Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

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A internet mais rápida do mundo

Por Pedro Augusto Leite Costa em 03/03/2015 na edição 840
Reproduzido do suplemento “Eu&Fim de Semana” do Valor Econômico, 27/2/2015; intertítulos do OI

A última vez, e talvez a única, que o mundo percebeu que Ephrata existia foi quando um aposentado da Boeing chamado Jim McCullar ganhou o segundo maior prêmio da loteria dos Estados Unidos: US$ 380 milhões, em 2011, após comprar um bilhete no Safeway, na Basin Street, única rua movimentada da região. De lá para cá, essa modorrenta cidade, encravada no deserto que vai da cordilheira do Pacífico até o estado de Idaho, basicamente proporciona duas alegrias aos visitantes: quando eles chegam e quando eles saem.

Mas agora, Ephrata, cujo nome é sinônimo de oásis, está virando celebridade. Segundo uma pesquisa do blog Gizmodo, os habitantes de Ephrata têm a internet mais rápida do mundo (101,6 Mbps), enquanto o resto dos Estados Unidos se conforma com 18,2 Mbps, em média. Orgulhosa do seu clima seco e frio, além da proximidade do rio Columbia, que proporciona energia barata, qualidades essenciais para refrigeração de servidores, a cidade está abrigando data centers gigantes (mais de nove) – entre eles da Microsoft, Yahoo e Intuit – e, acima, de tudo, a alegria da internet veloz para seus felizardos moradores e empresários.

É um mundo diferente, onde a vida passa devagar nas poucas ruas da cidade, mas incrivelmente rápida dentro das casas e escritórios. Os filmes são baixados instantaneamente no Netflix, os e­mails chegam e saem em centésimos de segundos, games são jogados sem interrupções e os canais a cabo deixam de fazer sentido. Segundo a pesquisa, Ephrata chega a ser mais rápida que a celebrada internet do Google, o Google Fiber, já em operação em Kansas City (Missouri) e em outras cidades americanas. “Não era nossa intenção termos a internet mais rápida dos Estados Unidos”, diz Chuck Allen, do Grant County Public Utility District, uma espécie de Eletropaulo privada da região, mas “apenas oferecer honestamente uma internet rápida para moradores e pequenas empresas daqui”.

Ephrata, assim, está fazendo história num país onde os cidadãos são vítimas da quase monopolização de provedores de internet. Basicamente, apenas os gigantes Comcast e Time Warner Cable provêm conexões decentes da chamada broadband, mas é um serviço caro e recordista de reclamações, além de sofrer críticas constantes do presidente Barack Obama por não levar a rede aos grotões dos EUA.

A situação faz com que o país fique atrás de lugares como Cingapura, Hong Kong e Coreia do Sul, que por algum tempo detiveram o título de internet mais rápida do mundo. Em lugares remotos no Arizona, onde há grande população indígena, a velocidade média da internet chega a ridículos 1,5 Mbps, ainda pior do que o Brasil (velocidade média de 2,9 Mbps).

Mas Ephrata, que tem seis escolas, uma estação de trem e um matutino, o Grant County Journal, é um oásis no mundo virtual. Aproveitando uma lei estadual que no ano 2000 liberava os distribuidores de eletricidade a fornecer também conexão rápida, a Grant County Public Utility District começou a construir por conta própria uma infraestrutura ao custo de US$ 147 milhões.

O projeto, que exigiu dos usuários de eletricidade uma suplementação única de US$ 100 na conta mensal, gerou brigas e ranger de dentes, mas quando os internautas da cidade descobriram as maravilhas da internet de fibra ótica, esqueceram­se da antiga conexão discada, DSL.

O melhor exemplo

A internet turbinada de Ephrata custa US$ 44 por mês e proporcionou melhorias na educação, nos empregos e na renda com velocidade de tartaruga que não deixará saudade entre os orgulhosos habitantes daqui.

