem simples e direta, nosso usuário vai ficar sabendo dos diversos aspectos desse assunto. E vai poder decidir como o Firefox deverá se comportar em relação a ele. Não adianta nada projetarmos um monte de funções de segurança no browser sem termos certeza que os usuários saberão do que se trata e se as usarão de forma apropriada.

Esse tutorial foi traduzido para mais de 80 idiomas e grande parte desse trabalho foi feito por voluntários, já que a Mozilla é uma organização sem fins lucrativos. Muito de nosso trabalho é feito por voluntários, incluindo esse de tradução.

DUCKDUCKGO.COM – A outra novidade é que a partir desta segunda-feira, o Mozilla vai oferecer como uma das opções de ferramentas de busca o DuckDuckGo (https://duckduckgo.com/), um buscador cujo diferencial é não rastrear o usuário. Muita gente nem sequer ouviu falar neste buscador ou, se ouviu, não sabe direito do que se trata. Mas a busca é algo bem diferente do que navegar em outros sites. As palavras que o usuário utiliza nas buscas dizem muito a seu respeito, suas preferências, e até suas posturas em relação à vida. Portanto, gostamos de divulgar e conscientizar as pessoas a respeito de outros inovadores trabalhando em prol da privacidade.

64-BITS – Há também agora, ainda em fase de testes, uma versão do Firefox em 64-bits, que tem um desempenho melhor e usa de forma mais eficiente a memória em máquinas com este perfil. Já havia uma versão 64 bits para Mac e a novidade é que agora também temos para PCs rodando Windows.

E quando teremos Firefox no iPhone e no iPad?

J.N. – Historicamente, nunca fomos autorizados a soltar uma versão para iOS, pelo menos não uma versão como a que temos no Android, que é a mesma coisa que temos para desktop. Só que, quando analisamos as regras para implementar o Firefox no iOS, percebemos que a App Store não nos deixaria implementar a mesma coisa. Eles não permitem, por exemplo, usar a máquina Javascript de outros, nem uma máquina de rendering de páginas diferente da deles. Para nós isso tem sido um problema, pois temos usuários de desktop que usam o Firefox e, no iPhone, eles até gostariam de usar o mesmo navegador, mas não podem, tendo que escolher algum outro.

Nossos engenheiros continuam tentando encontrar formas de soltar uma versão para o ambiente móvel da Apple, especialmente agora com o iOS 8, em que talvez seja possível implementar nesse sistema algo pelo menos bem parecido com o Firefox.

É preciso reconhecer que nos dias de hoje nós não navegamos na web em apenas uma máquina. Temos um computador desktop central da família, diversos tablets e smartphones. E é claro que todos queremos que nossas informações sigam conosco em qualquer máquina que estejamos usando, incluindo senhas, bookmarks e histórico da web sendo sincronizadas.

O Firefox para Android tem todas aquelas extensões que possui as versões para desktop?

J.N. – Muitas de nossas extensões mais importantes estão presentes em nossa versão para Android. Mas não todas. De fato, uma das coisas que nosso tutorial de segurança e privacidade nesse sistema operacional tem são apontadores para extensões que reforçam esses conceitos no Firefox.

 

É muito gratificante ver a boa resposta que o Firefox para Android vem recebendo. Já passamos dos 80 milhões de downloads, considerando todos os tempos, e 30 milhões de downloads ativos agora. Mas estamos conscientes de que existem muitos outros milhões de usuários Android que nem sabem que existe um Firefox para seu sistema.

Como vocês reagem à relativamente pequena participação de mercado que o Firefox tem mundialmente? (Entre 12% e 22%)

J.N. – O que queremos é ter suficiente participação de mercado de modo a podermos ajudar a influenciar a indústria como um todo – é assim que nós continuamos a marcar pontos. Por exemplo, alguns anos atrás, se você quisesse implementar jogos 3D na web veria que era muito difícil. Não existia um jeito fácil para isso. Então nós criamos o WebGL , demonstrado em 2006 e publicado em 2011. Na verdade, em nosso escritório em Toronto, perto da minha sala senta-se um dos principais engenheiros, o Vlad [Vladimir Vuki?evi?], que foi um dos responsáveis pelo código inicial do WebGL.

Hoje, o WebGL virou um padrão de facto, sendo usado nos navegadores Google Chrome, Mozilla Firefox, Safari, Opera e Internet Explorer, além de em vários navegadores móveis.

Mais recentemente, dissemos ‘Ok, já temos a máquina de gráficos 3D para os games, mas precisamos de um alto desempenho no Javascript, para aumentar a velocidade’. E aí nossa equipe de pesquisa criou duas tecnologias. Uma delas traduz seu código existente de Windows para Javascript em código web, e a outra é um sistema de otimização que faz esse código rodar muito rápido, quase tão rápido como se fosse Javascript nativo. Ela se chama asm.js http://asmjs.org/.

Como esses avanços mudam os hábitos de uso dos internautas?

J.N. – Em games, por exemplo. Já existem games na web há algum tempo. O Facebook, por exemplo, tem essas dezenas de joguinhos de passatempo. Mas se você quer jogar um game profundo e imersivo em 3D, este será um dos últimos softwares que você ainda tem que baixar e instalar no seu PC, não podendo rodar diretamente da web.

