Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

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A força-tarefa que organiza a rede

Por Demi Getschko em 13/01/2015 na edição 833
Reproduzido do Estado de S.Paulo, 12/1/2015; intertítulo do OI

Esta na hora da lista das boas resoluções para 2015 e vai aí uma sugestão: que tal participar de alguma reunião do IETF? São três por ano. A próxima (a 92ª) será em março, em Dallas, Texas. Para os técnicos, ir ao IETF pode equivaler a fazer o caminho para Santiago de Compostela. Há até um guia, The Tao of IETF, traduzido como O Livro do IETF e que explica a dinâmica e a etiqueta nas reuniões.

O IETF (força-tarefa de engenharia da internet, na sigla em inglês), reúne milhares de voluntários que discutem e produzem documentos técnicos e padrões da rede. Trabalha-se com padrões abertos obtidos por consenso, disponíveis publicamente, de aceitação voluntária e livres de royalties. Regras claras que permitam um trabalho em conjunto na rede. Participam do IETF técnicos, pesquisadores, professores, estudantes e qualquer interessado. Desde janeiro de 1986 produz RFCs (request for comments) das quais temos já quase 7.500. A grande maioria são apenas informativas, ou históricas, ou superadas por outras, mas todos os padrões que regem a internet estão lá, rebatizados como STDs. A definição do TCP (protocolo de controle de transmissão, padrão usado para tráfego de dados na internet) é a RFC 793, ou STD7 e há apenas 79 STDs. Outra categoria é a das RFCs que se tornaram “melhores práticas comuns”: as BCPs. Há 193 BCPs hoje (inclusive com coautoria de brasileiros, como a BCP 140, ou RFC 5358, de Frederico Neves, do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR, NIC.br).

“Tempos interessantes”

Fui a reuniões do IETF nos anos 90, das quais guardo ótimas e gratas lembranças. Um dos motivos de não voltar a frequentá-las – à parte minha natural obsolescência e às outras atividades – tem a ver com o que o saudoso escritor Rubem Alves recomendava: se gostou muito de algum lugar, melhor não voltar a ele, mesmo porque não há como voltar: o que ele representou não existe mais. Sem exageros, foi divertido participar do IETF naquela época, e deve continuar a sê-lo hoje.

Uma presença constante era a do falecido Jonathan (Jon) Postel, que era ao mesmo tempo um fundamental pioneiro da internet e a personificação de uma instituição, a Iana (Internet Assigned Numbers Authority). Outros sempre presentes eram Vint Cerf, Bob Braden e Steve Crocker (autor da RFC1). A RFC 1336, de 1992 é uma coleção de minibiografias dos participantes.

Os frequentadores típicos usavam camisetas, jeans e sandálias, além das mochilas e das longas melenas. Algo como um Woodstock tardio. A exceção era Vint Cerf, sempre de terno com colete. Mesmo ele acabou abrindo exceções: num IETF vestiu uma camiseta com os dizeres “IP everywhere”, que em inglês pode ter o duplo sentido de “IP em todos os lugares” e “eu urino em todos os lugares”.

Para reunir os interessados em discutir o Tuba (RFC1347 – TCP and UDP with Bigger Addresses), um protocolo de 1992 e hoje abandonado, que substituiria o Ipv4 em vias de esgotar, Ross Callon, seu proponente, percorria o recinto com um tocador de tuba.

Já na camiseta do Postel lia-se “vivemos em tempos interessantes, e ainda temos muito a fazer…” Mas essa história fica para uma próxima.

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Demi Getschko é conselheiro do Comitê Gestor da Internet e colunista do Estado de S.Paulo

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