Quinta-feira, 21 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

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O Apple Watch faz sentido?

Por Pedro Doria em 16/03/2015 na edição 842
Reproduzido do Globo, 10/3/2015; intertítulo do OI

Noutra encarnação, colunista doutro jornal, previ convicto que o iPhone seria um fracasso. Quem, afinal, gostaria de misturar o iPod com seu celular? Imagine numa corrida pela Lagoa ter sua música abruptamente interrompida por uma ligação. Mas, vá: anos depois me recuperei perante o iPad. Apostei que ele criaria, enfim, um mercado para tablets. E criou. Fez mais do que isso. Forçou o nascimento de smartphones intermediários, grandalhões, que pudessem fazer o papel de dois em um. O Apple Watch é, portanto, a oportunidade do desempate. Que colunista de tecnologia, afinal, pode ser levado a sério se não é capaz de sentir o pulso do público, de seus mais íntimos desejos tecnológicos? A pergunta: o Apple Watch vai dar certo?

E a resposta: sim e não.

Ficar em cima do muro não vale, pois é. Mas me abençoe o poeta Fernando Pessoa se cometo esta vileza, esta cobardia. A resposta é que, sim, o Apple Watch dará certo. Mas que, não, seu real sucesso não será imediato.

Ainda não decidi se o adotarei na primeira geração. Uso faz uns meses um FitBit Charge HR. É meu quarto aparelho digital de vestir. Como o Apple Watch, meu FitBit mede constantemente a frequência cardíaca, ajuda num cálculo razoavelmente preciso do gasto calórico diário, dá uma noção do nível de atividade física. Quando alguém telefona, treme e diz no visor quem é. Este ramo dos aparelhos de vestir vem crescendo há algum tempo e é bifurcado. Umas empresas investem no aspecto fitness, buscam medir atividade. Outras buscaram uma extensão de pulso das funções do smartphone: comunicação, fotografias, música. A Apple não é a primeira a juntar os dois lados. Mas parece ser a primeira a fazer os dois, simultaneamente, no nível máximo que a tecnologia permite.

É, porém, uma tecnologia que ainda flerta com limites claros. O Apple Watch é gordo, uma chapa grossa de metal pendurada no pulso. Consome bateria loucamente: segundo a empresa, precisa de uma recarga a cada 18 horas. (Não poderá medir qualidade do sono.) Em contrapartida, sua interface é elegante. A tradição da Apple, há mais de 30 anos, não é marcada por aparelhos radicalmente inovadores. Sua marca é pegar as novíssimas tecnologias lançadas e costurá-las de forma harmônica como ninguém jamais o fizera.

Primeira geração

Por isso, trata-se da empresa de maior sucesso no mundo. Alguns fazem pouco caso: um produto de luxo cuja compra é injustificável. Quem convive com tecnologia de inúmeras marcas, porém, sabe que o nível de dores de cabeça com Apple costuma ser muito menor do que a média. Produtos Apple são por natureza intuitivos. Misture a isso uma boa dose de publicidade bem construída, constantemente confirmada pela experiência, e o resultado final é esta marca invejável e o caixa mais bem forrado do capitalismo.

Por trás do iPhone e do iPad havia Steve Jobs. O Apple Watch é criação de Jony Ive e Tim Cook. Um é o excepcional designer britânico, e o segundo, um executivo de carreira americano cuja especialidade é a integração de uma complexa cadeia produtiva. Ambos escolhas de Jobs. Mas nenhum dos dois é Jobs. Se o Apple Watch vender alguns milhões de unidades quando chegar às lojas, estará ali um indício de que a empresa continua capaz de brilhar após a perda de seu genial fundador.

Sim e não? O Apple Watch venderá mais do que nenhum smartwatch jamais vendeu. Mas esta primeira geração ainda não será suficiente para convencer o mundo de que todos precisamos dum smartwatch.

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Pedro Doria, do Globo

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