Terça-feira, 22 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº955

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Medo de perder alguma coisa

Por Ronaldo Lemos em 13/01/2015 na edição 833
Reproduzido da Folha de S.Paulo, 6/1/2015; intertítulo do OI

Janeiro é o momento em que muita gente decide tirar férias. Com o período, vem junto um convidado nada bem-vindo: a ansiedade. Férias são não apenas o momento de descansar, mas também de praticar a arte de gerir as diversas modalidades de ansiedade que assombram o nosso tempo, como o “Fomo”, o “Fobo” e o “Foda” (muita calma nesta hora, já explico abaixo o que cada uma das siglas significa).

“Fomo” é o “Fear of Missing Out” (“medo de perder alguma coisa”, em inglês). O sentimento foi batizado em 2000, mas levou um tempo para se tornar epidêmico. Isso aconteceu a partir da popularização dos smartphones. Com eles, ficamos conectados à rede (e, assim, a outras pessoas) o tempo todo. As oportunidades se multiplicam. As redes sociais mostram um desfile permanente de pessoas se divertindo e fazendo coisas “incríveis”. Enquanto isso, temos de nos contentar em gerir o nosso tempo real.

Essa situação traz consigo a sensação de que estamos sempre perdendo algo, ou que poderíamos estar fazendo outra coisa melhor. Dessa forma, somos transformados em economistas do nosso próprio tempo. A todo momento temos de decidir qual é o “custo de oportunidade” de fazer alguma coisa e não outra. E lidar com a sensação de que a decisão pode ter sido errada.

Duas opções

O primo do “Fomo” é o “Fobo”: “Fear of Being Offline” (“medo de ficar desconectado”). Esse é outro drama que afeta especialmente períodos de férias. Um estudo recente do Facebook realizado em 13 países apontou que, entre jovens de 13 a 24 anos, o medo da desconexão chega a ser paralisante. Por exemplo, 75% deles se recusam a sair de casa se não estiverem com seus celulares. A pesquisa apontou que o medo da desconexão é especialmente alto entre jovens brasileiros. Como disse um entrevistado, paulista de 16 anos: “Não consigo viver sem saber o que as pessoas estão fazendo ou pensando. Se fico mais de dez minutos sem o meu celular, é muito difícil”. Em outras palavras, para quem sofre de “Fobo”, sair de férias longe da internet soa mais como um inferno do que um paraíso.

A resultante dessas modalidades de ansiedade é o “Foda”: “Fear of Doing Anything” (“medo de fazer qualquer coisa”). Com tantas opções, muita gente acaba paralisada e incapaz de tomar decisões. Se decidir implica sempre perder algo, melhor não fazer nada. Esse problema, cada vez mais comum, manifesta-se das formas mais inusitadas. Por exemplo, com a chegada dos novos serviços de música e filmes por “streaming” –que oferecem amplo catálogo–, muita gente sente dificuldade em escolher o que ouvir ou assistir. Ficam folheando o catálogo até “decidir” não ver nada.

Por tudo isso, as férias são um excelente momento para praticar como lidar com tais medos. Eu mesmo, para escrever este artigo, tive de decidir entre ficar na frente do computador ou ir correr na praia. Decidi pela primeira opção. A segunda começa logo depois deste ponto final.

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Ronaldo Lemos é advogado e diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro

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