E hoje, nós percebemos que essas grandes produtores de games produzem títulos importantes que podem ser baixados na web e rodam sem precisar instalar nada localmente. Esses jogos funcionam independentemente de plataforma. E continuaremos vendo um movimento em massa em direção à web, especialmente em função das vantagens que essa abordagem oferece, como, por exemplo, a imensa facilidade na distribuição e de implantar atualizações.

Quando nós escrevemos o asm.js nós o doamos para o mundo, dizendo para os outros fabricantes de navegadores: ‘Não, nós não queremos possuir isso. Não queremos que só o nosso browser tenha asm.js. Queremos que a web inteira tenha isso’. Como consequência, começa-se a ver os outros navegadores adotando essas otimizações. Muitas dessas coisas ainda rodam melhor por enquanto no Firefox. Mas minha esperança é que os outros continuem a adotá-las, por serem poderosas ferramentas para a web. Então, é por isso que, em lugar de ansiarmos por participação de mercado, é assim que marcamos nossos pontos.

Alguma novidade sobre o Firefox Hello?

J.N. – As versões pré-release do Firefox em beta têm essa funcionalidade chamada Hello, que permite chamadas de áudio/vídeo via web entre um usuário e um amigo dele . A diferença é que essa chamada é programada dentro da própria web. Isso poderá criar possibilidades realmente transformadoras. Por exemplo, se você tiver uma grande ideia de algo que poderá melhorar muito o Skype, você terá que contá-la à equipe do Skype. Não haverá outro jeito de fazer isso. Mas se nós construirmos algo como o Hello no próprio tecido da web, coisa que fazemos por meio de um outro modelo denominado WebRTC (Web Real Time Communication) , então qualquer desenvolvedor que tenha uma nova ideia de algo interessante a fazer quando duas pessoas estão conectadas – seja desenhar caras engraçadas no vídeo, ou um jeito esperto de enviar arquivos para lá e para cá nessa conexão, ou implementar conversas em grupo, ou ler notícias em conjunto com seu interlocutor – poderá implementar isso muito mais facilmente se os fundamentos não estiverem restritos a este ou aquele navegador, mas, em vez disso, estiverem na própria web.

E, com o Hello, a primeira chamada que fizemos foi do Firefox para o Chrome. Porque realmente acreditamos ser algo que deve ser implementado por todos. Bem, isso tudo é uma longa forma de dizer e explicar como medimos participação de mercado. Medimos em termos de: “Será que estamos avançando a web para todos?”

Sim, nós queremos competir. Queremos que você use Firefox, pois se as pessoas pararem de usar o nosso navegador, perderemos nossa habilidade de empurrar a web inteira para a frente.

O que podemos esperar para a próxima década do Mozilla Firefox?

J.N. – Pelos próximos 10 anos é um pouco difícil de prever, mas pelos próximos 3 anos o que veremos é que o resto da web vai se tornar on-line. É muito comum que as empresas de tecnologia falem como se toda a população estivesse conectada à web. Mas isso ainda não é verdade. Menos de metade das pessoas estão conectadas à rede. Muito do que você verá a Mozilla falando será sobre como levar a web até todo mundo, mesmo. Quando falamos sobre o sistema operacional Firefox OS – que não é do meu departamento, mas é um projeto que muito nos empolga – é porque acreditamos que quando essas pessoas se tornarem on-line elas não estarão usando um smartphone de US$ 800. Ou seja, precisaremos encontrar uma nova forma de alcançar essas pessoas.

Assim sendo, uma das coisas que definirão a estratégia da Mozilla nos próximos 5 anos é alcançar essas pessoas tanto como pudermos. Agora, para aqueles que já estão na web, os que já estão conectados, o que eles precisam é de ter seu Firefox à disposição em qualquer dispositivo. Ou seja, precisamos dar um jeito de entrar na App Store do iOS. E, com isso em mente, um usuário do Firefox deverá ter à mão tudo que ele configurou e gosta de usar, independentemente de em qual máquina ele está, seja desktop, laptop, tablet ou smartphone. E estaremos associando novos serviços a essa independência de hardware e de plataforma.

Além disso, nesses próximos anos, precisaremos continuar lutando pela interoperabilidade da web que já existe. Se olharmos para os últimos 10 anos, ficaremos surpresos com a quantidade de inovações, novos negócios e novas informações que surgiram porque a web é tão aberta.

Bem, exceto os celulares inteligentes. Os smartphones que carregamos em nossos bolsos não são assim, eles não são abertos. Nem mesmo a Mozilla consegue liberar o Firefox em um iPhone por enquanto.

Em termos gerais, nos próximos anos, precisamos cuidar da web. Neste momento, a maior parte do mundo e do que experimentamos na vida on-line é controlada por uma ou duas corporações americanas. E isso é um problema. Google e Apple podem ter as melhores intenções, isso não importa. Mas não é saudável para algo tão diverso e aberto como a web ser tão centralizadamente controlado em termos de como as pessoas se conectam a ela e como a usam. Assim, continuaremos lutando para tornar a web uma poderosa plataforma. Continuaremos querendo atrair desenvolvedores e usuários. Mas isso não será uma luta fácil se não conseguirmos formas de persuadir Apple e Google a não guerrear com essa filosofia. Isso é o que dominará nosso cenário nos próximos tempos. Não quero me colocar de maneira excessivamente combativa com relação a isso. Afinal, há muitas áreas em que colaboramos com essas duas companhias. Mas essa questão ainda não está encerrada.

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Carlos Alberto Teixeira, do Globo

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