O provedor de internet turbinada do condado, a iFiber, tem apenas 12 funcionários e oferece um serviço melhor do que gigantes como AT&T e Century Link e mais 14 outras que também disputam o mesmo mercado de conexões, mas com velocidade inferior. O mais antigo funcionário da iFiber, Alan Troupe, que passa dos 60 anos, é uma espécie de ligação entre Ephrata e o mundo. Além de ser o embaixador do Internet Service Provider (ISP), como eles chamam aqui, Troupe é também o porta­voz da cidade, função que não absorve muito do seu tempo.

Ainda não se avaliou cientificamente o efeito de uma internet super-rápida em Ephrata (que custa US$ 44 por mês), mas basta chegar à cidade para constatar como a conexão turbinada trouxe melhor educação, melhores empregos e melhor renda. Além de abrigar data centers, a região da cidade (no condado de Grant) foi também escolhida pela SGL (que faz peças de fibra de carbono para a BMW), pela Red Silicon e por muitas outras empresas cansadas de pagar pela ineficiência das empresas de internet.

Tal desenvolvimento levou os empresários locais a investir no porto seco de Ephrata, espécie de parque industrial próximo ao campo de aviação da cidade, uma imensa área que foi utilizada pela Força Aérea como centro de treinamentos durante a Segunda Guerra Mundial. Guardadas as proporções, é o mesmo conceito do aerotrópolis, o aeroporto industrial para exportação concebido em países como Cingapura e Emirados Árabes, e agora em construção em Belo Horizonte.

A cidade, que está se acostumando a ser celebridade, tornou­se também o pivô de uma antiga discussão entre democratas e republicanos nos Estados Unidos. Deveria a internet ser provida e administrada por corporações privadas ou a rede mundial deveria ser uma utilidade pública, como água, esgoto e eletricidade? Para o vereador republicano Kevin Danby, que também é do grupo Fiberactive, que tenta mostrar e defender os benefícios da internet rápida, a razão do sucesso de Ephrata é a união da comunidade em torno do projeto e a não interferência do governo. “Aqui não existe almoço grátis. Todos se uniram em torno do projeto e pagam pela conexão. A última coisa que precisamos aqui é o governo cuidando da internet”, diz Danby ao Valor.

O ex­professor Wes Crago, administrador da cidade (o prefeito eleito “terceirizou” a prefeitura), diz que já se habituou a ser o centro do noticiário. Segundo ele, o povo de Ephrata já enfrentou com sucesso outras experiências semelhantes para resolver seus próprios problemas, como a construção da Coulee Dam nos anos 30, a maior barragem americana, no rio Columbia, que hoje fornece eletricidade e água para irrigação de mais de 2.700 km. “Tivemos grande ganhos de produtividade. Trabalhamos mais rápido, transferindo arquivos gigantescos e nos comunicando instantaneamente com vários departamentos, dentro dos nossos próprios servidores. O melhor foi a redução de funcionários públicos aqui na prefeitura, já que nos tornamos mais eficientes. No futuro, certamente não seremos um novo Vale do Silício, mas estamos plantando as bases para atrair mais negócios”, diz Crago.

Para o administrador, o mundo caminha para a interconexão, e as cidades que não se ajustarem a essa realidade ficarão para trás. É o mesmo fenômeno que a região viu nos anos 30 com a distribuição de eletricidade. “Uma das coisas que mais me chama a atenção é que a internet rápida proporciona a criação de negócios que jamais teríamos aqui, como a produção de noticiário local distribuído pela internet”, diz.

Foi o que fez Kelly Ryan. Com 64 pequenos investidores locais, criou a iFiber. Para aproveitar a capacidade instalada (“um dia vamos chegar a milhares de Mbps”, promete), Ryan criou nada menos do que um canal de televisão, o Channel 1, que já tem 230 mil telespectadores na TV e na internet. “Falamos basicamente do que acontece aqui: pequenos crimes, esportes – minha paixão – e previsão do tempo.”

