Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

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Como e por que tirar uma ‘selfie’

Por Luli Radfahrer em 10/03/2015 na edição 841
Reproduzido da Folha de S.Paulo, 3/3/2015; intertítulo do OI

Nos últimos anos, a selfie –aquele autorretrato informal, tirado com smartphone segurado na ponta da mão – se tornou um hábito. Em praticamente todo lugar público tem alguém fazendo biquinhos e caretas para um retângulo de vidro. Nas mídias sociais, se o braço é visível, a selfie é certa. Para resolver esse problema, monopés de bolso se tornaram o carro-chefe dos camelôs, permitindo que casais em restaurantes possam esticar o telefone à distância para tirar sua foto romântica, liberando o pobre garçom.

O hábito já não é mais coisa de adolescentes autocentrados. De astronautas no espaço ao papa no Vaticano, é raro quem não tenha seu autorretrato publicado em uma das redes, muitas vezes em ocasiões pra lá de inoportunas. Mas, se causou polêmica a foto tirada pelo primeiro-ministro dinamarquês com Barack Obama e David Cameron no funeral de Nelson Mandela, quando a Samsung pagou para Bradley Cooper tirar selfies com outros atores na entrega do Oscar, ninguém estranhou. Nem pediu royalties.

O autorretrato é anterior à fotografia. Rembrandt e Van Gogh são famosos por usá-lo como técnica de aprendizado e experimentação. Mas, se nos anos recentes o smartphone facilitou a prática, o resultado ainda está mais para um feito da tecnologia do que para uma obra de arte.

Nas redes, praticamente tudo o que se vê é a execução das mesmas poses. Gente no vestuário da academia, no banheiro em frente ao espelho, montada para a balada, bacana em uma sala VIP, doidona esperando a saideira, uniformizada no jogo de futebol, brindando no restaurante, jogando videogames, de pés para o alto na praia, posando na frente de um carrão, ao lado de celebridades. Quem não viu várias dessas hoje? Quem nunca tirou uma dessas?

Dose certa

Algumas técnicas simples podem melhorar bastante uma selfie. A escolha de um fundo colorido e uniforme, como uma parede ou cortina, ajuda a simplificar a imagem e chamar a atenção para a pessoa fotografada. Outro cuidado importante é com a luz. É importante ficar de frente para ela. E tomar cuidado com o flash, para que a luz não fique muito forte.

Posar com objetos ajuda a compor a cena. Ângulos inusitados, associados a uma boa linguagem corporal, tendem a criar fotos bem acima da média. O autorretrato não precisa valer por mil palavras, mas é desejável que valha mais do que um tuíte.

O que leva a uma questão mais complicada. Por que se tiram selfies?

Um pequeno histórico das transformações na mídia talvez ajude a compreendê-las. Até a década de 1990, a mídia de massa proporcionava uma fuga da realidade transportando leitores e telespectadores para um universo ficcional de sitcoms, novelas e séries. Depois os reality shows viraram a câmera e a atenção para o indivíduo banal em todo o esplendor de sua boçalidade. Mídias sociais democratizaram o voyeurismo antes reservado a celebridades, tornando-o acessível a todos, o tempo todo.

Hoje o segredo do sucesso de cada nova rede social parece estar em um exibicionismo declarado. Facebook se tornou uma espécie de dicionário ilustrado das pessoas comuns, que embelezam o perfil para tornar suas vidas especiais. YouTube é a TV de quem não tem muito o que dizer mas adora berrar para uma câmera. Blogs e Tumblr deram vazão à expressão em GIFs e texto, mesmo que seja só para propagar a zoeira. Twitter criou audiências cativas e hashtags. LinkedIn se especializou nas análises positivas. Instagram abriu o espaço para selfies, consolidadas pelo Tinder. WhatsApp ressuscitou emojis, aqueles desenhinhos que pareciam confinados a nerds asiáticos. Snapchat e Vine abriram caminho para o mini-vídeo-selfie. Em comum, todos transformam seus usuários em espetáculo de si mesmos.

Na era do narcisismo digital, as oportunidades de ostentação são gigantescas. Nunca foi tão fácil, nem tão popular, ser um fanfarrão. Apesar de todos estarem conectados, a empatia e o interesse pelo outro são mínimos, a não ser para pedir sua aprovação. Basta examinar o conteúdo das fotografias para perceber que elas estão lá mais para chamar a atenção dos outros do que para relembrar momentos marcantes.

Há um fascínio curioso em espionar a vida alheia, correspondente a uma tentação exibicionista em ser visto. Por mais que tais atitudes pareçam brincadeiras inocentes e passageiras, sua prática constante pode criar uma dependência da rede e um falso sentimento de confiança. Em vez de estar bem com o que se é, é comum ver gente desesperada em busca da foto certa, com os detalhes perfeitos.

Quem condiciona o status social ao desempenho de uma selfie, corre o risco de se tornar carente, ansioso e dependente de uma mídia que tem pouco de social. Na competição diária e contínua ninguém tem paciência para ouvir histórias pessoais. O que importa são fotos de corpos, lugares e luxos tão supérfluos e inatingíveis quanto as beldades retocadamente perfeitas do Instagram.

A rede social é concêntrica, e o centro está no umbigo de cada um. Talvez por isso seja tão excêntrica. Mas ainda é melhor ter um ambiente exibicionista que desafia o comportamento castrador e controlador das ideologias totalitárias do que um regime hipócrita e que limita escolhas através de códigos de conduta e decência. Bem dosada, a publicação de autorretratos em redes sociais pode ser questionadora e libertária. Contanto que tenha algo a dizer.

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Luli Radfahrer é professor-doutor de Comunicação Digital da ECA (Escola de Comunicações e Artes) da USP autor do livro Enciclopédia da Nuvem; mantém o blog www.luli.com.br

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