Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

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Os novos códigos da geração

Por Renato Delmanto em 24/03/2015 na edição 843
Reproduzido do site da Associação Brasileira de Comunicação Empresarial (Aberje), 26/2/2015; intertítulo do OI

Minha filha de 10 anos lê o cartaz de um hotel que diz: “Café da manhã, ar-condicionado, internet sem fio”. Em seguida, pergunta: o que significa internet “com fio”?

A pergunta surge porque ela faz parte de uma geração que não conheceu a tal internet “com fio”. Ela faz parte dos chamados digital natives, uma geração nascida já num mundo em que as interfaces comunicacionais e eletrônicas já tinham como base um contexto digital. Já nós, os pais deles, somos “adaptados” a esse mundo digital, e convivemos (por boa parte de nossa existência) com a era analógica.

Nesse mundo atual, vários conceitos cunhados há apenas alguns anos, perderam o sentido (em parte ou totalmente). Por exemplo, produtos outrora inovadores, como o BIP, a extensão telefônica, a TV a cores, o controle remoto, o videocassete, o 3 em 1, o toca-fitas, o CD, o disquete, o Palmtop…

Mas a grande transformação em curso nessa geração não é tanto a relação com os equipamentos vintage – até porque algumas interações deles com essas peças rendem experiências bastante divertidas (como colocar uma criança, pela primeira vez, diante de uma máquina de escrever!).

A grande mudança está na velocidade de resposta que eles esperam em todos os processos comunicacionais. A necessidade de um imediatismo na resposta.

Em palestra recente, o professor Silvio Meira lembrou que, em 1860, enviar uma carta de Nova York para São Francisco, de costa a costa nos EUA, demorava cerca de 30 dias para chegar, caso fosse de vapor; se fosse de carruagem, chegaria mais rápido, seriam só 23 dias! Brincou o professor que aquele era o whatsapp do século 19, e podia demorar mais de 60 dias para ser respondido…

Hoje, ao usar o WhatsApp ou outros aplicativos similares, conseguimos até saber quando foi que nosso interlocutor esteve conectado pela última vez. É um bom exemplo da era da conectividade 24/7.

Na era desses aplicativos (WhatsApp, Netflix, Snapchat), tudo é urgente, tudo pode ser acessado on demand, o acesso à informação não depende mais do broadcast, tudo deve ser respondido imediatamente. No caso do Snapchat, pode-se até definir quantos segundos a imagem enviada ficará disponível para seu contato, antes que ela se autodestrua.

Força de trabalho

Estamos vivendo uma revolução digital, um tempo de ressignificação de um conceito da sociedade de consumo bastante estudado, o da “obsolescência programada”. Este conceito está sendo transformado em uma espécie de “obsolescência não-programada”, pois em poucos anos, algumas criações digitais aclamadas como geniais em seu lançamento podem cair em desuso ou simplesmente desaparecer.

As redes sociais surgem e desaparecem numa velocidade incrível. Para nós, “adaptados”, as principais redes são recentes, mas para os digital natives, Facebook (que se popularizou a partir de 2006), Twitter (2006) e LinkedIn (2003) já são criações “antigas”. Se olharmos as redes sociais numa perspectiva histórica, vamos deparar com várias que, se não morreram, estão definhando – como o ICQ (lançado em 1996), Napster (1997), Blogger (1997), AIM (1997), Orkut (2004) e o SecondLife (2003). Nesse mundo dos negócios digitais, a curva de aprendizado de um novo business pode ser extremamente acelerada em relação à “velha economia”, o que proporciona a possibilidade de sucesso muito mais rápido. Mas por outro lado, a infidelidade dos usuários assusta os empresários, pois o sucesso de hoje não significa a perenidade do negócio.

O imediatismo e a mobilidade transformaram os negócios digitais, os negócios tradicionais e principalmente a comunicação. Dados recentes dão conta que 21% do comércio eletrônico já é feito em dispositivos móveis. O WeChat, aplicativo que só funciona em celulares, já tem 355 milhões de usuários e ganha 40 mil novos a cada hora. No Snapchat, 350 milhões de fotos são compartilhadas a cada dia. O Facebook já passou de 1,35 bilhão de usuários mensais, sendo 864 milhões de active users por dia – e 703 milhões deles usando dispositivos móveis. No Facebook, são postadas por dia 350 milhões de fotos e são dados 4,5 bilhões de likes. No YouTube, são assistidos, a cada mês, 6 bilhões de horas de vídeos – e 68% dos usuários compartilham os vídeos que assistem. No Twitter, 40 milhões de tuítes são postados por dia.

Em resumo: a forma de consumir mídia e de se comunicar com os outros mudou radicalmente. Se antes ligávamos o rádio do carro para saber a previsão do tempo ou nos julgávamos com o “poder” de escolha diante da TV – apenas por termos o controle remoto na mão –, essa nova geração é totalmente on demand, quer e consegue tudo no momento desejado.

Esse imediatismo é justamente o que mais desafia as empresas em como endereçar as expectativas e como lidar com os digital natives. Às companhias e seus líderes, cabe entender os novos valores e comportamentos que caracterizam esses jovens profissionais. Eles fazem parte de uma primeira geração “global”, que tem uma perspectiva mais horizontal em relação ao mundo e às relações pessoais e profissionais. Possuem novos códigos de trabalho.

No passado, as empresas eram uma “janela para o mundo”. Hoje em dia, como o mundo está a um clique de distância, as empresas passaram de “janela” a limitadora dessa perspectiva de desenvolvimento.

E o que devem fazer os líderes das empresas diante desses novos profissionais?

Essa é a pergunta do milhão. Mas uma pista de resposta pode estar em trabalhar com transparência, dar espaço para criarem e inovarem, entender que a vida, para eles, é uma jornada com um propósito. E compreender que, se a empresa também não tiver um propósito que seja aderente ao deles, essa relação terá vida curta.

A nós, os adaptados, cabe compreendê-los e aprender com eles – da mesma forma que eles irão aprender conosco. Do contrário, estaremos atuando como blockers, limitando o espaço para a inovação e para a liberdade para criar. E, em consequência, criando as condições perfeitas para evasão de talentos.

A velocidade com que as tecnologias estão se desenvolvendo pode até assustar a nós, que somos adaptados. Mas não podemos nos assustar com os novos códigos dessa geração. Em até 10 anos, eles serão mais de 50% da força do trabalho. Como futura minoria no ambiente de trabalho, caberá a nós entender esses novos códigos e encarar esse desafio. Afinal, somos adaptados, mas jamais poderemos ser defasados.

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Renato Delmanto é jornalista e gerente geral de Relações com a Mídia do Grupo Votorantim

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