Ryan, que além de presidente e CEO é uma espécie de pau para toda obra na iFiber, quer ficar longe de governo e, principalmente, dos reguladores. Seu inimigo número 1 é a Comcast, a maior empresa de broadband dos Estados Unidos, que utiliza os antigos fios de cobre da telefonia para levar internet e faz intenso lobby no Congresso para evitar que empresas como a iFiber – que utilizam fibra ótica – proliferem e, pela excelência da transmissão, tornem­se concorrentes.

Ephrata é o melhor exemplo do que a Federal Communications Commission, a agência reguladora dos Estados Unidos, quer proporcionar no país: uma internet semelhante à rede elétrica, ou à rede de água e esgotos, que chegam igualmente a todos os cidadãos, independentemente da utilização final. Foi o que declarou seu presidente, Tom Wheeler, que tem uma visão semelhante à da Casa Branca.

Participação cívica

A chegada da superinternet à Ephrata High School, no início do milênio, transformou a escola pública de 743 alunos em uma das melhores escolas públicas dos Estados Unidos. Esse colégio de ensino médio da cidade já era famoso no futebol americano, por meio do Tigers, mas a conexão rápida mudou a vida de administradores, professores e principalmente dos alunos, que já chegam a utilizar 20% do tempo em frente ao computador.

Bem administrada, a escola acaba de comprar 457 chromebooks, o laptop de baixo custo (e sem disco rígido) para tornar o trabalho mais rápido. O fenômeno proporcionou aulas mais eficientes, deveres de casa mais rápidos e, principalmente, a experiência da colaboração. Por meio de aplicativos de trabalho conjunto, como o Google Docs, os alunos dividem as tarefas, fazem redações com dezenas de sugestões e, acima de tudo, aprendem a colaborar, diz a professora Sheila Massey.

O trabalho mais difícil, segundo o diretor da escola, Daniel Martell, é fazer os alunos ficarem cientes do perigo de ataques cibernéticos, dos predadores e, mais ainda, aprenderem que a tecnologia foi criada para colaborar, e não apenas para proveito próprio – “assim como de resto todas as atividades da sociedade”.

O que a internet rápida proporciona, nota o professor de tecnologia Dane Lewman, é a agilidade de fazer as tarefas instantaneamente e ainda poder fazer a avaliação dos estudantes da mesma forma. Lewman, que deixou de ser diretor de uma startup para lecionar, diz que a Ephrata Hight School funciona na velocidade da iniciativa privada. “O caminho entre uma ideia e o resultado dessa ideia, tanto na parte dos aplicativos como na área de games, é cada vez mais curto”, afirma. “O mais engraçado é que os estudantes não notam que a internet é fantástica. Eles já nasceram com ela.”

Além do crescimento econômico e da geração de empregos, conexões rápidas permitem, por exemplo, que os sistemas de saúde transmitam instantaneamente imagens complexas, liguem pacientes e médicos via Skype e, assim, removam barreiras geográficas para onde a medicina pode chegar.

Mas é na educação, o maior nivelador de oportunidades para todos que já existiu, é que a internet rápida multiplica infinitamente as possibilidades de aprendizado da população do século 21, desde o jardim de infância à pós­graduação. Hoje, milhões de estudantes americanos em diferentes níveis estudam boa parte do tempo longe dos campi das universidades. Unir professores e alunos em experiências cada vez mais virtuais exigirá uma banda larga que cresça exponencialmente.

As pessoas hoje vivem cada vez mais. A internet também é fundamental para os aposentados terem uma vida independente, estando sempre em contato com médicos e familiares. Eliminando a necessidade de deslocamentos, a banda larga também tem grande impacto no gasto de energia e na proteção do meio ambiente, pois as pessoas deixam de utilizar carros ou transportes públicos para trabalhar.

Nos EUA, a grande sensação da banda larga é o governo eletrônico e a participação cívica. Prefeituras de Nova York e San Francisco, por exemplo, estão fazendo sucesso com os serviços de telefone 311 (que proveem acesso a serviços não emergenciais), especialmente via web, de contato direto com a população.

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Pedro Augusto Leite Costa, para o Valor Econômico, em Ephrata (EUA)

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